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Aprender a produzir e a interagir com objetos multimídia e o hipertexto

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3.2. Aprender a produzir e a interagir com objetos multimídia e o hipertexto

As imagens (fotos, desenhos, vídeos), o texto (falado ou lido) e os sons foram elementos expressivos articulados por todos os jovens em suas práticas multimídia. As imagens, articuladas aos textos e sons, facilitaram para alguns deles uma melhor compreensão dos manejos de dispositivos digitais variados, o que permitiu que pudessem se perceber capazes de atuarem como produtores no ciberespaço. João começou a usar blogs como um diário pessoal, antes de utilizar a ferramenta para práticas artísticas e jornalísticas.

Fui mexendo. Fui mexendo mesmo, fuçando. Cê via… Eu via o desenho das coisas, né? E falava tá, isso deve ser pra isso. Tipo assim, vão tentar pra ver. E aí era apertando mesmo, era tipo fuçando. E aí descobri o blog na minha

vida (JOÃO).

A possibilidade de encontrar respostas em meios digitais, com outras linguagens, foi destacada por João ao explicar a potência educativa da linguagem audiovisual, o que o levava a imaginar outros pontos de vistas, experimentando sensações de imersão em ambientes que não conhecia. Declarou que essa experiência visual, sonora, ajudou a compreender com mais facilidade determinados assuntos, “ver a geografia” de outros lugares, “olhar com os olhos de um animal”. Martín-Barbero (2000) nos fala da força das imagens na cultura popular, linguagem mais “universal” do que o texto e suas sintaxes. Para o autor, os saberes e os imaginários contemporâneos não se organizam, há mais de meio século, em torno de um eixo letrado, e o livro não é mais foco ordenador do conhecimento. O maior aprendizado com a produção de imagens passava a ser o de aprender a olhar, saber narrar e tomar decisões do que mostrar.

Mas sei lá, se fosse pra “mim” explicar, eu ia explicar justamente isso, ter um olhar, um olhar crítico, saber onde, o quê que ela vai fazer, como é que “tá” o clima do local que ela “tá”, saber projetar bem sobre isso, utilizar bem a ferramenta e ter um senso crítico e… se virar. Aprender a se virar. O importante é você “tá” sempre ali se virando, fazendo com que o seu papel, o que você gosta de fazer esteja indo pra frente (WOC JAY).

A facilidade recente de manejo das imagens fazia com que os jovens se sentissem mais seguros para ensinarem o que aprendiam em suas práticas e para aprenderem manejos com equipamentos. Os softwares de edição de imagens, textos e sons facilitavam o uso, tornando a bricolagem uma prática comum, naturalizada, que produzia sentidos múltiplos e diversas formas de apropriações expressivas, política e socialmente. A cultura remix facilitava a criação e eles não só articulavam produções de mídia aos respectivos cotidianos, como as recriavam sem fronteiras claras entre práticas, papéis e lugares onde se inscreviam como autores. Virtuais ou não, são práticas nas quais e a partir das quais dizem de si e do mundo. Além da força das imagens e dos sons, os jovens falaram das características do hipertexto e dos hiperlinks.

O que me interessou foi a interligação das coisas assim, sabe? Tudo se liga na internet. Tudo. Tipo, se começava a pesquisar sobre ciclismo, que foi meu objeto de estudo, e aí eu tava ali no Facebook mesmo, do nada já me puxava um link pra eu ir para blog de não sei quem, que desse blog eu já ia pro Flickr60 da pessoa, que já me mandava... E era isso assim, essa... Tem nome. Eu esqueci o nome... Acho que teoria da cauda longa mesmo, que as coisas vão tipo puxando uma atrás da outra, assim, e vai criando essa cauda assim da internet. Aí que a gente foi estudar. Cara, eu fiquei tão chocado que eu fui !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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estudar o Google de verdade. Tanta opção que tem no google e a gente só usa pra pesquisa, eu só usava pra pesquisa. Aí que eu fui aprender a mapear pelo Google Maps e eu ficava nossa, que incrível! (JOÃO).

Canclini (2008) escreve sobre as mudanças ocorridas nas formas de consumo clássicas, nas quais um sujeito espectador mobiliza disposições diversas quando assiste a um filme, frequenta salas de cinema, liga a televisão. Em compensação, quando falamos no internauta,

[…] fazemos alusão a um agente multimídia que lê, ouve e combina materiais diversos, procedentes da leitura e dos espetáculos. Essa integração de ações e de linguagens múltiplas redefiniu o lugar onde se aprendiam as principais habilidades (a escola) e a autonomia do campo educacional (CANCLINI, 2008, p. 22).

Seguir o “passo a passo” de uma atividade, aprender em canais de vídeo na web era prática comum para os jovens da pesquisa. Receitas de culinária, dicas de maquiagem para peles negras, orientações de programação, técnicas de grafite e de produção sonora, entre outros assuntos, são saberes-objeto procurados pelos jovens. Os canais de jogos e de dicas de uso de ferramentas digitais eram os mais acessados, e os vídeos pareciam substituir com vantagens as enciclopédias e manuais de instruções. Observar os movimentos, segundo João, facilitou a compreensão de determinados assuntos.

Nem sempre manejos de técnicas de grafite ou de uso de programas são facilmente representados com imagens estáticas ou com palavras. Sennet (2008) observa que as ilustrações da famosa Enciclopédia de Diderot61 compensavam a incapacidade dos trabalhadores de explicarem em palavras seus modos de fazer, seus gestos, suas técnicas de operação de novas máquinas. Essa é uma referência interessante quando se verifica que o uso das câmeras de celulares e a cultura televisiva deram aos jovens possibilidades interessantes de se inscreverem nos espaços midiáticos e sistematizarem seus saberes.

A informação e o conhecimento ganham outro estatuto: consumir audiovisual, em muitos casos, é produzir audiovisual. As fotos e vídeos publicados em redes socais são bons exemplos do deslocamento dos papéis de produtores e consumidores. Informações tornam-se mercadoria, pois é preciso pagar para acessar a web, postar fotos, usar canais de vídeos que, quando ganham muitos seguidores, serão patrocinados por grandes empresas da “indústria criativa”, termo usado pelos homens de negócio dessas empresas – e por alguns órgãos responsáveis por políticas públicas – para se referir à indústria do entretenimento digital. Mas,

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61 Em junho de 1751, Denis Diderot e Jean d’Alembert apresentavam ao mundo o primeiro volume da Enciclopédia, ou Dicionário razoado das ciências, das artes e dos ofícios. Os últimos de seus 28 volumes saíram em 1772.

para além dessa faceta, as máquinas digitais permitiram também outras formas de produção de arte e cultura e, para Woc Jay, o mais importante era pensar num uso consciente das imagens produzidas: é necessária a crítica à produção que espalha imagens sem qualquer consciência social e ética.

Eu acho importante a pessoa ter um olhar, onde ela estiver, onde ela chegar. Dependendo se é uma parada da igreja, se é um manifesto. Ela ter um olhar e saber ter um olhar que… Um olhar que eu posso te dizer como? Um olhar como que vai acontecer aquilo. Ela tem que tá de uma certa forma é… Projetar o que que ela pode fazer naquela situação, entendeu? Caso se vai acontecer alguma coisa, se não vai acontecer, entendeu? Ficar sempre atenta a poder utilizar as ferramentas que ela tem. E também o lado crítico que eu acho muito importante. O lado crítico e o lado curioso, entendeu? (WOC JAY).

Alguns aprendizados não são produzidos apenas com manejo de softwares. Muitas vezes, ao contrário, esses objetos digitais não estimulam um uso mais consciente de recursos técnicos e expressivos, pois as interfaces poderiam, segundo os jovens, levar a hábitos de uso mecânicos, padronizados demais.

A interligação e o controle em tempo real das novas mídias, segundo Manovich (2005), constituem fenômenos sociais qualitativamente novos. Há um aumento de consumo de smartphones nas camadas populares,62 mas somente dois jovens entrevistados tinham acesso aos aparelhos multifuncionais e à mobilidade e conectividade constantes. Somente 30% dos estudantes da escola afirmaram possuir celulares multifuncionais com conexão de internet. João e Rayane disseram que só após conseguirem um trabalho puderam comprar seus aparelhos e sustentarem seus hábitos de consumo midiático. A mobilidade e a multifuncionalidade agradavam João, que disse não ter mais paciência de usar o computador. Novos usos e novas formas de consumo são estimuladas pelas novas tecnologias disponíveis e, particularmente, a agilidade e a praticidade dos celulares era o que agradava alguns dos jovens.

O controle remoto de tecnologias e a possibilidade de sincronicidade temporal eram soluções que se mostravam para alguns dos desafios enfrentados pelos jovens, diante da necessidade de executarem muitas tarefas. Por outro lado, impunha a eles problemas novos. Se, por um lado, os jovens afirmavam gostar da possibilidade do melhor aproveitamento de tempo, por que podiam, por exemplo, ler textos, escutar as aulas que gravavam, resolver problemas com vendas de produtos durante um percurso de ônibus, por outro lado, alguns

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62 Dos jovens participantes da seleção da quarta turma da Oi Kabum!, 52% declararam que há, pelo menos, um desses aparelhos em suas casas.

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deles reclamaram do excesso de atividades e do incômodo de serem contatados a todo instante pelos coletivos, por suas mães, pelos chefes do trabalho, pelos clientes. Os dispositivos eletrônicos exigiram que os jovens aprendessem a controlá-los, desligando-os, adequando-os às suas pesadas rotinas para que conseguissem operá-los com êxito em atividades de seus interesse. Todos os jovens disseram que não gostavam de usar celulares para conversar e disseram gostar de fazer outras coisas enquanto conversavam, poderem controlar seus tempos, o que, na realidade, parece ser um privilégio de poucos. A rotina semanal impôs a eles o abandono de atividades prazerosas, limites ao tempo de estudo ou de fruição de trabalhos artísticos.

Enquanto os pós-modernos celebram a mobilidade e o nomadismo, a desterritorialização e a facilidade com que nos comunicamos, na verdade nem todos podem fugir à exigência de estar sempre disponíveis, à vigilância daqueles que lhes recordam que você pertence a uma empresa e a um lugar mesmo estando em outra cidade ou um outro país (CANCLINI, 2008, p. 41).

Foi possível identificar, nesse contexto, que os jovens relacionaram a velocidade e o excesso de informação com a dificuldade de “reterem” o conhecimento. Alguns deles repetiram as preocupações e os discursos sobre o risco de superficialidades decorrentes do excesso de informação e demonstraram preocupação com a acomodação causada pela facilidade de consumo dessas informações.!

Porque a vantagem é essa questão de você ter a comunicação mais rápido, mais fácil, esse contato mais preciso, não sei… Mais rápido! E do outro lado você perde muita informação, entendeu? Fica aquela informação flash, você leu, entendeu, passa meia hora, você não sabe mais o que foi abordado, entendeu? (WOC JAY).

A comodidade da informação disponível a qualquer tempo e a partir de qualquer lugar remeteu-lhes a certa preguiça que a internet e os meios digitais poderiam provocar na busca por alguma informação, restringindo a experiência de conhecimento. Todos os jovens falaram da importância de acessarem livros, acervos públicos e outros meios de pesquisa.!

Ai, ponto negativo… Eu acho que ela gera preguiça também. Acho que da mesma forma que ela te dá o conhecimento, tipo fácil, isso pode tornar um vício, né? Se tornar algo vicioso. E aí cê sempre vai ali e não pesquisa por outros caminhos, né? Eu tenho uns caminhos que podem ser mais antigos, mas que às vezes eles funcionam mais e são mais verdadeiros do que a internet, né? (JOÃO).