CAPÍTULO 2 DA TUTELA À INTERCULTURALIDADE: EXPERIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO SUPERIOR
2.5 APRENDER E ENSINAR ANTROPOLOGIA NO CURSO DA OGPTB
No momento em que cheguei ao Centro de Formação dos Professores Ticuna –
Töru Ngepatu, na comunidade de Filadélfia, fiquei impressionado com toda a movimentação
do grande número de pessoas que andavam por todas as direções em busca de suas salas de aula. De imediato, chamou minha atenção a presença de dezenas de crianças que corriam por entre as salas ou que andavam de mãos dadas junto aos seus familiares, os professores indígenas Ticuna, Kocama, Kaixana, Kambeba e Witoto.
Perto da cozinha, aceitei o convite para um café e enquanto me alimentava, ouvia atento às conversas na língua ticuna e conseguia identificar que os olhares avaliativos e as palavras “professor” e “Manaus” referiam-se a mim. Após este momento, juntei-me a um dos coordenadores do curso para pedir que me levasse até a sala de aula.
No percurso, por cada grupo de professores indígenas que passávamos, ouvíamos reclamações na língua Ticuna e que terminavam em claras expressões na língua portuguesa: “falta de organização!”, “irresponsabilidade!”, “tem que seguir o nosso projeto!”. Preocupado com os olhares pouco amistosos, perguntei ao coordenador:
- O que está acontecendo?
- Não ligue para isso! Olha, vou lhe dizer para ter o máximo de cuidado com o seu trabalho, pois tudo o que nós estamos fazendo está sendo avaliado por eles e pode se tornar algo maior por conta desse problema que estamos passando.
- E que problema é esse? Perguntei ao colega, responsável pela coordenação pedagógica do curso.
- É uma longa história, mas resumidamente é o seguinte: a organização dos professores está dividida. Há um grupo que defende as antigas assessoras e exige à volta dos antigos professores. O outro grupo acha que estavam sendo enganados pelas assessoras e defendem a participação da UEA no projeto. [...] Você vai perceber isso na sala de aula, mas tenho certeza que conseguirá ter jogo de cintura para lidar com isso.
Em sala de aula, fui recebido pelos olhares desconfiados e incrédulos quando me apresentei como natural de Manaus e egresso de uma universidade local. Do fundo da sala de aula, ouvi em alto e bom português: - Será que ele vai saber dar aula pra gente? No semblante dos professores indígenas percebi o descontentamento e certa antipatia para com a minha naturalidade e origem acadêmica.
Alguns evitavam o contato visual comigo e fitavam o chão. Por longos minutos não sabia como agir, até ver alguns sorrisos tímidos e olhares curiosos que não se desviaram de mim
e assim, transmitiram-me a segurança que eu precisava para manter-me diante do quadro de giz.
Todos os alunos olhavam-me concentrados e silenciosos. Em suas faces e nos olhares desviantes, pude ver um pouco de nervosismo e muita humildade. Escrevi meu nome no quadro negro e comecei a conversar com os alunos sobre a disciplina de antropologia através da pergunta: o que faz um antropólogo?
As respostas vinham através de sorrisos constrangidos, tímidos ou de expressões sérias e fechadas, mas de imediato, eu ouvia que o antropólogo era aquele que “estuda as culturas indígenas”, “trabalha na demarcação da terra” e “ajuda ao povo indígena a resgatar as culturas”.
Lembro-me de ter anotado no quadro, cada uma das contribuições dos alunos e, a partir delas, comecei a explicar sobre as possibilidades de atuação profissional do antropólogo, pontuando sobre trabalhos na área de saúde e citei pesquisas como as da antropóloga Regina Erthal e de João Pacheco de Oliveira, entre outros nomes da antropologia brasileira que surgiram para exemplificar o fazer dos antropólogos.
Comparei o trabalho do antropólogo ao trabalho de figuras locais, tais como o pescador, o agricultor e o caçador. Expliquei que cada profissional tinha a sua forma de ver e pensar sobre o mundo e que para fazer o seu trabalho, precisava de uma ferramenta. A partir daí, lancei outra pergunta: qual a ferramenta de trabalho do antropólogo?
Alguns se arriscaram em dizer que o antropólogo é aquele que vai nas comunidades e tenta “saber da realidade, de como vivem as pessoas”. Outros indicaram que “é um profissional que sempre anda com uma máquina fotográfica ou uma rádio (gravador)”. Parti dessa ideia de “realidade” para falar de cultura e iniciar o assunto que ocuparia boa parte do curso.
Disse-lhes que a cultura era um conceito, uma palavra abstrata para falar sobre alguma coisa que existe no mundo. E que para o antropólogo, a “cultura” era como um óculos que o ajudava a ver a realidade de como as pessoas vivem, o que fazem e o que pensam por meio da etnografia, a nossa ferramenta de trabalho.
Em silêncio, todos acompanhavam meu caminhar pela sala com os olhares e eu comecei a exemplificar que a cultura nos permitia ver o que há de diferente no mundo, pensando na ideia de relativismo cultural, citei exemplos de coisas que tinham valor para um povo e que poderiam ter o valor oposto para outros grupos.
Enquanto eu falava sobre artesanato, meio ambiente e rituais indígenas, alguns alunos bocejavam sonolentamente. Um dos alunos que ainda estava acordado brincou: “a
fulana, aqui ela é a mulher mais bonita de todos os ticuna”. Todas riram e alguns acordaram diante da brincadeira feita pelo colega e eu aproveitei o momento de descontração para falar de beleza e estética.
Aproximei-me da aluna e perguntei o que ela achava bonito em uma mulher ticuna: ela prontamente respondeu que eram os cabelos, que tinham que ser cumpridos e bem penteados. E começamos a falar sobre o corpo e o cabelo dos homens e em seguida falávamos sobre cortes de cabelo de outras culturas. Por fim, disse a eles que na nossa sociedade, também podemos chamar o formato, as cores e o cumprimento do cabelo de “estética” e sinalizei que esse era um dos assuntos que abordaríamos nessa etapa, pois nosso tema principal era “Arte e cultura indígena”, e que antes de adentrarmos naquele assunto precisaríamos conhecer o que a antropologia chamava de cultura.
O texto base das primeiras aulas era o livro clássico de Roque de Barros Laraia – Cultura: um conceito antropológico”155. Não se tratava da obra em sua completude, mas de capítulos selecionados para o debate das ideias principais. A aula ocorreu da seguinte maneira: primeiro, fiz um esquema com as principais categorias no quadro negro, em seguida, pedi aos alunos que se dividissem em grupo para a leitura e que cada um grifasse as palavras que fossem difíceis para entender na frase do texto.
Reservamos cerca de duas horas para essa leitura e enquanto os grupos faziam seus trabalhos e conversavam entre si em língua ticuna, eu me dirigia individualmente a cada grupo e perguntava sobre as dificuldades e respondia as dúvidas do texto. Passado este tempo, iniciei minha aula expositiva, pedindo a cada grupo que fizesse a leitura de um trecho do texto para a explicação. Resumi o conteúdo do texto afirmando que para a antropologia, a cultura era algo que apenas os seres humanos possuíam, pois era a transmissão de significados, valores e símbolos através da comunicação. A conversa foi fluindo até que um aluno pediu a palavra e perguntou sequencialmente:
- Mas professor, o senhor está dizendo que a cultura é quando a gente ensina para o filho, correto?
- Correto! Respondi, balançando a cabeça e sinalizando meu incentivo para que o
debate continuasse.
- E que a cultura é quando a gente fala que uma coisa é bonita ou como se constrói uma casa, correto? E que a cultura é uma forma que a gente tem de se comportar, não é isso?
- É isso! Continuei a responder positivamente e transmitindo um sorriso de orgulho.
155 O plano de curso foi elaborado para atender a metodologia do projeto da OGPTB e ao mesmo tempo cumprir o currículo básico exigido pelos órgãos reguladores do MEC, o que implicava na construção da disciplina com base em referenciais bibliográficos do ementário das disciplinas.
- Mas professor, o senhor está dizendo que pra ter cultura é preciso saber se comunicar e também ter o costume de fazer as coisas, de construir. Se for assim, os catitus também tem cultura. O senhor já viu como é que eles vivem na mata? - Não! Eu já comi Catitu, mas nunca observei eles na mata! Meu avô era caçador de catitus, mas nunca me ensinou nada sobre eles, respondi dando com os ombros e sem
saber onde o aluno queria chegar.
- Eles vivem em bando, igual a uma família. Tem o pai, a mãe, os filhos. Daí eles cavam uma poça, tipo uma piscina na terra e ficam deitados na lama, cada um no seu lugar. Quando eles saem pela mata, saem de monte e o cacique deles vai na frente. Às vezes eles atravessam o rio e passam na nossa comunidade, daí os caçadores pegam as espingardas e tentar acertar o cacique que vem na frente. Quando ele morre, todos ficam correndo de um lado para o outro e às vezes os filhos se perdem e é uma gritaria. Então, eles tem cultura, certo?! Porque pra fazer isso eles precisam se comunicar, não é?
Naquele momento não houve risos e todos olhavam para mim aguardando uma resposta ou um comentário. Procurei em minha mente alguma leitura ou reflexão que me oferecesse base para uma resposta que não desrespeitasse a observação do aluno e de imediato, utilizei a referência mais clássica do conceito de cultura e respondi a eles que para a antropologia, a cultura era algo dos seres humanos e que os catitus e outros animais agiam através de instinto. Elogiei a contribuição do aluno e lembro-me de dizer que talvez a biologia tivesse outra opinião diferente da antropologia. Finalizei aquele debate explicando que cada área do conhecimento poderia dar uma explicação diferente para a mesma coisa e que o conhecimento tradicional também funcionava da mesma maneira.
Aquele exemplo não foi o único que ficou cravado em minha memória. Em um outro momento do curso, quando discutíamos o tema álcool e drogas na aldeia, voltamos a debater o conceito de cultura. Naquela ocasião, uma outra história similar a primeira me foi apresentada pelos alunos de uma professora das disciplinas de biologia e que me narraram uma situação envolvendo um professor ticuna e uma cobra:
Certo dia, logo após receber o pagamento do mês, o professor ticuna resolveu ir para uma festa na cidade, onde bebeu a noite toda. Era madrugada quando ele decidiu voltar para sua casa na aldeia. Muito lombrado, ele embarcou no seu pec-pec e saiu em meio a escuridão do rio Solimões. Quando estava bem afastado da cidade, ele bateu em um tronco e sua canoa virou e foi para o fundo junto com o motor. Muito lombrado, o professor ticuna ficou à deriva no rio e agarrou-se a um tronco que passava com a correnteza. Acomodou-se no tronco e começou a gritar pedindo ajuda, quando percebeu que a coisa onde estava agarrado era mole e escorregadia. Cansado, ele imaginou que fosse limo do Solimões, encostou a cabeça no apoio e tomou um susto quando viu que o tronco começou a se mexer e a outra ponta veio em sua direção. Era a cara de uma cobra maceta e ela falou assim pra ele: - Meu neto, por quê você bebeu? Eu vou te comer! Morrendo de medo, ele pediu à cobra que não o comesse e ela respondeu: - Tá certo! Se você prometer que vai para sua casa cuidar dos seus filhos e que nunca mais vai beber eu deixo você ir. Mas olha, não faça mais isso, pois eu estou te dispensando, mas o meu primo que está por aí, não ia te dispensar nem com nojo!
Ao final da narrativa dessa história, um deles voltou a me perguntar: - professor, como é que a ciência não encontra esses bichos? Por que será? Será que eles se escondem quando o pesquisador aparece?
Ensinar a antropologia no Curso da OGPTB nunca era uma atividade que se encerrava com a explicação de abordagens teóricas. Com as experiências e percepções que os professores indígenas construíram ao longo de suas trajetórias e com base nas suas formas próprias de conceber o mundo, as teorias eram imediata e processualmente questionadas, instituindo uma dialética em que eu passei a aprender uma outra forma de conceber a cultura, isto ao nos contrapor as nossas verdades científicas – no exemplo acima, tanto da antropologia quanto da biologia – ensinando-nos sobre as outras formas de produzir conhecimento que são operadas por esses indígenas.
A experiência de ensinar e aprender antropologia com os Ticuna na sala de aula, no primeiro curso de educação superior realizado em uma terra indígena na história do Brasil, marcou profundamente a construção desta pesquisa, fazendo me perceber o quão única esta experiência foi, principalmente se comparada ao Curso de Pedagogia Intercultural da UEA.
2.6 A ALDEIA VAI À UNIVERSIDADE: A EXPERIÊNCIA DO CURSO DE