Freire (1989) chama a atenção de que o adulto já tem conhecimentos prévios que podem, e devem ser utilizados na grande maioria para ancorar ao novo conheci- mento. Por exemplo, a palavra tijolo é do conhecimento de muitos pedreiros, de quem trabalha com isso, partir desse pressuposto torna a aprendizagem significativa, uma vez que, pode ser feita a relação com a realidade que o cerca. Assim é possível verificar que a “leitura do mundo precede a leitura da palavra” (FrEirE, 1989, p.15) e os educandos aprendem a não só codificar e decodificar as palavras por meio de memorização das letras, símbolos e sílabas. Ao contrário, as palavras devem:
Vir do universo vocabular dos grupos populares, expressando a sua real linguagem, dos seus anseios, as suas inquietações, as suas reivindicações, os seus sonhos. Deveriam vir carregadas da significação de suas experiências existencial e não da experiência do educador. (FrEirE, 1989, p. 20)
Historicamente, Paulo Freire, é um dos grandes nomes da Educação de Jovens e Adultos, criando um método para alfabetização que, no ano de 1963, culminou na alfabetização de 300 trabalhadores em 45 dias na cidade de Angicos, no Rio Gran- de do Norte, resultando mais tarde no convite do então presidente do Brasil João Goulart, para Freire criar o Plano Nacional de Alfabetização. Este método, criado por Freire, representa um caminho a percorrer para a alfabetização, podendo ser reinventado em todos os contextos partindo da prática destes. A figura 37 representa a educação neste contexto de jovens e adultos
FigUrA 37 – Alfabetização de Jovens e Adultos
FONTE: NTE, 2017
Freire acredita que a educação, como já vimos na unidade anterior, parte do diálogo entre professor e educando, nesse sentido “serviria como um ponto para o início de atividades em um círculo de cultura para aprofundar as leituras do mundo, e possibilitar a releitura da realidade” (BrANdãO, 1981, p.52).
Estudar pode ser um momento de satisfação, sendo que, nesse contexto de jovens e adultos, é preciso haver significado no que se está sendo aprendido pelo alfabeti- zado, pois, esses, são motivados a aprender a medida que experimentam que suas necessidades e interesses serão satisfeitos. Além da motivação para esse público,
também deve ser considerado o cansaço decorrente do trabalho e a própria baixa autoestima, a que são submetidos muitas vezes. A evasão nesse contexto é muito alta, as faltas são frequentes, o que pode prejudicar o andamento do aprendizado. Sob esse aspecto o professor deve ser também um motivador e auxiliar a romper as barreiras impostas pela própria sociedade, trabalhando também a autoestima de seus alunos.
O trabalho deve ser colaborativo e realizado no coletivo, partindo da realidade local, o sucesso em se trabalhar com essa modalidade educacional está justamente em trazer esses elementos como norteadores do processo, o educando como centro do processo, suas vivencias e experiências cotidianas jamais devem ser deixadas de lado e não levadas em consideração. Pela formação de professores não con- templar muito essa modalidade os profissionais que trabalham com este público devem estar em constante aprendizagem continuada, refletindo sobre sua prática e reconstruindo-a se necessário.
Quanto a legislação vigente em nosso país, que ampara a Educação de Jovens e Adultos, temos o seguinte: A constituição Federal que garante acesso à educação:
Art. 208 - O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de”: I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, assegurada, inclusive, sua oferta gratuita para todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria; (...) § 1º O aces- so ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo. (Constituição Federal, 1988)
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96) que elenca nos artigos 37 e 38 as “oportunidades educacionais apropriadas”, segundo as características do alunado. Então, é a LDB que vem regulamentar essa modalidade educacional, que atinge aqueles indivíduos que não conseguiram terminar, por falta de possi- bilidades, o ciclo básico de estudos na idade regular. Que prevê:
Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria.
§ 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames.
§ 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a per- manência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si.
§ 3o A educação de jovens e adultos deverá articular-se, prefe- rencialmente, com a educação profissional, na forma do regu- lamento. (Incluído pela Lei nº 11.741, de 2008)
Art. 38. Os sistemas de ensino manterão cursos e exames suple- tivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo,
habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular. § 1º Os exames a que se refere este artigo realizar-se-ão: I - no nível de conclusão do ensino fundamental, para os maiores de quinze anos;
II - no nível de conclusão do ensino médio, para os maiores de dezoito anos.
§ 2º Os conhecimentos e habilidades adquiridos pelos educandos por meios informais serão aferidos e reconhecidos mediante exames. (Lei 9.394/96)
Esse grupo de pessoas se apresentam com grande heterogeneidade, alguns, por sucessivas reprovações, abandonaram os estudos, outros, por terem o direito à educação assegurado somente na Constituição Federal de 1988. Muitos relatos também mostram questões sócio culturais, por exemplo, a falta de estudar pelo machismo, imposta a inúmeras mulheres em décadas passadas. Por isso, o número de mulheres que procuram a educação tardiamente também tem um grande número. Outro aspecto, que vem sendo observado por pesquisadores da área, mostra que o número de matrículas na Educação de Jovens e adultos vem caindo. Alguns autores pensam que a razão principal é a forma como está sendo ofertada essa educação, tanto da forma, quanto de conteúdos escolares, que estão muito aquém daquilo que é necessário para esse público. Ou seja, a escola não está atendendo às necessidades e expectativas que vem com esses indivíduos. Tornar esse indivíduo visível, com suas especificidades, necessita de um olhar diferente.
A estrutura do sistema escolar é trabalhada de forma uniforme, pelas propos- tas curriculares. Fazer uma educação, para os Jovens e Adultos, é buscar acima de tudo autonomia para se trabalhar com esse público, pois a organização de tempo e espaço são diferentes. Ainda, temos o modelo supletivo, acelerado, aligeirado, repondo escolaridade não realizada, vendo o sujeito como diminuído, devemos perguntar quais as necessidades de aprendizagem desse sujeito, o que ele tem a agregar na forma de organização escolar, uma vez que, ao trazer suas expectativas, traz também sua bagagem de experiências para a escola.
Não podemos conceber que adultos voltem para a escola com aquele sentimen- to de perda, isso não acarretará que o aluno fique na escola. Devemos considerar uma escola que seja empática com a realidade desse grupo. Uma escola que não os trate como clientela diferenciada, esses alunos são sujeitos de direito, tem o direito de aprender em qualquer idade. O professor, deve estar atento às idades de cada um, de repente ele está atendendo a um aluno de 15 anos, e se vê diante de um aluno de 60 anos. Reinventar-se e adequar-se ao contexto de cada um, ter esse olhar aguçado e entender-se em um universo, diverso e amplo, pode ser o grande divisor de águas para essa modalidade educacional.