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Aprendizagem e desenvolvimento do comportamento

Merleau-Ponty afirma que como teoria da aprendizagem a teoria do reflexo condicionado se encontra com o princípio dos “ensaios e erros”. Segundo este princípio, o organismo não mantém nenhuma relação intencional, nenhuma relação interna com a situação. Por exemplo, na busca de alimentos, sob pressão da necessidade, o organismo, preso em uma jaula, executa gestos às cegas, ao acaso do movimento. O gesto que obtém sucesso é fixado e adquirido, os outros são eliminados. Portanto, haveria um critério de

apreciação do organismo na fixação do comportamento que seria o prazer do sucesso78. Por sua vez, a aprendizagem e o desenvolvimento não realizam nada de novo, a não ser associar de outro modo elementos pré-existentes. A aprendizagem seria a adição às condutas antigas de certas conexões determinadas entre tais estímulos e tais movimentos, não provocaria nenhuma alteração geral do comportamento. O condicionamento pressupõe a fixação de reações úteis tais como elas se produziram pela primeira vez, ou seja, a experiência seria o registro e a fixação de certos movimentos realmente realizados. Merleau-Ponty afirma que na prática isto não acontece.

Ora, para ele aprender não é ser capaz de repetir o mesmo gesto, é ser capaz de fornecer a uma situação uma resposta adaptada por diferentes meios, e a reação não é adquirida em relação a uma situação individual, trata-se antes de uma aptidão nova a resolver uma série de problemas de mesma forma. Nesse sentido, por um lado a aprendizagem é um método de seleção, uma aptidão a escolher, que não se dirige aos caracteres individuais, por outro lado na aprendizagem adquire-se um poder geral de avaliar e responder a determinada situação79.

Assim, seja em uma experiência em que se obtém sucesso ou uma experiência em que haja uma decepção, uma experiência dolorosa, é possível um aprendizado. Por exemplo, uma criança que queima o dedo ao colocar a mão em uma chama, aprende a se proteger em presença da chama. Este aprendizado diante do fogo, a proteção, não é apenas uma repetição mecânica diante de um estímulo doloroso. Merleau-Ponty afirma que, desde que há aprendizagem, é preciso que entre sinal, reações preparatórias e acesso ao fim haja

78 Ibid., p. 103. 79 Ibid., p. 106-107.

uma relação que faça do conjunto outra coisa que uma sucessão objetiva de acontecimentos físicos80.

No que diz respeito ao desenvolvimento do comportamento, Merleau-Ponty afirma que com a noção de estrutura se introduz um princípio de descontinuidade e estão dadas as condições de um desenvolvimento por salto ou crises81. Nesse sentido seria preciso considerar o desenvolvimento como uma estruturação progressiva e descontínua do comportamento82. Ora, segundo ele, o fator decisivo no desenvolvimento do comportamento é a maneira pela qual o organismo utiliza as contigüidades fortuitas, se ele as sofre ou se ele as elabora83. Para tal, é preciso que, na aprendizagem, o organismo seja capaz de criar, entre as diferentes “soluções” possíveis e entre todas elas e o “problema”, relações pelas quais se mede seu valor (grifos do autor).

Portanto, o desenvolvimento por um lado, não ocorre de maneira linear e, por outro lado, não ocorre da mesma maneira em todas as espécies animais e nem em cada indivíduo humano. Assim, considerando o comportamento, o seu aprendizado bem como seu desenvolvimento, como estrutura, Merleau-Ponty afirma ser possível classificá-lo utilizando como critério não mais a distinção entre comportamentos elementares e compostos, mas segundo a estrutura que neles é atado (noyée) ao conteúdo ou que dele emerge para se tornar, no limite, o tema próprio de sua atividade. Neste sentido, Merleau- Ponty distingue o comportamento em três categorias, que não correspondem a três grupos de animais, pois, segundo ele, “não há espécie animal cujo comportamento não ultrapasse nunca o nível sincrético ou nunca desça abaixo das formas simbólicas. No entanto, os animais se deixam repartir sobre esta escala segundo o tipo de comportamento que lhe é o mais familiar”84.

1. As formas sincréticas ou formas fechadas: estão presas ao quadro de suas condições naturais e tratam as situações inéditas como alusões às situações vitais que lhe são prescritas. São formas que não dão conta dos detalhes da situação e cujos comportamentos jamais se dirigem a objetos isolados. Dependendo sempre de um grande

80 Ibid., p. 109. 81 Ibid., p. 148. 82 Ibid., p. 192. 83 Ibid., p. 110. 84 Ibid., 113-114.

número de condições exteriores, se dirigem a situações somente análogas. Possuem um comportamento que se poderia chamar de instintivo, já que respondem literalmente a um complexo de estímulos antes que a certos traços essenciais da situação. Diante de determinados objetivos perseveram, através de ensaios repetidos, mas uma única experiência negativa (o gosto ruim de uma formiga) basta para provocar uma inibição85. 2. As formas amovíveis ou que têm referência a relações: apesar de se referirem a relações elas permanecem engajadas na matéria de certas situações concretas, as quais não são utilizadas para uma verdadeira aprendizagem (conduta do sinal/relações espaciais e temporais/relações mecânicas e estáticas).

A propósito da conduta do sinal: as escolhas do animal não são determinadas pelas montagens instintivas da espécie, são fundadas sobre estruturas relativamente independentes dos materiais nos quais eles se realizam. Possuem um poder de se adaptar à estrutura dos sinais antes que às suas propriedades materiais. Por exemplo, uma galinha habituada a escolher entre um par de grãos com nuanças coloridas diferentes, escolhe o grão não a partir de suas propriedades absolutas mas a partir da relação entre os dois grãos. Ela escolhe sempre “o mais claro”.

A propósito das reações em relação a um determinado fim: a situação à qual o organismo se adapta é a simples contigüidade, temporal ou espacial, de um estímulo condicionado e de um estímulo incondicionado. Merleau-Ponty analisa a relação distância- fim, entre figuras e cores, e a capacidade de procurar um fim numa determinada série86. Reações em relação a um meio de um determinado fim ou, relações lógicas ou objetivas: razão direta das relações espaciais ou temporais com o fim; estruturas mecânicas e estáticas87.

Os limites, por exemplo, no contorno de objetos: tratar o próprio corpo como objeto, estabelecer relação entre relações, reconhecer uma mesma coisa em diferentes perspectivas; nas experiências de construção: onde há interferência simultânea de duas forças. Merleau-

85 Ibid., p. 114-115.

86 No exemplo citado o estímulo adequado se define por uma dupla referência à ordem espacial e a uma

ordem das operações efetuadas. No caso há uma diferença entre o comportamento de uma criança e o comportamento dos macacos inferiores: a criança procurará sistematicamente o fim, o macaco recomeça a atividade a cada elemento da série. Não há progresso através da série, no caso do macaco. Este é um limite nos animais.

87 Ibid., p. 115-130. Nestes exemplos encontramos também limites para o comportamento dos animais. Eles

Ponty afirma que a atividade animal se perde nas transformações reais que ela opera e não pode reiterá-las88.

3. As formas simbólicas: são as formas onde as estruturas são mais disponíveis, transponíveis de um sentido ao outro, onde se torna possível a estrutura coisa. Nas formas simbólicas o comportamento é adaptado ao virtual, nesse sentido, o uso do signo deixa de ser um acontecimento ou um presságio para tornar-se o tema próprio de uma atividade que tende a exprimir-se. A correlação entre os estímulos é mediada por um princípio geral. Onde se estabelece uma multiplicidade de perspectivas, um conduta cognitiva, uma conduta livre. As formas simbólicas possuem a capacidade de estabelecer relação entre relações89. Merleau-Ponty afirma mais adiante que, o que define o homem não é a capacidade de criar uma segunda natureza – econômica, social, cultural – além da natureza biológica, é antes aquela de ultrapassar as estruturas criadas para criar outras90.

Matéria, vida e espírito