Franklin (2011) explica que a cognição é a forma como o cérebro percebe, aprende, recorda e pensa sobre toda informação captada através dos cinco sentidos. É mais do que simplesmente a aquisição de conhecimento e, consequentemente, a melhor adaptação ao meio, agindo como um mecanismo de conversão do que é captado para o modo de ser interno do indivíduo.
A internalização envolve uma atividade externa que deve ser modificada para tornar-se uma atividade interna, interpessoal até que se torne intrapessoal (VYGOTSKI, 1988). Lisbôa, Bottentuit-Junior e Coutinho (2010) complementam argumentando que Vygotsky acreditava que o processo de desenvolvimento mental ocorre pelas relações que
estabelecemos com os demais, pois as funções psicológicas elementares passam por uma transformação, tornando-se funções psicológicas superiores, como por exemplo: consciência, senso de planejamento, análise e organização, como parte de um processo de reelaboração interna.
Franklin (2011), alinhado à visão de Vygotsky, complementa que a cognição é um processo pelo qual o ser humano interage com os seus semelhantes e com o meio em que vive, sem perder a sua identidade existencial, começando com a captação dos sentidos e, logo em seguida, partindo para a percepção; é, portanto, um processo de conhecimento, que tem como entrada a informação do meio em que se vive e o que já está registrado na memória.
Bock, Furtado e Teixeira (2002) colocam como principais pontos abordados pelos estudiosos do PEA a natureza e os limites da aprendizagem, bem como a participação dos aprendizes e a motivação durante o processo; outro ponto bastante discutido é a importância do outro na aquisição de novos conhecimentos. Para o presente estudo, a natureza se assenta sobre a matemática elementar, os limites da aprendizagem se definem pelas limitações do conteúdo proposto, a participação se aplica quando da competitividade e interações sociais que são estimuladas pelo jogo, e a motivação se dá devido ao fato de ser agradável e divertido ao usuário.
Com base nos 4 pilares colocados por Bock, Furtado e Teixeira (2002), e a partir do conceito de cognição segundo Franklin (2011), a teoria de aprendizagem de Lev Semenovitch Vygotsky, mostrou-se mais adequada para este estudo, uma vez que esta teoria tem como principal ponto as interações sociais, característica esta que vai de encontro ao perfil comportamental e social do público alvo deste estudo, e que tem como principal característica a hipersociabilidade.
Além disso, sua teoria também vai ao encontro a alguns dos principais pontos de abordagem colocados pelos estudiosos do PEA, pois enfatiza a importância da interação entre as pessoas, o que remete à ideia de colaboração e da internalização, ambos processos fundamentais para o desenvolvimento do funcionamento psicológico humano (VYGOTSKI, 1988).
Vygotsky (1984) defende que é através das relações sociais e da colaboração que o aluno constrói o conhecimento. A aprendizagem é o produto das interações entre os seres humanos, promovendo o desenvolvimento cognitivo por parte dos indivíduos. Através dos diversos pontos de vista, há o conflito cognitivo e a desequilibração, gerando novos aprendizados (SILVEIRA et al., 2012).
Existe a expressão sócio-construtivismo ou sócio-interacionismo que diferencia a teoria de Vygotsky de outros autores, uma vez que Vygotsky afirma que a inteligência é construída a partir das relações recíprocas do homem com o meio ambiente. Para Vygotsky, o meio tem sempre significados culturais que são aprendidos pelas crianças através dos mediadores. Este fator cultural tão valorizado por Vygotsky, contribui para a diferença da sua teoria com as demais. Outra diferença é quanto à sequência dos processos de aprendizagem e de desenvolvimento mental. Vygotsky afirma que a aprendizagem é que gera o desenvolvimento, enquanto outros autores afirmam que é o desenvolvimento das estruturas mentais que leva à aprendizagem.
Rabello e Passos (2010) afirmam que esta abordagem sócio-interacionista se dá nas relações de trocas entre parceiros sociais, através de processos de interação e mediação, sendo a mediação o elemento que vai permitir a construção do conhecimento, pois através dela é que ocorre a interação do sujeito com o meio.
Para Vygotsky (1984), o sujeito deixa de ser de receptor para se transformar em produtor de conhecimento, passando assim a ser um sujeito ativo de suas relações com o mundo e com os objetos, reconstruindo seu pensamento (SILVEIRA et al., 2012).
Vigotsky em sua teoria, propôs dois níveis de desenvolvimento do indivíduo (OLIVEIRA, 2000): o nível de conhecimento real, ou seja, aquilo que o sujeito pode fazer sozinho, e o nível de desenvolvimento potencial, aquilo que o sujeito pode fazer e aprender no relacionamento com as outras pessoas.
O conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP) seria a união entre estes dois níveis de conhecimento; é um domínio psicológico em constante transformação: aquilo que a pessoa é capaz de fazer hoje com a ajuda de alguém, e conseguirá fazer sozinha amanhã. Para Vygotsky é na ZDP que a aprendizagem acontece, pois no desenvolvimento do aluno as boas instruções despertam e desencadeiam as funções que estão em maturação ou na ZDP, ressaltando o papel importante da instrução no processo de construção do conhecimento, aliado à colaboração e à ajuda mútua (FINO, 2001; TELES, 2015).
A partir de Vygotsky (1988, p. 24), os vygotskianos afirmam que “A Educação não fica à espera do desenvolvimento intelectual da criança, e que a função da escola, que têm o professor como mediador da aprendizagem, é levar o aluno adiante, pois quanto mais ele aprende mais se desenvolve mentalmente”. A partir dessas reflexões, percebe-se que Vygotsky defende que o desenvolvimento se constrói a partir do social, por meio de uma pedagogia construtivista mediada e interacionista. Esta seção encerra o passeio
teórico que fundamenta o presente trabalho, enquanto o próximo capítulo delineia e situa a presente pesquisa quanto aos procedimentos metodológicos a serem adotados durante a sua execução e desenvolvimento.
3 Metodologia
Neste capítulo são apresentados os procedimentos que foram adotados para atender aos objetivos propostos por esta pesquisa, incluindo o delineamento da pesquisa, as técnicas de coleta e análise de dados. Na seção 3.1 é apresentada a caracterização deste estudo quanto à sua abordagem metodológica de uma maneira geral. A seção 3.2 e suas subseções abordam os procedimentos que foram adotados para a execução do processo de coleta de dados. A seção 3.3 aborda os procedimentos que foram utilizados para a análise dos dados coletados na etapa anterior, e por fim, a seção 3.4 apresenta o desenho metodológico da pesquisa.