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ENFERMAGEM: APRENDIZAGEM E PRÁTICAS

2. APRENDIZAGEM EM CONTEXTO CLÍNICO

2.4. APRENDIZAGEM EM SAÚDE MENTAL E PSIQUIATRIA

De acordo com o relatório Internacional sobre a Educação para o século XXI para a UNESCO, Tarcia (2001, p.158) afirma a importância da educação no desenvolvimento dos indivíduos e da sociedade apontando que, para este século, “tanto indivíduos quanto os poderes políticos considerarão a procura do conhecimento, não apenas como um meio para alcançar o fim, mas como um fim em si mesmo”.

Assim, e como vimos anteriormente, a prevalência de distúrbios mentais é uma realidade em crescendo na nossa sociedade, exigindo profissionais detentores de competências multidimensionais, capacidades de interacção, adaptação e readaptação. Daí a pertinência de se formaram enfermeiros especializados na área da saúde mental e psiquiatria. Segundo a American Psychiatric Nurses Association (2000), um enfermeiro de saúde mental e psiquiátrica é um profissional certificado, detentor de uma formação graduada que o prepara para um exercício avançado de saúde mental ao longo do ciclo de vida do indivíduo. Este exercício abarca tomada de decisões independentes e interdependentes e responsabilidade directa pelo juízo clínico. O seu campo de intervenção norteia-se por domínios da investigação, desenvolvimento de políticas de saúde, liderança, educação, resolução de problemas e aconselhamento, que se espera um aumento exponencial da sua compreensibilidade na formação pós-graduada.

A formação e o desenvolvimento profissional apontam para a necessidade do indivíduo “querer ser” competente, criando estratégias para promover a qualidade do seu exercício e, de acordo com Dias (2004, p.58), “a formação é um processo de transformação individual que envolve a dimensão do saber (conhecimentos), do saber-fazer (atitudes e comportamentos) e do saber-aprender (evolução das situações e actualização)”. Segundo o mesmo autor, o desenvolvimento das competências passa pela interacção destes saberes.

Para Malglaive (1995, p.123) o termo competência “evoca em si mesmo a excelência do fazer, a validade, a amplitude dos saberes e do saber-fazer num dado domínio”. Perrenoud (1999, p.7) considera que competência é a “capacidade de agir eficazmente num determinado tipo de situação, apoiada em conhecimentos, mas sem se limitar a eles”. Para enfrentar ou solucionar determinadas situações com pertinência e eficácia é necessário mobilizar vários recursos cognitivos, como saberes, capacidades, informações e outros. O autor afirma que as competências manifestadas nas acções não são em si mesmas, conhecimentos, mas sim, que utilizam, integram ou mobilizam estes conhecimentos. Já para a Ordem dos Enfermeiros Portugueses (2003, p.246) competência é a “capacidade do enfermeiro para praticar de forma segura e eficaz, exercendo a sua responsabilidade profissional”.

Neste contexto, torna-se importante perceber como se processa a aprendizagem nesta área tão específica da saúde. Também a enfermagem de saúde mental e psiquiatria tem sofrido alterações profundas nos processos de formação; o paradigma de educação profissionalizante, que assentava mais no racionalismo tecnicista, tem vindo a transformar- se, dando origem a uma epistemologia da prática, em que esta é sedimentada na competência fundamentada. Portanto, se o seu campo de acção está em constante transformação de saberes, torna-se emergente pensar e repensar o processo formativo e, consequentemente, o ensino clínico, adequando-o às novas directrizes em que as competências sustentam a boa prática profissional.

Estudos como os de Barros e Egry (2001), Fraga (1993) e Colvero (1994) têm demonstrado que existe um distanciamento evidente entre o conhecimento reproduzido nas escolas e o praticado na assistência ao doente mental, resultando numa dicotomia entre a academia e a prática. Perrenoud (2000, p.1) reforça esta ideia ao afirmar que “os alunos acumulam saberes, passam nos exames, mas não conseguem mobilizar o que aprendem em situações reais…”.

Deste modo, considera-se fundamental que a formação em enfermagem de saúde mental e psiquiatria procure estratégias de ensino que favoreçam o desenvolvimento de competências dos futuros profissionais, entre elas, ensinar tendo por base a resolução de situações-problema, propondo projectos e tarefas desafiadoras e complexas, incitando os alunos a mobilizarem os seus conhecimentos em diversos contextos. Ou seja, cabe ao

Aprendizagem em Contexto Clínico  

docente/tutor ser reflexivo, inovador e explorar uma pedagogia diferenciada que seja significativa para o estudante e que relacione o seu universo de conhecimentos, experiências e vivências, na procura do desenvolvimento de aprendizagens verdadeiramente significativas, tal como preconiza Ausubel.

Na sua pesquisa sobre as vivências dos alunos na área de enfermagem psiquiátrica, Vaie (2002) reforça as figuras do docente, tutor e da instituição de ensino clínico no desenvolvimento pessoal e profissional dos estudantes. Ele afirma que caso não haja sincronia entre esta tríade dificilmente se formarão enfermeiros qualificados para o exercício em enfermagem psiquiátrica e saúde mental. Neste sentido, no acto de formar deverá estar implícito o comprometimento da envolvência de todos os actores neste processo dinâmico, sendo que existe um desafio permanente ao mútuo crescimento e desenvolvimento de todos os intervenientes.

Barros (2004, p.79) identificou no seu estudo, em que analisou algumas experiências de ensino na área de enfermagem de saúde mental, que “é fundamental para o ensino crítico, transformado e transformador a clara adopção de um campo conceitual, a definição de um norte pedagógico e uma escolha de professores com formação no novo paradigma”. Assim, em contexto das práticas clínicas de enfermagem de saúde mental e psiquiatria exigem-se formadores (docentes e tutores) competentes que possuam a capacidade de desenvolver e construir nos seus formandos uma vasta complexidade de saberes científicos. Só desta forma se pode capacitar os estudantes para darem resposta ao incerto, ao instável, conduzindo-os à reflexão e explicação, a si mesmos, acerca das várias atitudes, comportamentos e intervenções junto dos utentes.

Neste contexto, Lucchese (2005) na sua pesquisa sugere algumas directrizes no ensino de enfermagem em saúde mental, entre elas:

o Promover espaços grupais que privilegiem a reflexão sobre as práticas entre docentes/tutores e alunos;

o Optar por um modelo pedagógico que sustente as práticas transformadoras;

o Promover aprendizagens que sejam significativas para o aluno, valorizando os recursos que ele dispõe, problematizando o objecto a ser estudado apoiado na sua realidade;

o Privilegiar o ensino centrado no aluno como agente activo e dinâmico da sua formação;

o Utilizar uma metodologia de ensino que promova o trabalho com resolução de situações-problema, visando a mobilização de recursos para solucioná-los;

o Promover uma aprendizagem baseada na reflexão sobre as situações-problema e as suas resoluções e valorizar uma prática reflexiva;

o Aplicar um processo de avaliação e auto-avaliação contínua e formativa.

Em síntese, não podemos separar a teoria da prática. Portanto, o aluno que desenvolve as suas actividades baseadas na prática fomenta, em si mesmo, a consciência dos seus comportamentos e atitudes. Pois, só assim será capaz de compreender e explicitar a sua intervenção e, em simultâneo, desenvolver os conhecimentos necessários para actuar nos meandros educativos da componente prática e as situações reais da prática que permitem ao estudante ser conhecedor da complexidade de cada situação em particular e, no geral, compreendendo e extraindo conhecimentos onde só na prática se adquire.

Supervisão da Formação Clínica em Enfermagem