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1 INTRODUÇÃO

2.3 APRENDIZAGEM PELO MÉTODO DO CASO – PROBLEMA

Como foi visto, aprender a programar pode trazer diversos benefícios ao indivíduo. No entanto, ao desenvolver um curso de programação temos que considerar também que sua aprendizagem pode ser um processo complicado para muitas pessoas. O problema se dá principalmente devido à exigência intelectual que o processo pode requerer dos alunos.

O professor Renan Osório Rios leciona a disciplina de programação no Ifes campus Colatina desde 2012. Segundo ele, "[...] As disciplinas de programação inicial nos cursos de informática possuem conhecimentos que são considerados complexos para serem aprendidos". Além disso, muitos estudantes iniciam os estudos “[...] com má formação em habilidades essenciais para a resolução das atividades que envolvem a programação" (RIOS, 2015, p. 3).

Ao levarmos em conta o público-alvo estudado por esta pesquisa, o grau de dificuldade se apresentou ainda maior. Isto porque é bastante comum que adolescentes em situação de vulnerabilidade também apresentem um rendimento abaixo do esperado na vida escolar. Ferreira e Marturano (2002, p. 39) relatam que “[...] crianças provenientes de famílias que vivem com dificuldades econômicas e habitam em comunidades vulneráveis tendem a apresentar mais problemas de desempenho escolar e de comportamento”.

Segundo Lopes e Garcia (2002), o aprendizado só se torna possível após a passagem do abstrato para o concreto. Em outras palavras, o aluno precisa conseguir perceber o que está desenvolvendo no computador como algo que faça sentido em sua vida real. Ainda segundo os autores, um interpretador em português seria de grande ajuda no processo de aprendizagem de uma nova linguagem de programação.

Ao levar em consideração esses fatores, o letramento proposto nesta pesquisa buscou por uma metodologia que facilitasse o processo, conduzindo-o de forma gradual e em compatibilidade com a realidade vivida pelos alunos e buscou promover o engajamento até mesmo daqueles que nunca tiveram nenhum tipo de contato com lógica de programação.

A metodologia do caso (ou método do caso) teve sua origem em 1870, na Escola de Direito da Universidade de Harvard, por Christopher Collumbus Langdell. Em contraste ao método teórico/dedutivo que era anteriormente utilizado, o método do caso é um modo socrático e empírico/indutivo de pensar, influenciado pelo construtivismo. Ele foi adotado, também, pela escola de Administração da Universidade de Harvard, que o institucionalizou como sua metodologia básica de ensino e ajudou a divulgá-la amplamente. Inclusive mantém o website Teaching by the case method2, com diversas informações e recursos para a utilização do método de caso (MATTAR, 2017, p. 49).

Mattar (2017, p. 49) afirma que “[...] o método de caso é uma metodologia de ensino em que os alunos discutem e apresentam soluções para casos propostos pelos professores”; não se deve confundi-lo, portanto, com o estudo de caso, que é um método de pesquisa.

O autor segue definindo a metodologia como um meio de aproximar o conteúdo ensinado da realidade, para ele o método

[...] é um exemplo bastante poderoso de metodologia ativa, pois alunos são transportados e imersos na função de gestores e decisores e precisam se posicionar em relação a uma situação muito próxima do real, utilizando fundamentação teórica, debatendo com colegas e construindo colaborativamente uma solução para o caso apresentado (MATTAR, 2017, p. 49).

Nesta metodologia, “[...] os professores não ensinam propriamente dito, mas facilitam a aprendizagem dos alunos”, enquanto “[...] os alunos atuam como tomadores de decisão” (MATTAR, 2017, p. 50).

O autor chama a atenção para uma importante diferenciação para os dois tipos de método do caso existentes, o Caso-Exemplo e o Caso-Problema. O primeiro, como bem diz o nome, apresenta narrativas que já ocorreram, os “exemplos”. Já os casos- problema, “[...] são elaborados com o propósito de colocar o aluno no papel de tomador de decisão, envolvendo preparação do caso e discussão em sala, visando à aprendizagem significativa” (MATTAR, 2017, p. 51). O quadro a seguir traz as principais diferenciações entre os dois tipos:

Quadro 1 - Caso-exemplo versus caso-problema

Caso-exemplo Caso-problema Propósito Principal Ilustrar uma situação real,

exemplificando como uma teoria pode se aplicada na prática, considerando suas vantagens e limitações.

Reproduzir o contexto de uma situação problema, colocando o estudante no papel de tomador de decisão. Característica da Aprendizagem A narrativa do caso contempla diversas

informações sobre o "antes e o depois", possibilitando a aprendizagem de forma mais autosuficiente pelo estudante. Os autores costumam apresentar comentários sobre resultados (o que

aconteceu) no próprio caso. É uma forma de se aprender com situações anteriores.

A narrativa do caso apresenta apenas o problema. O caso não apresenta informação sobre o que aconteceu com a empresa ou protagonista. Este tipo de caso requer discussão em sala de aula.

Fonte: Mattar (2017, p. 51).

Portanto, o interessante para esta pesquisa foi a utilização do método de caso- problema, já que esta versão corrobora com a ideia de tornar o aluno ativo no processo de resolução dos problemas. Como se pode perceber pelos conceitos apresentados, o método do caso, sobretudo o caso-problema, é uma metodologia ativa que se difere das metodologias tradicionais ao apresentar formas alternativas de ensinar e de aprender. Como em outras metodologias voltadas ao aluno, a centralidade deixa de estar no professor, que tradicionalmente foi visto como um transmissor de conhecimentos, e passa a estar no aluno, que é visto como o protagonista do processo de ensino-aprendizagem.

Ao invés do papel de detentor do conhecimento, nesta metodologia o professor é reconhecido como um facilitador ou mediador, disponível ao aluno em caso de possíveis dúvidas. As aulas expositivas abrem espaço para o desenvolvimento de habilidades voltadas para resolução de problemas do cotidiano, ao levar em consideração, obviamente, a realidade dos alunos. Essa aproximação pode dar mais sentido ao aprendizado, o que pode aumentar o interesse dos alunos em aprender e, também, desenvolver habilidades de relacionamento interpessoal, aprendizagem autodirigida e desenvolvimento cognitivo, permitindo a abstração de tal forma que seja possível a sua aplicabilidade em outras situações.