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Aprendizagens musicais e vivências com o acordeom

CAPÍTULO II FORMAÇÃO DE PROFESSORES: EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO MUSICAL E O ACORDEOM

RESULTADOS DA PESQUISA

3.1 TRAJETÓRIAS MUSICAIS ANTERIORES À GRADUAÇÃO

3.1.3 Aprendizagens musicais e vivências com o acordeom

Em suas trajetórias com a música e com o acordeom, os entrevistados trazem em suas narrativas momentos de aprendizagens musicais e de sua atuação profissional como músicos em ambientes distintos, tais como tocando em bailes de CTG‟s, como gaiteiro de grupos de danças folclóricas, tocando em bandas e em grupos de música de câmara.

Véu traz em sua trajetória um conhecimento um tanto empírico, muito embora tenha feito aulas de acordeom com alguns professores particulares antes do ingresso na licenciatura e narra muitas experiências musicais com o acordeom. Em seus relatos sobre os aprendizados em música diz que, já aos oito anos de idade, iniciou seus estudos com teclado e que logo em seguida, em torno de dois anos depois, passou a estudar violão e flauta doce. Conta que aos 11 anos aprendeu a tocar órgão de tubo na Escola Marista de Bom Princípio52. Além da aula de teclado com um professor particular, Véu também começou a estudar acordeom com esse mesmo professor.

Com catorze anos eu comecei a estudar o acordeom. Como eu já tinha um conhecimento da parte do piano, da parte da mão direita, facilitou um pouco

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Município do RS localizado entre a Serra Gaúcha e à Grande Porto Alegre. Distante 76 km da capital gaúcha, pertencente à região do Vale do Caí.

pra mim. Ah... Só que com ele era bem o básico do acordeom. Ai com dezesseis anos eu vim pra FUNDARTE e comecei a ter aulas com um professor que dava aulas de acordeom aqui na época. Fiquei até os dezoito anos (VÉU).

Véu foi aprendendo um pouco de conhecimento musical com cada professor com quem estudava, já que para cada instrumento tinha um professor diferente.

Radamés começou seus estudos musicais aos 14 anos, já em contato direto com a gaita e a metodologia de ensino utilizada era baseada na imitação, oralmente. O professor lhe ensinava de forma prática o repertório que ele mesmo tocava. Em um segundo momento, já com outro professor, começou a ter contato com a linguagem musical convencional e se instrumentalizar para ler partitura.

Nessa época eu dançava em grupo de dança de CTG (Centro de Tradições Gaúchas). Agora a gente começa a lembrar de algumas coisas, e sempre me chamou a atenção o acordeom. Eu ficava insistindo com o gaiteiro pra ficar pegando o acordeom dele e ficar fuçando, tentando tocar. E ai eu sei que, enfim, o pai trouxe aquele disco que tinha um repertório de música variada, não somente música regional. Aquilo me chamou muito, muito a atenção. E ai minha mãe e meu pai começaram a perceber isso e algumas pessoas no próprio CTG. - Sim, mas o guri “qué” toca, ele tá muito a fim de tocar, acho que vocês devem colocar ele numa aula. Eu me lembro de um senhor que foi meu professor durante seis meses. Foi músico do CTG que eu participava que eu dançava o Seu Barboza, falecido já. Ele que me deu as primeiras aulas, que me incentivou, juntamente com a minha família, a me colocar numa aula de música (RADAMÉS).

José começou seus estudos com acordeom um pouco mais cedo que seus colegas nesta pesquisa, aos nove anos. Na relação de José com o acordeom, foi interessante o fato de que, por ser o único neto homem na família, recebeu de herança de seu avô o instrumento e na mesma semana que ganhou a gaita, José procurou o professor, que também era amigo da família para dar início aos estudos com o instrumento.

No contexto de temporalidade, a aprendizagem musical e o contato com o acordeom dos participantes nesta pesquisa tiveram seu início praticamente na mesma faixa etária e com históricos semelhantes.

Embora haja semelhanças em suas trajetórias, percebo uma diversidade de professores e métodos que envolveram as suas aprendizagens musicais, levando- me a pensar sobre a minha atuação como profissional docente, destacando a importância de conhecimentos que contemplem estas diversidades e que possibilitem a construção de aprendizagens e habilidades indispensáveis para a atuação como futuro professor de música dos participantes da pesquisa.

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Histórias semelhantes são narradas por outros acordeonistas em seus estudos e que utilizo na revisão de literatura realizada para esta pesquisa. Relatos foram encontrados em Weiss (2013), Borba (2013) e Reis (2012). Weiss (2013, p. 143) destaca que sua iniciação musical deu-se na infância, diretamente com o acordeom. Já Borba (2013, p. 10) relata que o seu primeiro instrumento foi o violão e que a música esteve presente na sua vida desde criança. Aos dez anos de idade iniciou seus aprendizados com o acordeom, por iniciativa de seu pai que o colocou a fazer aulas particulares. Para Reis (2012, p. 13), a “aproximação ao instrumento acordeom aconteceu por volta dos onze anos de idade”. Estes trabalhos citados, narram em seus estudos as suas trajetórias de aprendizagem musicais e as vivências com o acordeom.

Radamés relata que a sua aprendizagem inicial foi por imitação, oralmente. Geralmente, o professor ensinava uma música e ia organizando um repertório sem preocupação com a técnica de execução do instrumento.

Ele me ensinava por imitação, oralmente, me mostrava como é que se fazia no acordeom, e eu tocava o repertório que ele me ensinava. Ele não me ensinava nem um exercício, algumas breves orientações sobre a digitação que tu vai utilizar a melhor forma pra tu pega o instrumento. A postura melhor pra tocar o instrumento (RADAMÉS).

Véu utiliza o acordeom em vários momentos de sua atividade artística, pois também atua em um grupo de teatro amador e numa banda de rock. Quando iniciou seus estudos no acordeom com um professor particular é que teve o seu primeiro contato com uma forma específica de ensino para o instrumento, com a utilização de um método de acordeom.

Aí ele me apresentou muito a questão da música instrumental. Até então eu usava a gaita pra tocar e cantar, não era tanto instrumental. A leitura da partitura pra acordeom eu não tinha, eu lia a partitura de teclado e transformava pra partitura do acordeom. Então isso foi a primeira vez que eu tive contato com partituras para o acordeom especificamente. Começou a trabalhar com alguns métodos, e se não me engano o Anzagui, era um dos métodos que ele usava. Acho que não era o Mascarenhas, não me recordo. Mas ele estava trabalhando com outro método também. Começou me mostrar autores, compositores de música pra acordeom. Começou a me inteirar um pouco desse mundo do acordeom e foi bem legal. Cresci bastante com o professor particular (VÉU).

As vivências com o acordeom para Radamés tiveram início em momentos da tradição gaúcha. Foi no Centro de Tradições Gaúchas (CTG), onde aprendeu os primeiros passos no acordeom com o gaiteiro da invernada artística53.

Então, posteriormente, o acordeom entra na minha vida assim como... E eu vou usar uma frase que o Astor Piazzolla usava, ele chamava o bandoneon de um duende, um pequeno duende e que era um ser mágico que tinha entrado na vida dele, então, desde pequeno quando o pai dele apresentou pra ele aquele instrumento, ele chamou de duende. O acordeom entra na minha vida de certa forma assim, como um duende, como um ser mágico. Antes de eu me interessar. Ah!... Eu sempre ouvi música, sempre gostei, mas antes de eu me interessar por música, eu me interessei pelo acordeom. Então eu acredito que eu comecei a gostar de música através do acordeom (RADAMÉS).

Radamés usa a metáfora54 do duende quando se refere a sua relação com o acordeom, pois considera que o acordeom é um ser que o protege de situações de dificuldade vivenciadas na sua adolescência. Louro (2004) relata em suas pesquisas com professores que atuam no ensino superior, o uso da metáfora do girassol, referindo-se ao papel do professor a partir da perspectiva de identidades profissionais plurais, onde a atuação do professor é uma das pétalas do girassol. Radamés também atua em um quinteto55 de música de câmara que tem no repertório música erudita para o acordeom.

José também atua no mesmo quinteto de acordeom que Radamés. Iniciou seus estudos na gaita com um professor particular que era muito amigo da família.

Eu lembro muito bem que uma das pessoas também, que foi muito importante para mim e é até hoje, eu reconheço isso, é o Professor Zé Nico56. Esse professor, eu peguei a gaita e naquele dia eu fui pra casa dele. Ele estava em casa e eu disse ó professor eu vim fazer aula de gaita, e nem perguntei quanto é que era o valor. Mas ele, como era conhecido da família, por que a esposa dele era colega de trabalho da mãe na escola, num bairro onde a gente morava, no Bairro Cinco de Maio, que é na periferia aqui de Montenegro. E ele automaticamente, já sabia dessa minha tendência musical disse, não, não, vêm pra cá, vem pra cá e vamos começar a estudar (JOSÉ).

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Músico contratado por centro de tradições gaúchas para acompanhar os grupos de danças tradicionais (danças folclóricas) em eventos de cunho regionalista.

54 Para a linguística, “a metáfora é uma enunciação, um ato de linguagem, e seu lócus deve ser procurado no nível figurativo do discurso, oral ou escrito” (RABELO, 1999, p. 176).

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O Quinteto Persch iniciou suas atividades em 1999, tendo como objetivo, difundir o Acordeom através da música de câmara, demonstrando sua versatilidade e oportunizando a exploração do instrumento com repertório erudito. Completa em 2016, 17 anos de atividades ininterruptas. É o único grupo no país com essa formação instrumental de música de câmara e com proposta artística utilizando o Acordeom. O Quinteto Persch durante estes anos participou de concertos em teatros, auditórios, programações de Universidades e grupos artísticos. http://quintetopersch.com/o- quinteto/.

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As narrativas sobre as vivências musicais com o acordeom dos participantes da pesquisa se aproximam, embora a iniciação musical com o instrumento tenha ocorrido de forma distinta. Véu que já tocava em uma banda e com apoio do diretor foi aprender acordeom. Radamés por meio do incentivo dos amigos de seu pai que o alertaram sobre o filho aprender acordeom e José que recebeu o acordeom de herança e que foi aprender o instrumento com um amigo do seu pai. Mas ambos têm em comum o fato de o início da aprendizagem do acordeom ocorrer na adolescência. Os três também estudaram acordeom na FUNDARTE e tiveram em algum momento, o mesmo professor de instrumento. Além disso, há o envolvimento em um mesmo grupo de acordeom por dois dos três entrevistados.

Neste subcapítulo, busquei relatar como ocorreram as aprendizagens e vivências musicais dos acordeonistas e suas influências pela escolha do curso de Graduação em Música – Licenciatura da UERGS. A seguir as motivações e aspirações que levaram os entrevistados a escolherem um curso superior em