• Nenhum resultado encontrado

Não é a definição de um termo que classifica a seriedade da pesquisa, mas o revelar do processo em campo, pois ilustra o compromisso do pesquisador em suas atividades. O trabalho em campo está além dos procedimentos metodológicos de coleta, envolvendo desde a seleção da bibliografia até a escrita do texto, devendo as etapas serem apresentadas com clareza e pormenorizadas, revelando as possibilidades e limitações. Nesse sentido, exponho, a você, leitor, o árduo e importante caminho percorrido.

Primeiramente, estabeleci contato com a escola explicando a intencionalidade da investigação. Na ocasião, a própria, me encaminhou a 11º gerência estadual de educação, responsável em prover as autorizações de pesquisas nas instituições de ensino. Depois dos trâmites legais, a pesquisa foi iniciada a partir de conversas com a coordenação e direção escolar, conquistando a confiança dos mesmos. Em seguida, as aproximações aos estudantes foram paulatinamente ocorrendo nos intervalos, nos convites da professora de artes para assistir suas aulas e nos ensaios da banda da escola. Esses momentos permitiram realizar observações significativas e serviram para a construção de um clima favorável e aberto ao diálogo com os estudantes.

No que se refere aos procedimentos adotados, as observações livres, [grifo nosso], sobre a rotina escolar, consistiram em procedimento chave, o qual percorreu todo processo de pesquisa. De modo geral, Gil (2008, p.100) assegura que “a observação nada mais é que o uso dos sentidos com vistas a adquirir os conhecimentos necessários para o cotidiano”. Concomitantemente, Trivinõs (1987, p. 153 e 154), assevera que as observações livres “ao contrário das observações padronizadas, satisfaz as necessidades principais da pesquisa, [...] a relevância do sujeito”. Destarte, é preciso estar atento aos sujeitos que se dispuseram a participar, pois são constituídos de costumes e valores muitas vezes diferentes da pessoa que investiga, por isso é essencial uma carga teórica expressiva para que as ações observadas não sejam distorcidas perante o julgamento de valor do pesquisador.

Partindo desse fundamento, as observações conduziram a percepção da relação música e escola, identificando em que situações a música aparece no devido espaço, entre eles se destacam o intervalo, aulas de arte, trabalhos solicitados pelos professores com construções de paródias e na gincana de matemática, cujos jovens são instigados a criarem letras e ritmos de fórmulas matemáticas. Os dois meses na instituição resultaram na construção de um repertório vasto sobre a articulação ou desarticulação das experiências musicais dos jovens ao processo de escolarização.

O trilhar investigativo revela-se desafiador e sinuoso, não sendo coerente ao relatório final esconder os percalços enfrentados. Inicialmente, algumas resistências ocorreram, como a rejeição da presença da pesquisadora durante o intervalo, a negação ao questionário e participação das entrevistas. No caminhar dos dias, tendo sido perceptível o grau de seriedade da pesquisa, as situações foram minimizadas, e conquistada a confiança dos jovens.

O segundo procedimento consistiu no questionário [grifo nosso] aplicado com 116 alunos, correspondentes a turmas de 3° ano do Ensino Médio. O questionário foi organizado em 28 questões objetivas, subdivididas em 3 blocos temáticos: dados pessoais, música e lazer, música e escola. O procedimento identificou elementos centrais da vida juvenil no sertão, como: idade, sexo, naturalidade, local de moradia, com quem mora etc. Também, preocupei-me em catalogar informações a respeito do que sabem, pensam, sentem e preferem, oportunizando traçar o perfil dos participantes, que será na próxima seção exibida. O embasamento para elaboração do questionário esteve a cargo de Trivinõs (1987):

Sem dúvida alguma, o questionário fechado, de emprego usual no trabalho positivista, também o pode utilizar na pesquisa qualitativa. Às vezes, o pesquisador desta última linha de estudo precisa caracterizar um grupo de acordo com seus traços gerais [...] (TRIVINÕS, 1987, p. 153 e 154).

Do mesmo modo, Gil (2008, p.121) sinaliza a necessidade de traduzir os objetivos da pesquisa em questões específicas com o “propósito de obter informações sobre conhecimentos, crenças, sentimentos, valores, interesses, expectativas, aspirações, temores, comportamento, etc”, de maneira breve e pontual, mas permitindo direcionar os dados coletados a análises mais amplas. Além do mais, garante a segurança do anonimato, baixo custo, fácil manejo na padronização dos dados e sistematização. Não houve muitas dificuldades com a execução dessa etapa e tive o apoio de professores e coordenação, dispondo aulas para a aplicação do questionário. A dificuldade encontrada foi identificada durante a tabulação, pois algumas perguntas do questionário não foram respondidas pelos jovens.

A última etapa de campo foi à entrevista coletiva, [grifo nosso], guiada por um roteiro de perguntas semiestruturado, o qual, conforme Trivinõs (1987, p. 146), “valoriza a presença do investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação”. Diante as fundamentações, foram organizadas 3 entrevistas, uma com 6 jovens do turno matutino; a segunda com 6 jovens do turno vespertino; do mesmo modo no turno noturno. Os convites foram realizados durante a aplicação do questionário, com o apoio e incentivo dos professores. Contudo, houve uma grande resistência à participação, principalmente por parte das meninas: no total de 22 inscritos, somente duas, eram meninas. Já os garotos, se mostram mais desinibidos, mesmo assim, foi preciso bastante diálogo para conquistar a participação. Vale destacar que na prática essa disposição levou aos encontros somente 9 jovens, sendo 6 da manhã e 3 da tarde. No turno noturno, somente um jovem compareceu, mas recusou-se a conceder entrevista devido à ausência de seus colegas.

O mecanismo serviu na coleta de dados referentes aos significados que os jovens atribuem à música e a escola em seus processos de construção social. O roteiro foi dividido em três blocos, sendo estes: juventude, música, escola, cada um contendo de três a quatro perguntas. Foi estabelecido como critério organizacional das entrevistas, o número máximo de 8 participantes, pois é fundamental que o grupo seja pequeno, já que é visada à participação de todos os membros, bem como o aprofundamento das temáticas. Algumas questões da pesquisa

“Perfil da Juventude Brasileira” (2003), foram adotadas para compor a entrevista, na intenção de elaborar retratos sobre o perfil da juventude sertaneja.

Observa-se, portanto, que tal estratégia metodológica envolve princípios fundamentais para uma realização proveitosa, entre eles está à dinamicidade, dialogicidade e a reflexão dos envolvidos. Doravante, Minayo (2002, p. 57) afirma que a entrevista de um modo geral “num primeiro nível [...] se caracteriza por uma comunicação verbal que reforça a importância da linguagem e do significado da fala. Já num nível mais elevado serve como um meio de coleta de informações sobre um determinado tema”. Para atender a tais critérios, foi escolhido espaço adequado, ofertando também aos jovens, segurança em expor suas opiniões a respeito de suas vivências escolares. O momento aconteceu longe dos muros da escola, tomando como refúgio a biblioteca da cidade, que dispõe de salas com mesas e cadeiras para estudos em grupo. O lugar também foi escolhido tendo como critério a gravação em áudio. Não esquecendo da gentileza da direção do estabelecimento, que prontamente cedeu o espaço mais silencioso para realização desta atividade.

Figura 9 – imagem da biblioteca municipal de Delmiro Gouveia em 2017

Fonte: (site prefeitura de Delmiro Gouveia, disponível em http://www.adalbertogomesnoticias.com.br, acesso em 27 de abril de 2017).

As gravações das falas contribuíram na dinâmica do grupo, não sendo preciso interromper as discussões para o registro escrito. Desse modo, os áudios incidiram em um dos bancos de dados mais significativos da pesquisa, pois, neste formato, a análise deu-se no modo como o assunto é tratado na situação grupal, já que foram obtidos registros de risadas, pausas,

entonações discursivas, opiniões contraditórias e semelhantes, dentre outras características verbais. Vale ressaltar que as gravações aconteceram somente quando os jovens se sentiram seguros para iniciar, lembrando que o objetivo do grupo não era julgar as falas, mas compreendê- las e perceber como elas assemelham-se e diferem-se. Todavia, convém informar que a reação ao gravador foi de timidez, em que os jovens em falas curtas e tom de voz baixo respondiam aos questionamentos feitos. As estratégias descritas foram estruturadas para obtenção ampla de informação a respeito das categorias empíricas dessa pesquisa: juventude rural, música e escola. Caro leitor, tomando como empréstimo as palavras da estudiosa André (2013, p. 97), que, por sua vez, defende que “o mundo do sujeito, os significados que atribui às suas experiências cotidianas, [...] suas produções culturais e formas de interações sociais constituem os núcleos centrais de preocupação dos pesquisadores” adeptos à vertente sociológica compreensiva.

Na intenção de desenvolver reflexões coerentes sobre os dados, gerando novos questionamentos, já que este é o princípio que sustenta a pesquisa exploratória, apresento a seguir as fundamentações teóricas que nortearam a discussão relativa as temáticas envoltas as categorias empíricas da pesquisa.