NO SUL DA BAHIA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO X
1. Apresentação do documento e colocação do problema
No ano de 1794, Antônio da Costa Camelo, juiz ordinário da Comarca dos Ilhéus, assume interinamente o cargo de ouvidor, em virtude do falecimento do desembargador Francisco Nunes da Costa.
63 O documento que é a base deste trabalho foi localizado por Permínio Ferreira e encontra-se publicado em
De visita à Vila de Olivença, para fazer os pelouros64 para os juízes que serviriam
no triênio futuro, relatou não ter lá encontrado o Diretor Francisco Antônio da Silveira. Assim, sem as chaves do cofre de onde deveria recolher os pelouros e rendas do Concelho, mandou retirar a sua fechadura, encontrando dentro dele a quantia de 3$235 réis, “rendimentos do mesmo Concelho do anual que paga cada um casal de índios65 a 240
réis desde o ano de 91, em que entrou a servir por Diretor o dito Antônio Francisco Antônio da Silveira”. Os oficiais da Câmara solicitaram, então, a Antônio da Costa Camelo que “tomasse contas” do dinheiro e rendas do Diretor, mas ele não o fez, por não ter autorização para tal, embora julgasse ser a averiguação da conta necessária “atendendo a que 144 casais paga[va]m anualmente 34$560 e, em quatro anos, desde 91 até o presente de 94, deve[ria] ter o cofre 138$240 em que se deve[ria] crer o alcance do atual Diretor”. Além disso, achou “dentro do cofre uma carta fechada que tinha por título [4]1$715, que entregou Bernardo Pais de Amaral, Diretor que foi [daquela] Vila pelos alcances que ficou”. Antônio da Costa Camelo abriu-a e encontrou 40$400. Examinando, a seguir, o lacro da conta do antecedente Diretor, Bernardo Pais de Amaral, verificou que tinha por termo a mesma quantia de 41$715 do título da conta.
Os fatos acima relatados e outros desmandos cometidos por Francisco Antônio da Silveira foram motivo para que oficiais da Câmara e repúblicos da Vila de Olivença requeressem a Antônio da Costa Camelo que provesse Manuel do Carmo de Jesus no cargo de Diretor de Índios, alegando, ainda, que “o atual [Diretor] não ensinava a seus filhos a ler nem escrever e nunca deu escola conforme a direção da Vila” e ainda que Manuel do Carmo de Jesus “tinha meio de se sustentar, e a maior razão de ser criado naquela vila e saber a língua geral de índios para melhor saber ensinar”. Antônio da Costa Camelo nomeou Manuel do Carmo de Jesus Diretor e ainda informou que a Vila de Olivença estava “como despovoada por terem desertado dela muitos casais [que andavam] espalhados por toda parte por não serem obrigados a residir na dita Vila na conformidade do estatuto dela”.
Por que os fatos acima relatados, registrados em carta localizada no Arquivo Público do Estado da Bahia, são instigantes para os interessados na reconstrução da história social lingüística do Brasil?
64 Pelouro: “bola de cera em que se colocava o voto de cada eleitor.” (Houaiss, 2001). Segundo a historiadora Maria
Helena Flexor, em comunicação pessoal, os pelouros eram bolas de cera e as eleições se processavam, colocando- se nomes em três pelouros para a realização de um sorteio.
65 Aqui, a palavra casal é empregada realmente com o sentido de par, parelha, marido e mulher, e não com o
Em primeiro lugar, é surpreendente que “a maior razão”, o principal argumento apresentado para justificar o pleito de que Manuel do Carmo de Jesus fosse nomeado Diretor da Vila de Olivença fosse “saber [ele] a língua geral de índios para melhor saber ensinar”; surpreendente porque, conforme dispunha o item 6 do Diretório dos Índios do
Pará e Maranhão (1758)66, seria
um dos principais cuidados dos Diretores estabelecer nas suas respectivas povoações o uso da língua portuguesa, não consentindo por modo algum que os meninos e meninas que pertence[ssem] às escolas e todos aqueles índios que fo[ssem] capazes de instrução nesta matéria us[assem] da língua própria das suas nações ou da chamada geral, mas unicamente da portuguesa67.
A autoridade que se pretendia constituir para pôr fim ao uso das línguas indígenas e da chamada geral, curiosamente, era, ela própria, falante da língua geral.
Em segundo lugar, queixavam-se os oficiais da Câmara e repúblicos da Vila de Olivença de que “o atual [Diretor] não ensinava a seus filhos a ler nem escrever e nunca deu escola conforme a direção da Vila”. De acordo com o item 7 do referido Diretório – considerando que a determinação do estabelecimento do uso da língua portuguesa era a “base fundamental da civilidade68 que se pretend[ia]” –, “haver[ia] em todas as
povoações duas escolas públicas, uma para os meninos (...) e outra para as meninas (...)”. No item 8, determinava-se que, para “a subsistência das sobreditas escolas e de um mestre e uma mestra (...) se destinar[iam] ordenados suficientes, pagos pelos pais dos mesmos índios ou pelas pessoas em cujo poder eles vive[ssem] (...)”. A situação relatada para a Vila de Olivença não está em consonância com o que previa o dispositivo legal, mas note-se que parece diferir significativamente daquela de que se tem notícia para a Vila de Porto Seguro, distante apenas 290 quilômetros de Olivença. Conforme Flexor (2001: 154-155):
O segundo ouvidor de Porto Seguro, José Xavier Machado Monteiro, no processo de civilizar os índios, tirava-os ainda pequenos de seus pais para afastá-los do que chamava ‘quase congenitos vicios’ e para que esquecessem a língua materna.
66 O Diretório foi criado pelo Marquês de Pombal em 3 de maio de 1757. As suas decisões, “aplicadas primeiro ao
Pará e ao Maranhão, se estenderam, em 17 de agosto de 1758, a todo o Brasil”, segundo Paul Teyssier (1997: 95).
67 ALMEIDA (1997).
68 Remete-se aqui a Vitral (2001), que examina a influência do chamado “processo civilizatório” no fato de o uso
Ainda de acordo com a mesma autora (id., ib.), relatos desse ouvidor informam que, no ano de 1771, havia 80 meninos aprendendo a ler e escrever e que, no ano de 1773, já seriam aproximadamente 400 meninos e meninas “distribuidos a oficio e soldada pelas casas dos mesmos brancos”. As distintas situações, observadas para duas vilas tão próximas, remetem, necessariamente, para a necessidade do investimento em uma perspectiva metodológica de investigação que, ao menos na atual fase de retomada dos estudos sobre a história lingüística do Brasil, privilegie a exploração das realidades regionais e dos micro-contextos.
Em terceiro lugar, os fatos acima relatados ocorreram no ano de 1794, portanto, 36 anos depois da criação e 4 anos antes da extinção do Diretório, data já muito avançada para se esperar qualquer referência a uma língua geral, sobretudo se se tem em conta a localização geográfica da Vila de Olivença, situada na faixa litorânea da região Sul do atual Estado da Bahia, espaço geográfico em que, segundo Rodrigues (1994), não se teriam observado “as condições sociolingüísticas para o desenvolvimento de uma língua geral”, condições estas determinadas, fundamentalmente, por uma intensa miscigenação de homens europeus com mulheres indígenas e pela rápida formação de populações mestiças.