PARTE III: ESTUDO DE CASO
5. ESTUDO DE CASO: PROJECTO TURÍSTICO KAZA, ANGOLA
5.2. O P ROJETO O KAVANGO – Z AMBEZE
5.2.1. Apresentação do projeto TFCA Okavango Zambeze
O KAZA nasce numa década em que as questões do Desenvolvimento, nomeadamente do Desenvolvimento Local e a necessidade de atualização de estratégias e programas de Desenvolvimento Sustentável, tendo em conta a escassez dos recursos, o aumento da população mundial, e que se agravavam as disparidades entre as regiões mais desenvolvidas e as de maior vulnerabilidade.
O primeiro momento acontece em Victoria Falls (Zimbabwe), a 07 de Dezembro de 2006, com a assinatura do Memorando de Entendimento, do qual resultou a fundação da Área de Conservação Transfronteiriça com a designação “Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area” (KAZA TFCA) e a criação do secretariado para o desenvolvimento do projeto. Conscientes necessidade de conservação e utilização eficiente dos recursos naturais e seus ecossistemas, assim como da sua exploração para fins turísticos, para atingir o Desenvolvimento Económico Sustentável em benefício das populações, os estados soberanos de Angola, Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe almejavam estabelecer uma base de cooperação a nível da gestão da biodiversidade, do desenvolvimento do turismo e da partilha de informação sobre estas temáticas, por via de estruturas institucionais comum. A estrutura do KAZA consistiria no Comité Ministerial, o Comité Técnico, os Grupos de Trabalho e Comité Ad Hoc, o Secretariado e uma Agência de Coordenação Nacional de cada país de caracter consultivo. Ficou ainda estabelecido que o financiamento do projeto seria feito através das contribuições dos membros, de donativos e contribuições de outros stakeholders e parceiros.
Neste memorando são assinadas as primeiras linhas orientadoras assim como o alinhamento dos objetivos do KAZA TFCA:
• Colaboração e Cooperação Transnacional, na gestão dos ecossistemas e dos recursos culturais, a sua promoção, manutenção, reabilitação, renovação e melhoria, sendo que o próprio Memorando define recursos culturais como “qualquer propriedade física ou espiritual associada aos usos humanos presentes e passados, atividades culturais e história”;
• Parcerias e Acordos, na gestão dos recursos biológicos e culturais entre os governos e atores;
• Harmonização dos processos de gestão ecossistemas e dos recursos para o desenvolvimento do turismo transnacional;
• Fomento da participação das comunidades locais e de mecanismos e estratégias para obtenção de benefícios concretos;
• Promoção do Turismo transnacional com fim de Desenvolvimento Social e Económico.
Embora com cunho de Desenvolvimento Sustentável e Comunitário20, a iniciativa dos governos dos cinco países não teria impulso sem a motivação implícita e explícita dos programas e dossiers técnicos da Peace Parks Foundation sediada na África do Sul. As negociações iniciaram-se em 2003, com reuniões e manifestações de vontade das partes, fundamentadas em estudos técnicos desenvolvidos pela Peace Parks na zona da SADC. As iniciativas TFCA em contexto sul do continente africano começam a ser provocadas pela Peace Parks Foundation na segunda metade da década de 1990, em parceria com Global Environment Facility (GEF) e o Banco Mundial (BM), após reuniões sobre o tema da WWF South Africa e Moçambique, que desempenhou o projeto piloto no continente, com financiamento do Banco Mundial. Isto numa altura em que alguns países da região haviam saído da Guerra Civil, de planos de restruturação do PNUD e realizado as primeiras eleições como primeiro passo de implementar a regimes democráticos.
No caso do KAZA, a Peace Parks preparou toda a documentação técnica de para motivação dos estados a realizar o memorando, assim como a elaboração do tratado. A par da Peace Parks realça-se a cooperação alemã e o banco da Alemanha como principais financiadores. Continuara a prestar apoio técnico em termos de implementação e gestão de fundos, através de assinatura de um memorando a longo prazo.
Assente em 3 pilares essenciais, Conservação, Turismo e Desenvolvimento Sustentável, o Tratado do KAZA é oficializado pelos cinco estados membro na Cimeira da SADC realizada em Angola em Agosto (18) de 2011.
20 Entenda-se, neste contexto, “comunitário” como relativo às comunidades locais com identidade
própria, perfazendo uma região heterogénea e diversificada no que toca a fauna, flora, natureza, povos, culturas, tradições, etc.
Figura 3: Mapa dos TFCA na região da SADC
Fonte: SADC Transfrontier Conservation Areas (2017)
Neste Tratado são reafirmados os objetivos de proteção a longo prazo, de uso sustentável e de gestão conjunta dos recursos naturais e de “Herança Cultural”, definidos no Memorando de Entendimento do KAZA (2006) e aprofundados os seus princípios, procedimentos, estrutura e atuação. Com a meta de tornar o KAZA num destino turístico de excelência a nível mundial, este neste Tratado há um reforço do papel da cooperação entre os estados membros para atingir os objetivos traçados, assim como do elo SADC, como condutor de integração regional socioeconómica, com efeito na atuação segundo o quadro estrutural desta organização à qual pertencem os 5 países.
Sublinha-se que as cinco nações são subscritoras dos protocolos, estratégias e orientações para a elaboração de políticas comuns21, nomeadamente em matéria de Desenvolvimento
Regional, Desenvolvimento Sustentável, Conservação da Biodiversidade, Ambiente, Legislação, Recursos Hidrológicos partilhados e Florestas, assim como dos protocolos relevantes da União Africa e resoluções das Nações Unidas em termos de Ambiente, conservação da natureza, biodiversidade, espécies em risco de extinção, pântanos, alterações climáticas e combate à desertificação.
Em termos de governança e gestão administrativa, determina-se a sede do KAZA em Kasane (Botswana) e formalizam-se as os seus departamentos ou instituições:
• Comité dos Ministros: constituído pelos ministros da tutela do projeto a nível nacional, responsável pela liderança da agenda politica, a aprovação de estratégias e ações, elaboração de orçamentos e relatórios financeiros para a sua implementação, segundo os “princípios de Desenvolvimento Sustentável, igualdade, equidade, transparência e respeito mútuo”.
• Comité de Altos Funcionários: constituído por funcionários permanentes, com a função de transformar as decisões tomadas pelo Comité dos Ministros a nível operacional, com atividades, guiões e estratégias, assim como, a monitorização do desenvolvimento, da gestão financeira e consultoria técnica;
• Comité de Gestão Conjunta: constituído por 2 elementos nomeados pelos estados membros e um elemento da SADC, com a responsabilidade de assessorar o Comité de Altos Funcionários, gerir, monitorar e desenvolver as suas operações assim como, elaborar os planos de ação e protocolos de gestão em várias matérias, assegurar a participação dos stakeholders e monitorar as atividades dos Grupos Consultivos Especialistas ad hoc;
• Secretariado: liderado por um diretor executivo sob a alçado do Comité dos Ministros deve assegurar a representatividade dos estados assim como a igualdade de género na sua constituição, assegura as atividades quotidianas decorrentes da gestão e implementação dos planos de ação, processos e procedimentos, planeamento de acordo com os protocolos e tratados regionais e internacionais;
Policy and Strategy (1998), the SADC Protocol on Trade (1996), the SADC Protocol on the Development of Tourism (1998), the SADC Protocol on Wildlife Conservation and Law Enforcement (1999), the revised SADC Protocol on Shared Water Courses (2000), and the SADC Protocol on Forestry (2002).
• Comités Nacionais: definidos por cada país, responsáveis pela coordenação local e nacional dos programas de acordo com o definido no projeto assegurando os interesses dos atores, divulgar o plano, e assegurar benefícios equitativos para as comunidades locais.
A coordenação do KAZA é feita pela presidência do Comité Ministerial tem uma rotatividade de dois anos. Neste Tratado, define-se o mapa do KAZA TFCA, assim como, as suas coordenadas geográficas das fronteiras.
“Transfrontier Conservation Area” (TFCA)” means the area or the component of a large ecological region that straddles the boundaries of two or more countries, encompassing one or more Protected Areas, as well as multiple resource use areas” (Tratado KAZA TFCA, 2006)
Em primeira instância, o Tratado do KAZA prevê que a sua implementação potenciará o Desenvolvimento Sustentável da região assim como do Turismo com recursos aos seus ativos e poderá ser um meio de combate à pobreza e melhoria das condições de vida das populações. Segundo o mesmo documento, as comunidades devem ter um papel essencial no que toca aos benefícios decorrentes do projeto desde que haja equidade redistribuição dos mesmos e a certificação de que a propriedade dos recursos a nível governamental e local. Para tal, deve criar-se um ambiente favorável ao envolvimento dos diversos atores locais, instituições, comunidades, ONG e sector privado para florescimento de parcerias público-privadas e com as comunidades no desenvolvimento e planeamento do KAZA e na integração regional.
Em segundo lugar, há uma tentativa de clarificar e complementar os conceitos chave do projeto, como o conceito de comunidades locais22 imbuída das suas dimensões social, cultural e económica, com relações entre si e entre si e o território KAZA, o conceito de Área Protegida23 abrangendo biodiversidade, recursos naturais e património cultural,
22 Tratado do KAZA (2011) define “Comunidades Locais” como “groups of people living in and
adjacent to the area of Kavango Zambezi TFCA bound by cultural, social and economic relations based on shared interests and transboundary resources”.
incluindo parques naturais, games e reservas florestais e a complexificação do recursos ou herança cultural, que traduz a identidade dos povos e dos locais:
“Cultural Heritage Resources” means any physical and spiritual property associated with human use, cultural and historical activities as well as intangible culture such as folklore and interpretative arts such as storytelling and drama”; (Tratado KAZA TFCA, 2006)
As relevantes novidades trazidas pelo Tratado depreendem-se da inclusão das questões de segurança e paz na região, a temática da poluição e da pressão humana no ambiente e degradação dos ecossistemas e habitats naturais e a abordagem clara dos novos desafios socias da altura, o HIV SIDA, o ambiente e as alterações climáticas.
Em terceiro lugar, o Tratado sublinha a importância da informação para gestão do projeto, a nível territorial e a nível científico, pois não se tem capacidade de gerir sem se não estiverem disponíveis meios técnicos, humanos e financeiros adequados. O conhecimento cientifico e a pesquisa interdisciplinares, bem como, o conhecimento tradicional constituem ativos fundamentais à condução do KAZA com sucesso.
Nesta base institucional pode alcançar-se um processo de Desenvolvimento Sustentável e integrado, que passa pela criação de empregos, a inclusão social de comunidades mais vulneráveis, o fomento de pequenos negócios baseados nos saberes e tradições das comunidades, o aproveitamento da ausência de barreiras fronteiriças para melhor gestão e preservação da biodiversidade e o favorecimento de condições para a instalação de instituições públicas e privadas e ONG em áreas mais remotas.
Da esfera política ao terreno, a operacionalização do KAZA traduz-se em encontros a nível ministerial para acompanhamento e tomada de decisões, workshops com o envolvimento dos stakeholders locais, consultores e órgãos de desconcentrados do estado, assim como, pelo trabalho exercido pelo secretariado em busca da implementação e monitorização programas e dos planos de ação numa base quotidiana.
Heritage Resources, and managed through legal or other effective means, such as National Parks, Game and Forest Reserves”.
Não obstante as potencialidades do projeto e a sua pertinência na atualidade, onde os caminhos do Desenvolvimento se discutem numa perspetiva de adequação das estratégias a partir do conhecimento do terreno, um dos seus principais desafios assenta na harmonização de políticas, legislação e planos de ação entre os cinco parceiros. Trata-se de uma mesma região, constituída por várias sub-regiões, com povos diversos embora haja similaridades e hábitos de migrações dentro da região, porém não se parte de uma base comum. Cada região contém as suas dinâmicas e a nível, governamental, apesar dos países de ratificarem os mesmos acordos, da SADC e das Nações Unidas em termos de conservação, turismo, ambiente e alterações climáticas, assim como, a subscrição aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Mas não existe ainda harmonização de legislação, nem exploração turística no terreno se pensar que Angola ainda esta numa fase embrionária ao passo que os parceiros beneficiam de paz há mais anos o turismo constitui uma importante receita para o PIN nacional e subsistência das populações.
A par da legislação, importa referir a necessidade de harmonização de politicas de ordenamento do território, conforme os desafios e as demais estruturas de cada parceiro, facilitadoras do desenvolvimento do potencial turístico do TFCA. Impera a necessidade de aumento das instalações elétricas, o desenvolvimento de redes de saneamento básico e distribuição de água potável, o aumento do número de postos médicos e mecanismo de prevenção de doenças, o aumento da rede de ligações aéreas, terrestres e ferroviárias, o desenvolvimento e construção dos meios escolares, de formação e capacitação do tecido humano local numa lógica de empowerment, a implementação de politicas de segurança alimentar e meios de prevenção de choques derivados de fenómenos sazonais e alterações climáticas. A utilização de um TFCA como impulsionador de Desenvolvimento Local e Regional, pode ser uma estratégia bem-sucedida se nas suas fases de elaboração, implementação e desenvolvimento sejam acautelados os perigos decorrentes da condução de uma estratégia regional, sabendo à partida que a região comporta inúmeros subterritórios, povos com culturas, tradições e costumes diferentes, consequentemente com necessidades diferenciadas, sendo que eles próprios são considerados um ativo atrativo da região para o fomento do Turismo, com base nos 625 locais com potencial turístico identificados, entre património histórico, arqueológico, religioso e antropológico.
De acordo com os dados de monotorização publicados no Plano Diretor Integrado do KAZA (2016), os efeitos decorrentes do KAZA são notórios apenas no Botswana, com um resultado numérico de 2 milhões de chegadas em 2010, justificado parcialmente pela existência de melhores estruturas hoteleiras e melhor coordenação dos agentes turísticos locais, embora se possa também especular sobre o papel da vontade politica daquela região para o fomento das atividades do KAZA.