4.2 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DAS HQS
4.2.2 Apresentação e análise do texto base – HQ 2
Nesta seção, vamos observar a segunda HQ apresentada, que serviu de base para as produções dos aprendizes e identificar nela as macroproposições descritas anteriormente. Com respeito à primeira macroproposição apresentada no modelo de Adam, a situação inicial, esta se estabelece a partir de um implícito também nesta HQ, como já vimos, muito comum nesse gênero.
Nesse caso, a situação inicial deve ser reconstruída por meio do fato omitido no primeiro quadro. Ao iniciar a leitura da HQ, nos remetemos a uma situação estável que não se apresenta explicitamente. Então, novamente a partir da ausência, podemos preenchê-la ao reconstruir uma imagem em que a mãe da Mônica está em casa realizando afazeres domésticos enquanto Mônica brinca com um boneco em um determinado tempo e lugar. Mais uma vez, é papel do leitor o preenchimento desse espaço, o que influencia diretamente a progressão da narrativa.
Levando em conta a próxima macroproposição observada, a complicação, esta está explícita e pode ser identificada também por meio do primeiro quadro, abaixo apresentado.
Nele, podemos observar o momento em que a mãe da personagem Mônica a
encontra e se admira com a ação da filha. A expressão facial e a ação de Mônica provocam uma reação em sua mãe. Tais recursos, a expressão da mãe e o uso da interrogação dentro do balão contribuem para explicitar a complicação estabelecida na HQ. A mãe não compreende a atitude de Mônica ao vê-la surrar o brinquedo.
Esse temperamento da personagem é bem característico no que tange à maioria dos enredos de Maurício de Sousa. Nesse caso, o fator que provoca o desequilíbrio do estado inicial da trama, e que vai desencadear as (re) ações, é o encontro das duas personagens que primeiro se apresentam na HQ. O encontro das personagens constitui, então, a complicação da seqüência.
Nesse texto, as ações correspondem à seqüência do quadrinho 2 ao 14, por apresentar uma progressão de fatos resultante da complicação que surge na seqüência narrativa. A seqüência comentada pode ser identificada na progressão abaixo:
A partir dessa seqüência de quadrinhos, identificamos a seqüência de fatos que se estabelece de maneira a solucionar o problema estabelecido. Assim, observamos que ao encontrar Mônica atingindo um boneco, a mãe é levada a questioná-la sobre o que fazia e a questionar-se acerca do que Mônica respondia.
As expressões faciais da mãe, as falas e as formas dos balões demonstram compreensão nos primeiros quadrinhos. Mas as especificidades da HQ se modificam a partir do momento que a mãe se questiona. As formas “trêmulas” dos balões, juntamente com suas falas e expressões de dúvida contribuem para a explicitação das (re) ações. A fala “c-credo!!” inserida em um balão “trêmulo”, por exemplo, explicita o nervosismo da mãe ao buscar entender o que acontecia. No mesmo quadrinho, há um balão com forma diferente de todos os vistos até aqui, ele reproduz a imaginação da mãe, uma hipótese. Além desses fatos, a mãe foi levada, ainda, a ter uma conversa com o pai da protagonista, e a tentar conversar com Mônica acerca do que ela pensava em fazer com relação àquela brincadeira. Essas (re) ações também são explicitadas por recursos lingüísticos e não lingüísticos. Essa progressão corresponde ao que Adam e Lorda (1999) definem como (re) ações dentro de uma seqüência narrativa.
Com relação ao componente desenlace nessa HQ, podemos identificá-lo no 15º quadrinho, aqui apresentado.
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Nessa imagem, reconhecemos o resultado de ações anteriores. Apresenta-se dissolvido o nó da narrativa, pois observamos Mônica jogando peteca. Com isso, chegamos à conclusão, assim como seus pais no texto, de que esse era o motivo pelo qual Mônica surrava o boneco. O fato de Mônica estar jogando peteca é o fator que consiste no nó desfeito, rompido, constituindo o desenlace da HQ. Essa fase é explicitada tanto pela expressão de alívio e manifestação verbal dos pais quanto pela expressão de satisfação dos outros personagens. O balão que indica a recordação da mãe com relação à ação de Mônica também remete a sua compreensão.
Nesse segundo texto comentado, a situação final pode ser reconhecida também no 15º quadrinho, apresentado acima. Da mesma maneira que podemos identificar nesse quadrinho o desenlace, podemos reconhecer nele elementos que nos remetem a uma situação estável, equilibrada. A partir desse quadro, percebemos uma certa ordem reestabelecida, uma circunstância harmoniosa com relação à resolução do nó, representada por meio dos recursos verbais e não
verbais utilizados na construção narrativa. Ao mesmo tempo em que Mônica apresenta-se brincando com outros personagens, seus pais, podemos observar a partir de suas expressões, apresentam-se “aliviados” com relação a suas expectativas anteriores.
Com respeito aos textos observados, nos dois casos, a moral não parece fazer parte da estrutura narrativa, não constitui a seqüência narrativa. Assim como na primeira HQ, por meio da análise da segunda HQ, cabe-nos afirmar que a moral não é uma fase essencial na constituição da seqüência narrativa, e ainda, caber-nos-ia questionar se essa fase não seria comumente rara no gênero HQ.
CAPÍTULO 5
ANÁLISE DOS DADOS ORAIS E ESCRITOS
Neste capítulo, analisamos produções narrativas, orais e escritas, a partir da leitura/interpretação do gênero HQ, de alunos da 3ª e da 7ª séries do Ensino Fundamental, com a finalidade de reconhecer e descrever o funcionamento dos articuladores textuais e dos tempos verbais como organizadores da seqüência narrativa. Na primeira seção, observamos os textos orais e escritos de aprendizes da 3ª série e, na segunda, os textos orais e escritos de aprendizes da 7ª série. Na última seção, observamos as especificidades das produções orais e escritas de ambas as séries, levando em conta o grau de escolaridade dos alunos.
Cabe aqui retomarmos o esquema prototípico da seqüência narrativa apresentado por Adam e Lorda (1999), além de levar em conta a idéia de que os articuladores textuais e os tempos verbais contribuirem como mecanismos de progressão textual fundamentais na organização de um texto narrativo. Retomemos o esquema citado, adaptado de Bonini (2005), e observemos a partir dessa estrutura como estão atuando os elementos textuais dentro dela: