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Apresentando a questão do drive e sistematizando o conceito

ARTIGO 2 – Um análise da noção de drive apresentada por Skinner em três obras

1. The behavior of organisms (1938)

1.1. Apresentando a questão do drive e sistematizando o conceito

Em The behavior of organisms (1938), o tratamento da motivação foi quase que completamente subsumido ao termo drive, e nos capítulos (1 e 9) onde há maior preocupação com a apresentação do conceito, um primeiro cuidado que Skinner toma é em expor os “porquês” por trás do problema e em delimitar o tratamento conceitual e experimental do fenômeno ao qual o termo drive se refere em uma ciência do comportamento.

O problema do drive se coloca porque muito do comportamento de um organismo mostra uma aparente variabilidade. Um rato nem sempre responde à comida colocada diante dele, e um fator chamado “fome” é evocado como uma forma de explicação [para isto]. É dito que um rato come apenas quando está com fome. É porque comer não é inevitável que somos levados a hipotetizar um estado interno ao qual devemos atribuir a variabilidade…. [Entretanto], como em qualquer caso de variabilidade na força de um reflexo, o problema aqui é o de encontrar a variável ou variáveis das quais a força é função e expressar tal relação em um conjunto de leis (pp. 341-342).41                                                                                                                

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The problem of drive arises because much of the behavior of an organism shows an apparent variability. A rat does not always respond to food placed before it, and a factor called ‘hunger’ is invoked by way of explanation. The rat is said to eat

Em suma, o problema do drive está relacionado à variabilidade observada no comportamento – mais especificamente, a um tipo de variação que apresenta uma grande extensão entre dois extremos – e ao desafio que ela traz a uma ciência do comportamento. Neste sentido, parte da importância do drive para uma compreensão adequada do comportamento estaria relacionada à possibilidade de se encontrar e compreender as fontes dessa variação. E como esta passagem parece demonstrar, a busca por estas fontes conduz Skinner a uma discussão sobre a “natureza” das operações que promovem a variação comportamental observada quando se supõe a existência de um drive, e a contrapor a sua proposição com o tratamento tradicional do drive como um estado interno de natureza fisiológica ou psíquica.42

Assim, as variações observadas no comportamento são compreendidas por Skinner como função direta de certas variáveis ambientais que podem ser detectadas e manipuladas. A tarefa de uma ciência do comportamento seria, portanto, identificar estas variáveis e expressar a relação (na força do reflexo) em um conjunto de leis, as quais foram denominadas pelo próprio Skinner (1938) de leis dinâmicas do comportamento.

No entanto, se essa forma de apresentar o drive delimita como ele deverá ser encarado em uma ciência do comportamento, outra pergunta permanece: o que diferencia o drive das outras variáveis que alteram a força do comportamento? Parece ser uma tentativa de responder a esta última pergunta que leva Skinner (1938), já no primeiro capítulo de seu livro, a afirmar:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       

only when it is hungry. It is because eating is not inevitable that we are let to hypothesize an internal state to which we may assign the variability…. as in any case of variability in reflex strength, the problem here is to find the variable or variables of which the strength is a function and to express the relationship in a set of laws (pp. 341-342).

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O sistema explicativo skinneriano de uma maneira geral foi estabelecido “também na comparação direta com outros sistemas em elaboração na psicologia” (Andery, Micheletto & Sério, 2002, p. 29). De forma semelhante, sua proposição para o tratamento do drive ou da motivação parece ter sido também influenciada por este “diálogo”, em especial com autores como Hull e Tolman (Hineline, 1990; McCoquordale & Meehl, 1948).

As operações que caracterizam o drive e a emoção diferem das outras listadas por produzirem mudanças concomitantes em grupos de reflexos…. Além disso, cada operação não é única. Há mais de uma forma de mudar a força de um grupo de reflexos variando com a ingestão ou com um estímulo emocional. Além da formulação a respeito do efeito em um único reflexo, devemos lidar também com o

drive ou a emoção como o “estado” de um grupo de reflexos. Isto é feito

introduzindo-se um termo intermediário hipotético entre a operação e a mudança resultante observada…. Sua utilidade pode talvez ser esclarecida pelo esquema [apresentado] a seguir. Quando uma operação é única em seus efeitos e se aplica a um único reflexo, pode-se representar o caso como se segue:

Operação I --- ( ) --- Força do reflexo I,

em que nenhum termo intermediário é necessário. Quando há diversas operações com o mesmo efeito e que afetam diversos reflexos, a relação poderia ser apresentada da seguinte maneira:

Operação I Força do Reflexo I

Operação II Estado Força do Reflexo II

Operação III Força do Reflexo III (p. 24).43                                                                                                                

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The operations characterizing drive and emotion differ from the others listed in that they effect concurrent changes in

groups of reflexes.… Moreover, a single operation is not unique. There is more than one way of changing the strength of the

group of reflexes varying with ingestion or with an emotional stimulus. In addition to the formulation of the effect upon a single reflex, we must deal also with the drive or the emotion as the ‘state’ of a group of reflexes. This is done by introducing a hypothetical middle term between the operation and the resulting observed change.…Its utility may perhaps be made clear with the following schemes. When an operation is unique in its effect and applies to a single reflex, it may be represented as follows: [scheme]

where no middle term is needed. When there are several operations having the same effect and affecting several reflexes, the relation may be presented as follows: [scheme] (p. 24).

Portanto, o que caracterizaria o fenômeno do drive (assim como no caso da emoção) seria (1) o tipo de operação que ele envolve e, especialmente, (2) as maneiras particulares com que tais operações afetam a força das respostas com as quais estão relacionadas. Por exemplo, o drive fome envolveria uma relação complexa entre um grande número de operações (e.g. privação de alimento, ingestão de certas drogas, perda de nutrientes etc.) que têm um mesmo efeito (no caso, aumento da força) sobre um grande número de respostas relacionadas à ingestão de alimento (e.g. procurar alimento, pedir alimento, salivar na presença de alimento). É essa complexidade que, segundo Skinner (1938), diferencia os campos do drive e emoção de outras variáveis que afetam a força do comportamento, justificando a referência a um termo intermediário hipotético.

Em relação a este último ponto destacado (esquema acima), se a relação envolve uma operação específica em conexão com uma determinada resposta específica, nenhuma referência a um “estado” é necessária. Pode-se facilmente descrever a relação referindo-se diretamente à operação e à mudança que ela produz. No entanto, no caso de uma relação que envolve várias operações que são formalmente tão diferentes entre si, mas que têm um mesmo efeito (covariação de diferentes tipos de respostas), nenhuma descrição com este grau de simplicidade englobaria a complexidade do fenômeno. É nestes casos que a referência ao que Skinner chamou de um “estado intermediário hipotético” (como drive) pode ser útil, pois ele fornece um termo geral capaz de conferir uma unidade à complexa relação.

No entanto, Skinner (1938) mostra-se constantemente preocupado em lembrar o alcance que o tratamento da motivação deve ter em uma análise do comportamento: o termo

drive, ele insiste, é apenas um artifício conceitual útil para expressar a complexidade da

relação entre determinadas operações e certas respostas que covariam e não é de fato necessário em um sistema descritivo. Dessa forma, como coloca Hineline (1990), o conceito de drive – apesar das referências a um “estado” ou “termo intermediário hipotético” – é

claramente apresentado por Skinner com um status de variável interveniente (no sentido de que é um termo que sumariza uma relação comportamental complexa) e não como um constructo hipotético, o que presumiria a referência a eventos mediadores dentro do organismo.44