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3 O ALUNO COM SURDEZ NO CONTEXTO ESCOLAR: CORPOS QUE

5.1 APRESENTANDO AS PRIMEIRAS ETAPAS: PARTILHANDO OLHARES

Bem recebida pelo Diretor Acadêmico, que logo me apresentou o departamento de Educação Física (EF) e lá tive primeiro contato com alguns professores de EF, me apresentei e esbocei o que eu pretendia fazer na pesquisa [...] (DIÁRIO DE CAMPO, 2019).

Nosso primeiro contato no IFRN/CNAT para fins de pesquisa foi bastante receptivo devido ao fato de a Instituição desenvolver “[...] a pesquisa e a extensão, na perspectiva de produção, socialização e difusão de conhecimentos. [...] a Instituição visa contribuir para as transformações da sociedade, visto que esses processos educacionais são construídos nas relações sociais” (BRASIL, 2012, p. 19). Ela valoriza a prática da pesquisa para fins de transformações e contribuições para a sociedade. De acordo como PPP, a função social do IFRN é de:

[...] ofertar Educação Profissional e Tecnológica – de qualidade referenciada socialmente e de arquitetura político-pedagógica capaz de articular ciência, cultura, trabalho e tecnologia – comprometida com a formação humana integral, com o exercício da cidadania e com a produção e a socialização do conhecimento, visando, sobretudo, a transformação da realidade na perspectiva da igualdade e da justiça sociais (BRASIL, 2012, p. 21).

Demos início às nossas observações no Ensino Médio no curso técnico integrado em Informática para Web e no curso técnico integrado de Manutenção e Suporte no turno matutino. As atividades iniciavam às 7 horas da manhã com o professor de Educação Física e terminavam às 8:20h horas. Iniciamos a pesquisa em uma aula teórica. Segue um trecho das observações registradas em nosso diário de campo:

[...] Na segunda visita ao nosso lócus, conforme marcada com antecedência, observamos os alunos surdos e ouvintes curiosos para saber o que estávamos fazendo ali, e o professor apresentou à pesquisadora e o tema da pesquisa, e a partir de então se iniciaram as observações em sala de aula. Presenciamos que a Instituição disponha de tradutores intérpretes de Libras em sala de aula dando assistência profissional ao aluno surdo em relação a comunicação nas aulas (DIÁRIO DE CAMPO, 2019).

Nesse dia, a nossa presença despertou grande curiosidade nos alunos. Mas, após a explicação do professor e a nossa apresentação, os alunos entenderam os objetivos da pesquisa e nos receberam com aceitação.

Após as primeiras impressões, constatamos que a Instituição disponibiliza o profissional Tradutor Intérprete de Libras (TILS) na intermediação da comunicação na aula. Com isso, a explicação dos conteúdos está contemplando os alunos surdos, promovendo o envolvimento nas aulas e com a turma. A presença desse profissional em sala de aula é imprescindível, visto que alunos surdos se comunicam por meio de uma outra língua, que é a Língua de Sinais.

Vejamos a seguir uma outra observação no registro feito da aula:

A aula observada é teórica/prática, e tem como tema “Cultura corporal do movimento”, uma aula expositiva com slides. Nela, abordou-se sobre o jogo, ginástica, dança, capoeira, esportes, atividades rítmicas e expressivas, mas o foco central dessa aula era sobre “classificação e habilidades de movimento”, abordando as fases motoras do desenvolvimento, os aspectos musculares [...] O professor exibiu slides bem ilustrativos, facilitando a compreensão de todos os alunos através da identificação dos conceitos por meio das imagens. Havia a presença de Tradutores Intérpretes de Libras na aula auxiliando na comunicação com os alunos surdos presentes.

[...] O professor convidava os alunos para exibir exemplos do que estava sendo mostrado como conceito. Durante as explicações e exemplos mostrados, o aluno surdo se pronunciou dizendo que não queria participar, pois a sala de aula não era um espaço pra atividades práticas, mostrando que não estava compreendendo o que estava sendo proposto, porém o professor explicou pra ele que eram apenas exemplos e que a prática seria em outra aula no local devido.

[...] Em um exemplo sobre manipulação, o professor pede que os alunos peguem, balancem e depois ameassem uma folha de papel. Essa folha amassada em formato de bola deveria ser jogada para cima e pegada de volta, depois deveriam jogá-la para cima e bater palma, depois jogar, girar e tocar no chão e pegar a bola de papel [...]

Essa atividade foi realizada por todos os alunos na turma, cada aluno de acordo com as suas possibilidades (DIÁRIO DE CAMPO, 2019).

Podemos observar que a prática do professor foi organizada observando as necessidades dos alunos no que tange a forma ilustrativa de transmitir seus conteúdos, assim facilitando tanto

a compreensão dos alunos com surdez quanto a dos demais alunos ouvintes. Devido à presença de profissionais TILS, a transmissão dos conteúdos propostos se tornou mais acessíveis aos alunos surdos, possibilitando a participação e o envolvimento com o professor e com a turma. Observamos que nessa aula todos os alunos participaram. O assunto abordado trazia significado a eles por meio dos exemplos visuais e práticos transmitidos. Corroboro com os pensamentos de González e Fraga (2012, p. 14) quando dizem que “educar é permitir que a aprendizagem sobre o mundo, sobre si mesmo e sobre o outro aconteça para que possamos agir de maneira situada, diversificada, criativa, crítica e atuante no nosso dia a dia”. Ao permitir que os alunos experienciassem os conteúdos propostos, o professor permitiu a aprendizagem tanto de si quanto do outro no momento que os exemplos culminaram em contatos com os seus colegas de turma. Segue abaixo uma imagem da aula observada e dos exemplos práticos vivenciados pelos alunos.

Figura 01 – Fotografia da aula: “Classificação e habilidades de movimento”

Fonte: Autoria própria (2019).

Posteriormente, em uma aula prática observada, o professor iniciou suas ações na quadra poliesportiva do campus, com atividades lúdicas e recreativas. Podemos observar o seguimento da aula por meio desse registro:

Nessa aula, o professor faz atividades lúdicas e recreativas, e inicia com uma dinâmica “Mãos dadas”. Com o auxílio dos intérpretes presentes, ele pede para que os alunos deem as mãos e formem juntos um nó, e depois tentem desatá-lo, sem a necessidade de soltar as mãos. Todos participaram da dinâmica e se divertiram bastante, porém notamos que nas atividades propostas não havia uma explicação sobre o que representava aquela prática, e um dos alunos surdos olhou para a pesquisadora e disse em Libras: “parece brincadeira de criança”. Em seguida, ele sorriu.

Na segunda atividade, ele virava de costa para os alunos e eles tinham que se aproximar dele, mas ao virar se o professor percebesse algum movimento do

aluno, o tutor saia da atividade. Um dos alunos surdos conseguiu atingir o objetivo proposto pela atividade de se aproximar sem que tenha sido notado seu movimento de deslocamento.

[...] Percebemos a interação de todos os alunos nas atividades e pudemos observar que estavam se divertindo bastante (DIÁRIO DE CAMPO, 2019).

Nessa aula prática observamos que todos na turma participaram e se divertiram. Porém, foi constatado também que, na prática docente, ao utilizar atividades lúdicas e recreativas, não houve explicações nem esclarecimento aos alunos sobre o que cada atividade representava e quais eram os benefícios de tais práticas. Quando uma prática ocorre sem significado, isso faz com que o aluno a pratique por praticar, sem que haja um entendimento do que aquela atividade quis trazer de significativo, tornando assim a aula infundada para os esses sujeitos – acarretando o entendimento de que a aula é apenas um momento de recreação. Reforçando esse entendimento, Faggion (2011 p. 03) afirma que:

Não é suficiente praticar por praticar, muito menos competir por competir. É preciso discutir com o aluno o porquê da prática da atividade física. O aluno precisa entender e vivenciar seu aprendizado para que isso o leve a assumir novas atitudes no mundo vivido.

Figura 02 – Fotografia da aula: Dinâmica “Mãos dadas”

Figura 03 – Fotografia da aula: “Atividades lúdicas e recreativas”

Fonte: Diário de campo (2019).

Em outro momento da visita para observação feita na turma a qual os surdos se faziam presente, um outro professor que ministrava a aula. Nesse dia, observamos que:

A aula é prática com outro professor, que traz metodologia diferentes. Observamos que não havia Tradutores Intérpretes de Libras na aula, porém existe dois surdos presentes, e o professor faz atividades com os alunos de aquecimento em quadra. [...]

A prática corporal proposta é conhecida como “polichinelo”. Para que os alunos com surdez pudessem saber como seria a prática corporal, o professor convida um aluno para demonstrar para a turma como irá ser executava a prática. Assim, todos observam e fazem como o exemplo dado, fazendo três séries de dez repetições.

[...] Ao final das práticas de aquecimento, o professor divide a turma em dois grupos para dar início as atividades de vôlei na quadra, os surdos participaram de todas as atividades, mas muitos alunos não quiseram participar e ficaram fora da quadra observando, o que não acontecia nas aulas anteriores observadas em que todos participavam (DIÁRIO DE CAMPO, 2019).

A observação feita na aula demonstra que a metodologia utilizada por esse professor prioriza a prática corporal, com atividades de aquecimento antes iniciar o conteúdo dos fundamentos esportivos. O professor que ministra essa aula tem mais de 30 anos na Instituição, por essa razão experimenta a influência do viés técnico da formação inicial docente, por meio do qual o professor adequou sua metodologia de ensino. Bracht et al. (2002) trata sobre a prática pedagógica dos egressos dos cursos de licenciatura em Educação Física da década de 1990, que antes possuía uma formação de caráter técnico-instrumental. Com o chamado “novo currículo”, é promovida uma mudança de paradigma na formação profissional em EF, no qual

necessitariam passar para uma formação de caráter mais crítico-reflexiva. De acordo com Bracht et al. (2002, p. 10):

A tarefa de mudar a prática, no entanto, parece colocar mais obstáculos do que se poderia prever. Para além dos que se situam num nível “macroestrutural”, portanto das determinações econômicas e políticas, existem os de ordem “micro”, obviamente àqueles ligados, mas que exigem tratamento específico, ou seja, no plano da elaboração de sugestões de ação e mudança curricular.

Esse autor chama a atenção para uma “adesão “teórica” às propostas pedagógicas críticas que parecem ser maiores do que sua efetiva prática (BRACHT et al., 2002). Segundo Tani (2000 apud CHICON, 2008, p. 30), “[...] os cursos de graduação, salvo raras exceções, oferecem uma formação eminentemente técnica em que o aprender a fazer predomina sobre o conhecer”. As formações técnicas refletem no fazer do professor ao longo de sua atuação. Ao se deparar com uma mudança curricular, o docente encontra dificuldades em transformar suas ações pedagógicas, tentando muitas vezes adaptar suas técnicas ao novo currículo escolar.

Figura 04 – Fotografia da aula: “Práticas de aquecimento”

Fonte: Autoria própria (2019).

Dando seguimento as observações, queremos chamar atenção para um momento que observamos durante a pesquisa no relato abaixo:

Tivemos a oportunidade de observar a semana dos jogos internos dos estudantes do IFRN. Nesses jogos, observamos que dois dos alunos surdos, que fazem parte do curso técnico integrado ao Ensino Médio, iriam participar de algumas modalidades esportivas. Na visita a Instituição assistimos a um dos jogos de futsal que esses alunos surdos participaram. Nesse jogo, verificamos que ambos possuíam uma grande habilidade na prática esportiva,

e um deles fez até um gol a favor do seu time. Constatamos que esses alunos, mesmo não ouvindo o apito do juiz, conseguiam entender a dinâmica do jogo perfeitamente. Por meio da percepção visual, eles sabiam quando o juiz estava apitando alguma falta, ou qualquer outro lance do futsal que necessitasse dessa intervenção sonora (DIÁRIO DE CAMPO, 2019).

Nesse evento estudantil que os surdos participaram, contemplamos que os eles possuíam prática e autonomia esportiva. Isso os possibilitou executar a modalidade esportiva sem a necessidade de algum tipo de adaptação. Esses alunos, mesmo com a diferença comunicativa e a deficiência sensorial auditiva, conseguem se adequar ao ambiente social e exercer suas habilidades com excelência, aguçando os demais sentidos e se ajustando ao meio inserido. Segundo Santos Filha (2006, p. 03), “os surdos podem praticar qualquer tipo de esporte e de atividade rítmica. No caso dos esportes, não há necessidade de qualquer adaptação na forma de ensinar, conduzir ou arbitrar. Tampouco há adaptações nas regras de cada modalidade”. Ao observar a prática esportiva, nos deparamos com um contexto emancipador no qual esses sujeitos, por meio do esporte, podem ser cabais.

A partir das percepções elaboradas nas aulas de Educação Física, podemos compreender que os professores estabelecem uma tentativa de inclusão dos alunos com deficiência/diferença, visto que, em uma das aulas observadas, o professor organizou sua prática observando as necessidades dos alunos transmitindo seus conteúdos forma ilustrativa, facilitando a compreensão de todos de maneira significativa, envolvendo não só os alunos com deficiência/diferença como também os demais.

Os professores geralmente buscam proporcionar a participação de todos os alunos em suas aulas. Contudo, participar de uma aula não significar estar incluído nela. Durante uma observação, presenciamos uma aula sem o profissional intérprete de Libras, o que dificulta a comunicação e compreensão dos alunos em relação aos conteúdos ministrados. Mesmo com a dificuldade de comunicação e a preocupação por parte docente, foi dado o seguimento da aula – sem o entendimento efetivo por parte dos alunos surdos, visto que o professor explicava suas atividades antes de executá-las, fato que condiciona os alunos a fazer apenas a repetição do que estava sendo observado sem compreender o que de fato estava sendo feito. Também constatamos que durante uma aula observada não houve explicações nem esclarecimento aos alunos sobre as atividades, fazendo com que eles apenas repetissem os comandos do professor. Durante essa aula, não houve um significado para os alunos, o que deixa apenas a condição de recreação e a prática do movimento em si.

Observamos também nas aulas que muitos alunos não estavam participando. Quando não se tem o envolvimento de todos, percebemos que a aula não estava sendo conduzida com a perspectiva inclusiva, pois possibilitava aos alunos o não desejo de estar presente nem de participar. Sem o envolvimento da turma, o objetivo da aula não contemplava todos os alunos.

Diante do exposto, temos como potencialidades reais para o cenário da inclusão a necessidade de construção de uma prática pensada em todos os alunos com deficiências/diferenças, a qual envolva e traga significado nas aulas, em que o professor compreenda a importância e a necessidade do intérprete de Libras em suas aulas. Sem esse profissional não se pode dar seguimento da aula caso o professor não saiba a Língua de Sinais, uma vez que esse aluno será prejudicado durante a aula pela falta da comunicação. O que se deve fazer e buscar sanar o problema ou não dar segmento a aula, pois assim está se respeitando a condição de diferente por não poder acompanhar as explicações. Se a escola não possuir o profissional intérprete, cabe a gestão lutar para que esse serviço seja ofertado, pois ter esse profissional é direito do aluno com surdez garantido pelo Decreto nº 5.626/2005 e pela Lei nº 13.146/2015.

A seguir, apresentaremos os olhares através das falas dos nossos colaboradores, sendo eles exibidos por meio dos eixos de análise frente ao processo de categorização que se deram por temáticas que surgiram durante o processo de transcrição.