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Apresentando as vozes

No documento A territorialidade do corpo negro na USP (páginas 80-82)

CAPÍTULO 2 A individualidade da comunidade negra

2.1 Apresentando as vozes

Como já esclarecido na introdução desse trabalho, todos os entrevistados participaram desta pesquisa de forma voluntária, depositando confiança e tendo vontade de contribuir com a elaboração do entendimento do que é a Universidade de São Paulo do ponto de vista da população negra. São sujeitos que, com diferentes temporalidades, sabem da importância de dar voz para o que compreendem sobre o território da USP Butantã e as suas relações humanas.

Como metodologia e para melhor organização do que aqui pretendemos, o nome de cada um dos personagens será substituído por um nome de origem africana. Cada um dos nomes foi escolhido a partir da personalidade apresentada e entendida pelo pesquisador em cada encontro.No total foram dez enco ntros, em espaços diferentes da universidade.

O primeiro encontro foi com a servidora Sekai, nome que significa “sorriso”. A escolha desse nome se deu pelo fato de que, durante a entrevista, as respostas compartilhadas pela servidora eram marcadas por um sorriso no rosto, um forte sorriso de uma moradora do Rio Pequeno que trouxe para nós importantes revelações sobre como é estar ocupando há 16 anos um dos prédios da FFLCH.

O segundo entrevistado foi o Fela, nome que significa “guerreiro”.O servidor técnico- administrativo que há 31 anos trabalha dentro do campus apresentou na entrevista um relato de suas atividade se da sua persistência contra as adversidades vivenciadas dentro do campus Butantã.

A terceira servidora que contribuiu nas entrevistas foi a Nyota, cujo nome significa “guerreira”. Um exemplo de luta e moradora da zona oeste de São Paulo, a servidora trabalha há 28 anos no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), sendo uma das grandes facilitadoras das práticas científicas da universidade.

Karassi foi a quarta a participar das entrevistas. Seu nome significa vida e sabedoria, escolhido por ser uma representação fiel do que sentimos na fala dessa servidora que trabalhou por 28 anos na creche central da universidade.

O quinto entrevistado foi Lutalo, servidor da Faculdade de Educação. Seu nome significa “guerreiro” e foi escolhido pelo vínculo que o servidor possui com os movimentos sindicais da universidade e pela sua trajetória como morador do Rio Pequeno.

O Yerodin, por sua vez. foi nosso primeiro estudante entrevistado. Ele cursa Química e é morador do CRUSP. Em sua entrevista percebemos o quanto o estudo envolve não somente a relação que possui com a universidade, mas também o que marcou toda sua trajetória de vida.Por isso, escolhemos esse nome para batizá- lo, já que significa “estudioso”.

Nassor foi nosso primeiro professor entrevistado. Ele foi escolhido por ser um professor que ocupa outro espaço de sala de aula dentro da USP: o da Escola de Aplicação. A cada testemunho do professor, ele foi se revelando como um vitorioso, o que nos fez escolher o nome Nassor, que significa “vitorioso”.

Baduc, estudante de História, foi nossa oitava entrevistada. Ela trouxe uma fala forte e poderosa sobre sua presença no território da USP, nos levando a nos questionar a respeito de como uma estudante pôde ter vivenciado tantas história sem cinco anos de USP. Nesse sentido, escolhemos o nome Baduc por significar “poderosa”, palavra que define bem a estudante.

A nona entrevista foi com uma professora negra da FFLCH, a Akilah, nome africano que carrega a ideia de inteligência e razão. A professora, que possui 20 anos como educadora, ocupou antesa função de aluna e, em seguida, a de técnico-administrativo da universidade. Toda essa carga de vivências foi fundamental para que ela expressasse importantes palavras sobre o que é ser uma professora negra na USP.

A décima e última entrevista foi com uma aluna de Arquitetura e Urbanismo chamada Faizah. Com apenas dois anos de USP, ela viveu uma carga de situações que a colocaram como “vitoriosa”, significado do nome escolhido para ela.

Essas dez vidas e dez vozes serão organizadas e justapostas ao longo deste capítulo para que tenhamos uma compreensão da totalidade das relações que criam territorialidades dentro do campus Butantã. Essas relações que envolvem o grupo entrevistado abarcaram situações diárias nos espaços ocupados, revelando trajetórias e funções que os vinculam ao território universitário. Além disso, a leitura dessas narrativas simboliza a quebra de uma normativa acadêmica que desqualifica o conhecimento produzido pelas trajetórias desses sujeitos negros que têm, muitas vezes, suas vozes silenciadas (KILOMBA,2010). É hora, portanto, de escutá- las, permitindo ao leitor elucidar fatos e fardos que caracterizam um(a) trabalhador(a) e um(a) aluno(a) negro(a) da USP e trazendo à tona temas e paradigmas que têm sido analisados para o estudo das relações raciais brasileiras.

A organização de cada umas dessas narrativas será feita em três subcapítulo, nos quais aproximaremos as diversas experiências negras existentes na USP. O primeiro desses subcapítulo tem como objetivo explicar os primeiros contatos que esses sujeitos tiveram com o território do campus Butantã e os caminhos que fizeram para se tornarem servidores(as) e estudantes em uma das maiores universidade do Brasil. O segundo subcapítulo dessa etapa do trabalho busca compreender a consciência que esses sujeitos possuem sobre ser negro(a) dentro da USP, entendendo também que essa consciência transborda as fronteiras universitárias. Fechamos esse momento sobre as vozes desses personagens negros com um subcapítulo que aborda o racismo e a relação dessa ideologia com os indivíduos da universidade, pois, quando lidamos com vidas negras, “não existem histórias pessoais ou reclamações íntimas, mas consequências do racismo” (KILOMBA, 2010, p.48). Assim, cabe ter um olhar sobre o quanto esse construtor social que é o racismo condiciona a territorialidade desses indivíduos pelo campus.

Convocamos aqui não só uma epistemologia que inclua a subjetividade (KILOMBA, 2010), mas também uma espacialidade dessas narrativas para o entendimento das territorialidades que escrevem na geografia da Universidade de São Paulo um território que não é neutro sob a ótica das relações entre os ind ivíduos.

No documento A territorialidade do corpo negro na USP (páginas 80-82)