Capítulo 1: A sociologia do conhecimento como método para a elaboração de
1.4 Aprofundando os aspectos referentes à “disciplina” do olhar científico: temas
O pesquisador interessado em saber como se faz um estudo de sociologia do conhecimento deve buscar no referencial teórico uma indicação a respeito dos possíveis ângulos de abordagem interpretativa do universo institucional. Por sua vez, esse esclarecimento acerca do ângulo de abordagem científica pode ser entendido como o processo de identificação dos “pontos temáticos” que devem ser observados dentro de uma realidade institucional concreta.
Além do diálogo com Bourdieu, o referencial metodológico desta pesquisa foi construído a partir da observação da pesquisa concreta realizada por outros pesquisadores.
A respeito dos temas sugeridos a partir desse trabalho de sistematização amplo, pode-se citar: (1) a vigência intelectual22de uma determinada época num determinado contexto institucional; (2) a questão das diversas gerações de pessoas pesquisadoras dentro do ambiente institucional que realizam uma espécie de luta
21
Ibidem, p. 87.
22
Para o termo de inspiração orteguiana: MACHADO NETO, 1968, p. 33-38. Usado num sentido mais estrito,o termo corresponde à “ciência normal” em: KUHN, 2011, p. 29-66. O termo corresponde também à “Doxa” em BOURDIEU, 2011a, p. 154.
simbólica em torno da construção da “normalidade” científica dentro deste universo; e (3) a questão dos estilos científicos carregados de conteúdos simbólicos.
A identificação da vigência intelectual de uma época é fundamental para os estudos desse tipo. Significa dizer que o pesquisador deve ter consciência do discurso majoritário vigente numa determinada época, num determinado contexto institucional. “[…] os pesquisadores ou as pesquisas dominantes definem o que é, num dado momento do tempo, o conjunto de questões que importam para os pesquisadores, sobre as quais eles vão concentrar seus esforços [...].”23
Apelando-se à linguagem ordinária, diz-se que o pesquisador deve conseguir identificar as tendênciasacadêmicasnum determinado contexto de tempo e espaço. É somente a partir da identificação da vigência intelectual que se pode perceber qual a posição ocupada no campo profissional por determinado pesquisador. Faz parte do grupo majoritário ou minoritário? Era um pesquisador integrado ou marginal?
Assim, por exemplo, era comum ou esperado que se falasse sobre o monismo das explicações sobre o mundo na FDR, no final do século XIX, assim como era (e de algum modo ainda é) esperado que um teórico brasileiro, a partir da década de 1960, falasse sobre o normativismo jurídico24.
A posição do agente no campo se define a partir da sua relação com a normalidade instituída. Independente de qual seja essa posição, há uma espécie de cumplicidade entre “inimigos” teóricos na sustentação do campo simbólico, ele só existe porque o “integrado” e o “marginal” continuam envolvidos numa mesma atividade criadora do universo de possibilidades que caracteriza o campo simbólico.
É tema unânime entre os teóricos da sociologia do conhecimento a percepção da estratificação etária existente nas sociedades e em especial dentro dos grupos institucionais. Em princípio, uma geração é um grupo de pessoas que, estando vivas ao mesmo tempo, têm idades semelhantes. Há, porém, também um critério qualitativo: uma geração, intelectualmente falando, é um grupo de pessoas que estão inseridas em um mesmo clima intelectual.
23
BOURDIEU, 2004b, p. 25.
24
Veja fala marcante que indica a existência de determinada vigência intelectual: “Quase todo rapaz do meu tempo em Pernambuco era agnóstico, darwinista, spencerista, monista [...] Havia, porém, uma minoria que refugava o fenomenismo, o mecanicismo, e afirmava-se espiritualista, teologista.” (AMADO, 1955, p. 61).
Para pertencerem a uma mesma geração, no sentido etário e cultural, duas pessoas devem ter acesso a um conjunto relativamente homogêneo de informação. O posicionar-se “contra” ou “a favor” de determinado fenômeno é sempre um “perceber” o fenômeno.
Ortega chegou a falar, sem pretensão de objetividade absoluta, num período de tempo de 15 anos que separariam as gerações. Afirmou que, para a identificação da vigência intelectual de uma época, deve-se observar a produção concreta das pessoas que estão entre os 30 e os 60 anos25.
Para a realização desta pesquisa, foi elaborada uma tabela geracional com base na data de nascimento de diversos autores referenciados durante a narrativa histórica. Essa tabela foi utilizada como elemento importante na visualização das gerações de pesquisadores institucionais (Anexo I).
Nas instituições de ensino, a questão geracional se mostra fortemente influenciadora dos caminhos concretos das pesquisas. Em geral, os pesquisadores de gerações mais antigas, devido ao maior tempo de institucionalização, dominam as posições mais importantes do campo profissional possuindo contatos e acessos que são difíceis ao pesquisador iniciante.
São esses professores mais antigos os responsáveis pela formatação do conteúdo difundido institucionalmente. No geral, eles apresentam as informações aos professores mais novos ainda no processo de treinamento institucional. Antes, então, da institucionalização profissional dos alunos que passam posteriormente a ocupar a função de professores.
Ainda dentro daqueles que podemos considerar como sendo os elementos tradicionais da constituição dos estudos de sociologia do conhecimento, há a questão referente aos estilos científicos. Nesse caso, o sociólogo se utiliza de uma ferramenta normalmente utilizada pelos estudiosos com preocupações estéticas, como os da arte e da arquitetura26.
25
Ortega escreveu no início do século passado. Questões referentes ao aumento da expectativa de vida e da hiperconectividade digital (com suas repercussões nas comunicações) tornam o esquema ainda mais precário nos dias de hoje. Em todo caso, o esquema serve de referência importante quando se estuda o ambiente institucional existente antes nos três primeiros quartos do século passado. Para o desenvolvimento de Ortega: MACHADO NETO, 1965, p. 103.
26
Veja o que diz Kuhn no prefácio de seu famoso livro: “Para mim foi uma fonte de constante estímulo e encorajamento o fato de Cavell, um filósofo preocupado principalmente com a ética e a
Não se trata de falar sobre a estética como um fim em si mesmo ou como análise de um deleite a partir do belo. O objetivo é partir dos elementos estéticos para identificar um determinado contexto cultural concreto. Assim como a arquitetura clássica remete a um determinado modo de viver grego e romano, a estética dos estudos científicos normalmente revela a sua linha de diálogo fundamental. Nesse sentido, observa-se que o marxismo, o estruturalismo, o pragmatismo e toda a espécie de “ismos” podem ser inicialmente percebidos esteticamente.
Em todo caso, é fundamental perceber que a sugestão de temas para o direcionamento do olhar pesquisador sobre o ambiente institucional não resulta num esquema rígido de distribuição de pontos temáticos no corpo do trabalho científico textualmente materializado, mas no acúmulo de dados que servem para a interpretação. Depois desse processo, é que surge o texto final, sem rupturas aparentes.
estética, ter chegado a conclusões tão absolutamente congruentes com a minha.” (KUHN, 2011, p. 17). Também reconhecendo que os estudos estéticos abriram “[…] a ciência para os tipos de exames que os humanistas haviam tradicionalmente usado ao examinar as artes e a cultura”, (DUSEK, 2009, p. 29). Para um esboço de análise estética da obra de Nelson Saldanha: CASTRO JR., 2008, p. 165- 170.
CAPÍTULO 2: FORMAÇÃO PROFISSIONAL E TRABALHO CIENTÍFICO DO