1.2 A AGRICULTURA DE ABASTECIMENTO NO BRASIL COLONIAL
1.2.1 Apropriação fundiária, propriedade e posse da terra
A economia agrária caracterizava-se pelo regime de grandes propriedades, latifúndios agroexportadores e latifúndios pecuaristas, pela agricultura de alimentos, pelo trabalho escravo, e por um sistema político resultante do predomínio do poder privado, que, em nível de município, expressava-se na figura do patriarca local (LINHARES; SILVA, 1981). Segundo os autores, outros elementos também podem ser incluídos na caracterização desse sistema socioeconômico:
A concentração dos núcleos urbanos ao longo da costa, a função portuária das principais cidades, a extrema precariedade do comércio interno, a extrema escassez da moeda, a lentidão das comunicações internas, não apenas em virtude das distâncias e dos maus caminhos, como também dos transportes, a estreiteza das atividades artesanais e a quase inexistência de atividades manufatureiras [...] e, ainda, uma estrutura de consumo que refletia a hierarquia entre ricos e pobres, senhores e escravos do mundo rural. (LINHARES; SILVA, 1981, p. 108-109).
No Brasil colonial, o sistema de propriedade da terra decorreu da extensão da lei medieval portuguesa das sesmarias, adotada no reinado de Fernando I (1367-1383), que regulava a concessão de terras incultas a colonos para que as cultivassem. As sesmarias eram concedidas a título precário e sob três condições, “1) medir e delimitar a terra recebida; 2) receber confirmação real da concessão; 3) cultivá-la efetivamente.” (CARDOSO, 1982, p. 117-118).
Segundo Silva (2008, 2015), o sistema sesmarial, na sua concepção, teve uma preocupação acentuada com a utilização produtiva da terra, expressa na cláusula de condicionalidade da doação, atrelada ao cultivo da terra. Essa cláusula dispunha que o sesmeiro tinha cinco anos para torná-la produtiva; findado esse prazo, caso a exigência não fosse cumprida, o título seria cancelado, e a sesmaria retornaria à coroa portuguesa. Este é o sentido original do termo terra devoluta - terras concedidas e não aproveitadas que retornavam ao doador (SILVA, 2015).
No entanto, as condições para a doação de terras raramente eram respeitadas, dando ensejo a desordens, como a concessão de novas sesmarias em espaços já concedidos a outros sesmeiros, a elevada concentração fundiária em torno de poucas famílias e o uso especulativo das terras (SANTOS, 2010).
Consoante com Santos (2010), a Corte portuguesa preocupada como os problemas fundiários apontadas no relatório do desembargador Sebastião Cardoso de Sampaio, de 1675, dentre eles, o exagero e a distinção com que as terras no sertão da Bahia eram repartidas; a utilização de limites imprecisos e muito extensos para a demarcação das sesmarias, em detrimento da utilização de medidas oficiais; a solicitação de terras com a alegação de formar pastos descumpria a ordenação régia de que as pastagens eram de uso comunal e não podiam ser apropriadas por particular; as terras desocupadas dos grandes concessionários impediam o avanço de povoadores que, “ainda que tivessem cabedais, fábrica e indústria para a lavoura, não se animariam a buscar terras além desses espaços intactos e bravios” (SANTOS, 2010, p. 198).
Decidiu que os títulos de concessão de sesmarias, manifestamente injustas, seriam anulados, e que os critérios de distribuição das novas concessões deveriam priorizar as pessoas que primeiro dedicaram-se a fazer incursões pelo sertão, abrindo caminhos, combatendo o gentio bravo, contrapondo as suas invasões e ataques e, enfim, contribuindo para a sua pacificação (SANTOS, 2010).
Além das terras sob o domínio dos sesmeiros, grandes extensões eram apropriadas para explorações futuras, essa ocupação extraordinária pautava-se no caráter predatório da agricultura que, rapidamente, esgotava o solo. A incapacidade da metrópole de exercer um controle estrito sobre a colônia tornou possível à manutenção dessa prática. A posse, aos poucos, tornou-se a forma principal de apropriação territorial. De acordo com SILVA (2008, p. 74-75),
a aquisição de terras devolutas por meio da posse com cultura efetiva se tornou verdadeiramente um costume jurídico. O tamanho das sesmarias continuou a ser desmesurado e o das posses também. [...] A situação, entretanto, apresentava uma alteração de apreciável importância. Cada vez mais se reconhecia, na prática, a existência de moradores, posseiros nas terras e, em vez de expulsá-los, as autoridades procuravam estimulá-los a legalizar sua situação. [...] A posse com cultura efetiva, como modo de aquisição de domínio, estabeleceu-se aos poucos como costume, para afirmar-se mais tarde como um direito consuetudinário.
Segundo Optiz (2017, p.47), a ocupação ou posse tornou-se costume entre nossos colonos. “Apoderar-se de terras devolutas e cultivá-las tornou-se coisa corrente entre os nossos colonizadores, e tais proporções essa prática atingiu que pôde, com o correr dos anos, vir a ser considerada como meio legítimo de aquisição do domínio”.
Conforme Linhares e Silva (1981), se o regime de doação de terras estabelecido pela metrópole não propiciava a formação de um estruturado campesinato em terras colônias, por outro lado, também não impedia o apossamento de terras virgens. Segundo os autores, “nada, porém, impedia que homens livres pobres ou negros fugidos fossem, aos poucos, se internando nos sertões e estabelecendo suas roças ao longo de rios ou caminhos, constituindo- se numa retaguarda da ocupação branca do litoral” (LINHARES; SILVA, 1981).
De acordo com Neves (2003, p. 128), “a legislação agrária portuguesa vigorou no Brasil até o Decreto n. 1.318, de 30 de janeiro de 1854, que regulamentou a Lei n. 601, de 18 de setembro de 1850, a Lei das Terras”.
Consoante com Gorender (2012), através da resolução de 17 de julho de 1822, foram suspensas todas as concessões de sesmarias. De 1822 a 1850, a posse foi a única forma de acesso ao assenhoreamento legítimo das terras públicas. Acesso este aberto a grandes e
pequenos produtores. Deste modo, cresceu muito rapidamente o número destes últimos, mas também surgiram as posses de dilatadas dimensões. “A Lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, obstruiu a via da posse, proibindo as aquisições de terras públicas por outro título que não o da compra.” (GORENDER, 2012, p. 209).
Segundo Silva (2015), a Lei de Terras amparava o processo de transição do trabalho escravo para o trabalho livre, aberto com a cessação do tráfico, e dava ao Estado imperial o controle sobre as terras públicas. Segundo a autora,
No centro da política imperial estava a questão da demarcação das terras devolutas. A demarcação era o passo inicial para a utilização dessas terras num projeto de colonização que deveria financiar a vinda de trabalhadores imigrantes para as fazendas e remediar uma eventual falta de braços com o fim do tráfico. Demarcar e vender as terras devolutas e financiar a imigração de trabalhadores era, em síntese, a proposta programada pela lei de 1850. Para que o esquema funcionasse era necessário o fim do apossamento. Por isso o item primeiro da lei de 1850 proibia a posse (SILVA, 2015, p. 6).
Apesar da intenção dos legisladores do Império, a lei de 1850, e as leis auxiliares não foram suficientes para a efetivação da Lei das Terras. O grande entrave deste sistema decorria da necessidade de demarcar as terras devolutas e as terras particulares. Os posseiros, em sua grande maioria, recusaram-se a demarcar suas terras e a legalizar os seus títulos, impedindo, deste modo, a formação de um cadastro de terras, estrutura fundamental para a implementação do projeto imperial de colonização (SILVA, 2008, 2015).