3. RECORTE, COLAGEM E SENTIDO
3.2 OPERANDO A INTERTEXTUALIDADE
3.2.4 Apropriações com alteração e alusão
Outra maneira de operar a intertextualidade na obra de Vila-Matas é quando se dão apropriações com alterações de textos alheios. Em História abreviada da literatura portátil, Jacques Rigaut apaixona-se por Georgia O‘keefe num povoado africano.
255 ―Até mesmo as palavras nos abandonam, não é preciso dizer mais nada‖. In: BECKETT, Samuel.
Novelas. Tradução Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 79.
256 VILA-MATAS. O mal de Montano. p. 227. ―[…] hago teoría y les digo que comparto con el monsieur
la idea de que el mundo ya no puede ser recreado como en las novelas de antes, es decir, desde la perspectiva única del escritor. El monsieur y yo creemos que el mundo se halla desintegrado, y sólo si uno se atreve a mostrarlo en su disolución es posible ofrecer de él alguna imagen verosímil.‖ In: VILA-MATAS. El mal de Montano. p. 222.
257 CANETTI, Elias. O primeiro livro. In: _____. Auto-de-fé. Tradução de Herbert Caro. São Paulo:
Cosac Naify, 2004. p. 625.
258 VILA-MATAS. O mal de Montano. p. 93. ―Todo el mundo hablaba de Freud cuando yo era joven.
Pero yo nunca lo leí. Shakespeare tampoco lo leyó. Y no creo que Melville lo hiciera. Moby Dick todavía menos.‖ In: VILA-MATAS. El mal de Montano. p. 93.
Poucos meses depois, decide ir à Nova York para encontrá-la. Em sua travessia, encontra-se com o famoso fotógrafo Man Ray, que anos mais tarde iria contar o episódio num livro intitulado Travels with Rita Malú – o livro é apócrifo, assim como Rita Malú não passa de um personagem. Vila-Matas faz então com que o trecho com o qual Rigaut fecha o seu Romance de um rapaz pobre se torne um anúncio de jornal logo que o francês desembarca na cidade: ―Rapaz pobre, medíocre, 21 anos, mãos limpas, contrairia matrimônio com mulher, 24 cilindros, saudável, erotomaníaca ou falando anamita. Escr. a Jacques Rigaut, bulevar Montparnasse, n° 73, Paris-6‖260. Além disso, Vila-Matas altera a citação acrescentando: ―[...] capaz de falar anamês, se possível chamada O‘Keefe. Dirigir-se a Jacques Rigaut, 73 Boulevard du Montparnasse, Paris. Sem domicílio fixo em Nova York.‖261.
Outros dois fragmentos de Rigaut são postos em um contexto diferente, tornando-se fragmentos de cartas de jovens suicidas endereçadas aos juízes de Nova York: ―Amanhã, o fim./ O fim, amanhã./ Para amanhã o fim./ O fim, para amanhã./ Amanhã, enfim.‖262
e ―Senhor juiz, tenho o prazer de lhe comunicar que escolhi para me suicidar o dia em que, devido à morte de meu tio, herdo uma grande fortuna‖263
. Por fim, Vila-Matas ainda faz com que uma carta assinada por Rigaut apareça no final de dezembro de 1924 nas páginas do New York Times com o intuito de frear uma onda de suicídios da cidade, uma espécie de apelo à juventude na tentativa de fazê-la desistir do suicídio. Nada mais irônico que um suicida como Rigaut empenhado em escrever cartas para dissuadir uma juventude suicida. A carta é em grande medida baseada no trecho final do texto Todos os espelhos exibem o meu nome, do autor francês:
260 RIGAUT, Jacques. Romance de um rapaz pobre. In: CRAVAN, Arthur; RIGAUT, Jacques; VACHÉ,
Jacques. 3 histórias 3. Lisboa: Antígona, 1980. p. 94.
261 VILA-MATAS. História abreviada da literatura portátil. Tradução: Júlio Pimentel Pinto. São Paulo:
Cosac Naify, 2011. p. 35-36. ―[…] hablando el anamita, a ser posible apellidada O‘Keefe. Dirigirse a Jacques Rigaut, 73 boulevard du Montparnasse, París. Sin domicilio fijo en Nueva York.‖ In: VILA- MATAS, Enrique. Historia abreviada de la literatura portátil. Barcelona: Anagrama, 2009. p. 30.
262 VILA-MATAS. História abreviada da literatura portátil. p. 38. ―Mañana, el fin. / El fin, mañana. /
Para mañana el fin. / El fin, para mañana. / Mañana, al fin.‖ In: VILA-MATAS. Historia abreviada de la literatura portátil. p. 32.
263 VILA-MATAS. História abreviada da literatura portátil. p. 39. ―Señor juez, tengo el gusto de
comunicarle que he elegido para suicidarme el día en que, a causa de la muerte de mi tío, heredo una gran fortuna.‖ In: VILA-MATAS. Historia abreviada de la literatura portátil. p. 33. Na edição consultada, os fragmentos de Rigaut assim se apresentam: ―Amanhã, o fim./ O fim, amanhã,/ Para amanhã, o fim./ O fim, até à manhã/ Amanhã, por fim.‖ e ―Escolheu para se matar o dia em que, por óbito de uma tia, herdava vários milhões‖. In: RIGAUT, Jacques. Todos os espelhos exibem o meu nome. In: CRAVAN; RIGAUT; VACHÉ. 3 histórias 3. p. 103 e 105, respectivamente.
Não há razões para viver, mas para morrer também não. A única maneira de que nos resta de testemunhar o nosso desdém pela vida é aceitá-la. A vida não merece a trabalheira de a abandonarmos.
O suicídio é bastante cômodo: é coisa que não me sai da cabeça. É demasiado cômodo: não me matei. Mas subsiste um pesar: não desejaríamos partir sem nos termos comprometidos. Gostaríamos de, ao sair, levar conosco Nossa Senhora, o amor ou a República.264
Entre outras modificações menores, Vila-Matas altera o final do texto: ―Resta um pesar, o de não partir sem antes ter certeza de que levo comigo a estátua da Liberdade, o amor ou os Estados Unidos‖265
. Ao ler História abreviada da literatura portátil, o leitor que souber algo sobre Rigaut, certamente lembrará que o autor viveu nos Estados Unidos quando, em 1924, conheceu Gladys Barber, estadunidense riquíssima que estava se divorciando. Rigaut a acompanhou à Nova York, onde se casaram em 1926. Assim, o leitor percebe algumas incoerências entre a história real e o enredo do livro. Neste, Rigaut vai procurar Georgia O‘keefe. Além disso, o deslocamento efetuado pelo autor faz com que trechos mais incisivos e negativos quanto à morte recuperem o humor de outros textos de Rigaut como Agência Geral do Suicídio, do qual Vila-Matas também utiliza um trecho266.