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Apropriar ou apropriado? Afinal, o direito resolve? Envolve? Distorce ou o quê?

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II. TEMPO DE SEMEAR

2.1. Apropriar ou apropriado? Afinal, o direito resolve? Envolve? Distorce ou o quê?

O campo jurídico torna-se, portanto, revelador das estruturas de poder e ao longo do processo de formação social moderno sedimentou sua raiz na noção de universalidade, neutralidade e racionalidade. Em conjunto com essa dimensão temos a noção de autoridade como fundante no estabelecimento de quem deve ser a fala competente26 na produção de sentido para o direito.

No que se refere à questão da propriedade, as modificações no campo normativo e a sedimentação de uma mentalidade calcada na norma27 foram fundamentais para o processo de transformação da mentalidade permitindo assim a naturalização da ideia de propriedade privada como o único modelo fundador.

26 “O discurso competente é o discurso instituído. É aquele no qual a linguagem sofre uma restrição

que poderia ser assim resumida: não é qualquer um que pode dizer a qualquer outro qualquer coisa em qualquer lugar e em qualquer circunstância. O discurso competente confunde-se, pois, com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é, com um discurso no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o direito de falar e ouvir, no qual os lugares e as circunstâncias já foram predeterminados para que seja permitido falar e ouvir e, enfim, no qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones da esfera de sua própria competência” (CHAUI, 1980: 7).

27 Ainda que, como nos lembre Raimundo Faoro (1989) ao analisar a formação do Estado Português, o apelo

à estrita legalidade se fez, no cotidiano, pelas elites, uma matéria flexível, mais vocacionada ao controle social dos subalternos: “O racionalismo formal do direito, com os monumentos das codificações servirá, de outro lado, para disciplinara ação política, encaminhada ao constante rumo da ordem social, sob o comando e o magistério da coroa. (...) Sobre este manto de muitas cores e de muitos retalhos, o direito romano já se impõe como o modelo do pensamento e do ideal de justiça – uma ideologia ainda em formação, germinando obscuramente. Não subsistiria se não a fecundasse o adubo dos interesses, que se aproveitam da armadura espiritual, conservando-a por fora, dilacerando-a na intimidade” (FAORO, 1989: 11).

Assim, a propriedade burguesa (objeto de aquisição pela compra e venda, uma mercadoria) sedimenta-se a tal ponto que compreendida que é como um modelo “natural”, presente em qualquer sociedade e, portanto, também atemporal, impõe como contrapartida um caráter absoluto a sua conceitualização, eliminando com isso qualquer outra perspectiva jurídica que não se calcasse na noção de proprietário individual, privado. Essa marca ideológica sobre a noção de propriedade se reflete plena nas entrevistas dos operadores quando se deparam com conflitos onde, de um lado tem-se proprietário e, do outro, não proprietários.

Não sem razão, Paolo Grossi (2006) ao analisar a história da propriedade alerta para o fato de que “talvez nenhum discurso jurídico seja talvez tão permeado de bem

e de mal, tão temperado por visões maniqueístas quanto o que versa sobre a relação homem-bens. Porque são tão grandes os interesses em jogo que inevitavelmente as escolhas econômico-jurídicas são defendidas pelas couraças não deterioráveis das conotações éticas e religiosas” (2006: 10).

Nas entrevistas com os operadores há um permanente olhar rebaixador para os integrantes do MST, entendidos como aqueles que não são qualificados para o uso da terra, cuja busca pelo acesso à terra perde significado diante da sua incapacidade para esse exercício.

“O que que cumpre mais a função social...? Botar um parasita numa terra, que ele não vai fazer nada e que vai deixar crescer capim e que quer continuar mamando nos benefícios do Governo, né...? Ou deixar a terra em vários lotes aglomerados, de um dono só que a torna produtiva e que emprega pessoas...? Então isso são problemas, são problemas de modelos. Eu acho, sinceramente, se nós fizermos uma ... usar um modelo mais socialista, nós tínhamos que mudar completamente o nosso modelo de sistema jurídico.” (Entrevistado 3)

Se o olhar sobre os sem terra é negativo, por outro lado, a dimensão do proprietário rural acaba por ser valorizada como aquele vocacionado para a lida na terra, cujo habitus28 garantiram o sucesso na produção. Assim de um lado temos o fracasso e do

28 De acordo com Pierre Bourdieu “os habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas - o

outro o sucesso, de um lado temos um agrupamento sem capacidade de usar a terra e do outro aqueles que pela experiência adquirida sobre a própria titulação da terra são exemplos a serem seguidos:

“E outra coisa, ele também sabe que aquela relação, claro estou traçando um estereótipo aqui de ruralista, que só no estereótipo que a gente consegue, né, explanar melhor, claro que a relação dele com seus empregados, por exemplo, hoje em dia ela é, ela é mais próxima, e com certeza, as informações, tudo que altera a visão dos ruralistas sobre o porque ele tem aquela terra, sob o modo como ele vai produzir, sobre a própria reforma agrária, com certeza, isso torna, tem tornado os ruralistas mais conscientes, como tem tornado os industriais mais conscientes, como tem tornado os grandes empregadores muito mais conscientes da sua função social, só pelo simples fato dele ter muito, dele ter que produzir, isso sem duvida nenhuma...” (Entrevistado 1)

Tal perspectiva se assenta numa histórica valorização da propriedade e, por conseguinte, do próprio proprietário. Regina Bruno (2007) ao traçar o ethos da propriedade no Brasil alerta para o fato de que acompanha a concentração de terras uma desigual e também concentrada relação de poder produto da

Nossa formação brasileira, calcada na grande propriedade fundiária e na escravidão, e inserida em uma configuração cujo traço consistiu em um modo de colonização predador e concentrador, muito contribuiu para o florescimento de um habitus nacional em que a propriedade da terra assume inúmeros significados realimentadores e complementares: desponta como sinônimo de prestígio e como expressão de poder; funciona como porta de acesso a mais e mais privilégios, é símbolo de reconhecimento e de hombridade, além, é claro, de meio de produção e de especulação. E, quanto mais concentrada e monopolizada, maior o poder (BRUNO, 2007: 63).

Entender, pois, como se constrói o discurso do operador atual sobre os conflitos coletivos pela efetivação da reforma agrária, coloca o discurso jurídico como uma ferramenta que possibilita o desvelar dessa relação. Para Bruno (2007) a sedimentação de um direito absoluto estabelecido à propriedade foi fundamental para a constituição no plano social de um ethos do proprietário também caracterizado com um poder absoluto.

Esse direito abstrato, calcado na noção de universalidade, tornou-se fundamental para que no presente as estruturas jurídicas permaneçam inquestionáveis pelo operador29. Trata-se de um processo capilar de absorção de algumas matrizes do campo jurídico, cujo conteúdo de validade não é questionado por ser uma expressão sedimentada da própria mentalidade social:

Tomemos como exemplo o regime medieval das propriedades, que domina (ao menos no nível jurídico) até o século XIX: pois bem, nós estamos convencidos de que seja, sem duvida, uma demanda das estruturas, mas que tenha adquirido força, sugestão, capacidade incisiva exatamente porque expressão fiel de uma mentalidade, porque radicado na ossatura dos operadores e não escrito superficialmente em sua pele. Isto somente explica persistências vigorosas até bem alem do terreno das forças econômicas e sociais que também haviam concorrido a plasmá-lo (GROSSI, 2006: 23) O historiador Edward Palmer Thompson (1998) busca compreender exatamente esse processo capilar de sedimentação de novos marcos normativos. A paradoxal relação entre costume imemorial e a produção do texto da lei com relação à propriedade foi marcada por mecanismos de controle por meio do direito penal, com punições voltadas à prática do habitus camponês ainda construído nos marcos de um direito comunal à terra, mas também por um processo de aceitação, ou melhor, tolerância, dessa prática comunal, mesmo porque, como nos alerta o historiador, “era possível reconhecer os

direitos costumeiros dos pobres e, ao mesmo tempo, criar obstáculos a seu exercício”

(1998: 89).

De fato, a percepção de Thompson torna-se importante na medida em que retira da perspectiva do campo jurídico a tendência que se assenta numa visão não conflitiva do direito30, um imaginário que se estabelece numa trajetória quase linear do direito europeu, como se a história presente fosse o baluarte de um progresso paulatino do

29 “Não é à toa que os atores jurídicos dizem que somente querem cumprir a lei, numa subserviência alienada

e apaixonada que lhes concederia um lugar ao lado do Outro. Na realidade, não é amor, mas identificação com o poder do líder que tudo pode, pois o mundo está dividido entre ele e os castrados e ao se identificar com ele surge a ilusão de não ser castrado (ser faltoso), numa relação dialética de amo-escravo” (ROSA, 2004: 28).

campo jurídico. Para tal, o papel a ser desempenhado pelo corpo jurídico foi importantíssimo.

O historiador em sua obra Senhores e Caçadores (1997) nos demonstra que em nome da defesa da propriedade privada, uma série de medidas normativas foram criadas gestando um verdadeiro código penal de exceção como o caso da conhecida Lei Negra que tipificava cerca de 200 crimes, na sua maioria apenados com a pena capital. O que Thompson alerta é para o papel desempenhado pelo magistrado na garantia de uma interpretação rígida fazendo com que o terror da aplicabilidade normativa produzisse um

ethos social de respeitabilidade à propriedade privada31.

Assim, há uma subjacente concepção de ordem jurídica calcada na noção de segurança e estabilidade que não pode ser questionada seja pelo operador, seja pela própria sociedade. Essa força da lei de que nos fala Derrida é que se volta com peso no processo de criminalização do MST na medida em que esta organização questiona os primados da norma.

Questionar a lei é questionar a própria autoridade do Estado, daí a possibilidade aberta pelo campo normativo de enquadrar as ações do MST na Lei de Segurança Nacional. É essa matriz que é colocada em questão no ato de desobediência do MST, pois rompe com a (lei)tura de um campo jurídico neutro, representação dos interesses gerais da sociedade, pensamento tão caro a formação dos juristas. Como nos lembra Warat:

A existência de mecanismos ilusórios que põem em funcionamento o sistema dominante das representações jurídicas sobre o Estado: encarnação do interesse geral, protetor desinteressado dos desejos coletivos e a personalidade moral da nação, forma racionalizada do exercício de coerção, que permite aos homens não obedecer aos homens senão aos valores sociais (expressos em normas jurídicas). Uma estrutura de instituições sem história (reduzidos em última instância a uma visão do Estado como ordenamento jurídico), que serve para construir a imagem de uma sociedade homogênea,

31 É preciso dizer que o próprio historiador reconhece a margem de “ilegalidades” que se mantiveram em que

pese a busca por uma unificação comportamental. De fato, o que importa na perspectiva de Thompson e ele resgata esse cenário a partir dos marcos normativos e de textos jurídicos é a percepção que o estatuto penal assume na busca da homogeneização comportamental. Não se trata aqui de adotar as teses das correntes do campo penal que apostam na possibilidade de ma prevenção a partir de uma ampliação do estatuto penal, tese esta, diga-se questionada pela criminologia critica. Mas tal percepção não invalida o contributo histórico do direito penal como regulador social privilegiado tanto no passado, como no presente.

harmoniosa, uma sociedade na qual o conflito adquire sempre o sentido de uma transgressão legal. (WARAT, 2002: 59).

O que importa por agora é perceber como a propriedade privada e os seus marcos normativos foram se constituindo como um dado natural para as sociedades ocidentais. John Locke (1994) será fundamental para a sedimentação da noção da propriedade como um direito natural. No entanto, Locke irá conjugar a noção de propriedade ao trabalho. De fato, há subjacente uma definição de propriedade que se manifesta a todos, mas é pelo trabalho individual, que transforma a coisa, que a propriedade se individualiza e, portanto, se privatiza.

Ainda que a terra e todas as criaturas inferiores pertençam em comum a todos os homens, cada um guarda a propriedade de sua própria pessoa; sobre esta ninguém tem qualquer direito, exceto ela. Podemos dizer que o trabalho de seu corpo e a obra produzida por suas mãos são propriedade sua. Sempre que ele tira um objeto do estado em que a natureza o colocou e deixou, mistura nisso o seu trabalho e a isso acrescenta algo que lhe pertence, por isso o tornando sua propriedade. Ao remover este objeto do estado comum em que a natureza o colocou, através do seu trabalho adiciona-lhe algo que excluiu o direito comum dos outros homens. Sendo este trabalho uma propriedade inquestionável do trabalhador, nenhum homem, exceto ele, pode ter o direito ao que o trabalho lhe acrescentou, pelo menos quando o que resta é suficiente aos outros, em quantidade e em qualidade. (LOCKE, 2001: 98)

É, portanto, o trabalho, a ação humana, que permite legitimar a possessão, a apropriação, ainda que haja limites na demarcação da propriedade por Locke, como observa Thompson, “Não é claro que Locke tenha superado todas as dificuldades –

por que a turfa deve ser dele, e não do seu criado ou, ainda, do seu cavalo? As decisões legais do século XVIII introduziram argumentos baseados no ‘trabalho’ em termos das razões gerais do ‘desenvolvimento’”. (THOMPSON, 1998: 131).

Se o trabalho serviu de sustentação da propriedade, não se está a falar de qualquer trabalho. Marx já apontava para a relação entre a divisão social do trabalho e a correspondência com determinada relação de propriedade. Em sua obra Manuscritos Econômicos - Filosóficos (s/d) analisa o processo de alienação do TRABALHO – TRABALHADOR – PROPRIEDADE, que permite o afastamento do trabalhador com o

Esse fato simplesmente subentende que o objeto produzido pelo trabalho, o seu produto, agora se lhe opõe como um ser estranho, como uma força independente do produtor. O produto do trabalho humano é trabalho incorporado em um objeto e convertido em coisa física; esse produto é uma objetificação do trabalho. A execução do trabalho é simultaneamente sua objetificação. A execução do trabalho aparece na esfera da Economia Política como uma perversão do trabalhador, a objetificação como uma perda e uma servidão ante o objeto, e a apropriação como alienação. A execução do trabalho aparece tanto como uma perversão que o trabalhador se perverte até o ponto de passar fome. A objetificação aparece tanto como uma perda do objeto que o trabalhador é despojado das coisas mais essenciais não só da vida, mas também do trabalho. O próprio trabalho transforma-se em um objeto que ele só pode adquirir com tremendo esforço e com interrupções imprevisíveis. A apropriação do objeto aparece como alienação a tal ponto que quanto mais objetos o trabalhador produz tanto menos pode possuir e tanto mais fica dominado pelo seu produto, o capital. (MARX, s/d)

Incapaz de se reconhecer no trabalho que produz, e mais, incapaz de estabelecer vínculos de posse sobre o fruto do seu trabalho, essa alienação transfere-se para o campo jurídico gestando uma segurança jurídica na efetivação de uma relação abstrata que é o próprio direito de propriedade.

Se for o trabalho que vincula a relação entre pessoa e coisa, esse trabalho não é diretamente exercido pelo proprietário. A fórmula jurídica encontrada para se preservar o domínio foi o estabelecimento do conceito jurídico da posse. Em certo sentido, é da posse que Locke está se referindo para a garantia da propriedade privada. É o processo de apossamento, do uso, que permite um determinado indivíduo tomar como seu aquilo que se referenciava como de todos:

Poderia ser chamado de roubo a apropriação de algo que pertencia a todos em comum? Se tal consentimento fosse necessário, o homem teria morrido de fome, apesar da abundância que Deus lhe proporcionou. Sobre as terras comuns que assim permanecem por convenção, vemos que o fato gerador do direito de propriedade, sem o qual essas terras não servem para nada, é o ato de tomar uma parte qualquer dos bens e retirá-la do estado em que a natureza a deixou. E este ato de tomar esta ou aquela parte não depende do consentimento expresso de todos. Assim, a grama que meu cavalo

pastou, a relva que meu criado cortou, e o ouro que eu extraí em qualquer lugar onde eu tinha direito a eles em comum com outros, tornaram-se minha propriedade sem a cessão ou o consentimento de ninguém. O trabalho de removê-los daquele estado comum em que estavam fixou meu direito de propriedade sobre eles. (LOCKE, 2001: 99).

Se tomarmos as falas dos entrevistados veremos que essa alienação com relação ao trabalho se manifesta pelo não reconhecimento de que os integrantes do MST o façam, em contrapartida, veem no grande proprietário rural a qualificação do trabalho

... o Movimento só escolhe empresas rurais de alta produtividade, eles não escolhem terras improdutivas... até porque eles não querem, então isso é difícil se coadunar num momento que eu tenho assim ... o que que cumpre mais a função social? Botar um parasita numa terra, que ele não vai fazer nada e que vai deixar crescer capim e que continuar mamando nos benefícios do Governo, né...? (Entrevistado 3)

gente observou na verdade, foi um desvio de foco do Movimento, né. Muito. Um inchaço no Movimento de pessoas que eu acho que nada tinha a ver com agricultura, que não eram agricultores, mas sim pessoas que aproveitaram esse Movimento pra ingressar ali, às vezes até por estarem em situações difíceis na cidade, né. (Entrevistado 5)

Esse apossar originário não tem sua violência questionada. Nem no passado, nem no presente. A sua força estruturante está per si legitimada e permanece com esse status no presente. Nos conflitos contemporâneos pelo acesso à terra, um dos questionamentos realizado pelas organizações que lutam pelo acesso democrático à terra é a própria cadeia dominial. O resgate dessa cadeia permite compreender como determinado proprietário obteve tal titulação.

De um modo geral, o operador do direito se isenta de colocar em questão esse processo de obtenção. No entanto, um dos entrevistados o faz

agora eu acho que há esse problema no Brasil, a gente não tem, tem visto muito pouco algumas decisões que busquem o equilíbrio, aqui

é claro que a maneira pela qual os grandes proprietários adquiriram suas terras, precisa ser discutida também, eu acho que isso é uma questão que também faltou no Brasil (Entrevistado 2)

Assim, o questionamento realizado pelo entrevistado marca-se por uma relação retórica, isto porque objetiva, de forma diversa do que verbalizado na fala, não apontar para um questionamento da própria titulação de propriedade, mas sim valer-se dessa estruturação discursiva para colocar em questionamento a própria validade da luta em defesa da reforma agrária.

(...) eu acho que isso é uma questão que também faltou no Brasil, mas eu também acho que precisa ser discutido se o modelo agrícola que se pretende implantar é um modelo agrícola ainda viável hoje. Eu não sei em que medida os assentamentos do MST tem tido êxito, numa conjuntura agrícola como a nossa, e eu acho que há algumas contingências econômicas as quais ele não consegue mais escapar, como por exemplo, o modelo do agronegócio, querer brigar contra isso, não adianta querer brigar contra isso, não é minha especialidade, mas querer brigar contra isso, é, é, existem algumas pautas hoje em dia que infelizmente isso é uma contingência de uma sociedade como a nossa, existem algumas pautas que ainda que não as tenha como as melhores, elas já foram, elas já tiveram seus vitoriosos, e não há como retroceder nisso (Entrevistado 2)

Mais adiante analisaremos essa perspectiva que coloca em questão a própria proposta de reforma agrária, para o momento o que importa está em compreender esse ethos que se gesta a partir da ideia de propriedade privada. É sob esse paradigma que se funda o estatuto jurídico como uma expressão “naturalizada” dessa mentalidade32 (GROSSI, 2006).

Por isso mesmo, a redução da propriedade a uma questão de técnica jurídica (vide as ações possessórias) é um processo de alienação daquilo que Grossi chama de mentalidade da propriedade, pois se esse conceito é constitutivo da própria formação

32

Grossi parte da hipótese de existências de várias formações conceituais de propriedade e define como

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