CAPÍTULO III – O PEC-G NA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA
3.5 Aproveitamento do programa
Outro ponto relevante quanto aos números do programa é a questão do baixo
aproveitamento das vagas do programa. Os números mostram que apesar de o número de
vagas ofertadas pelo PEC-G por ano girar em torno das 2.300 vagas o número de
candidaturas é de apenas cerca de 1.000 estudantes e quando analisamos o aproveitamento
real, ou seja, o número de estudantes aprovados por ano para participar do programa a
média é de pouco mais de 600 estudantes (AMARAL, 2013).
As explicações para números tão baixos, segundo Amaral (2013) encontram-se
nos mais diversos fatores. Para a autora a divulgação do programa feita pelas
representações diplomáticas brasileiras no exterior não é suficiente e não atinge todos os
potenciais participantes do programa. A melhoria ao longo dos anos dos sistemas
educacionais dos países de origem dos estudantes também afeta a participação no
programa, no sentido em que uma vez que existe o acesso a educação de qualidade em sua
terra natal os estudantes dificilmente sairão do país para estudar. E por fim, a alta relativa
da moeda brasileira e o consequente aumento do custo de vida no Brasil torna a vinda
ainda mais difícil levando em consideração que os estudantes possuem poder aquisitivos
distintos e que em muitas cidades brasileiras o custo de vida supera em muito os 400
dólares exigidos no termo de responsabilidade financeira (AMARAL, 2013).
Enquanto instrumento da política externa brasileira, é possível observar que o
PEC-G se adequa aos objetivos da política externa
22ao longo dos anos. Em seus anos
iniciais, quando a política externa brasileira era regida pelo alinhamento aos Estados
Unidos e o foco das relações brasileiras era o ocidente, o programa era restrito aos países
da América Latina e Portugal (BRASIL, 2012a).
21 Uma sistematização desta planilha pode ser observada no apêndice desse trabalho. 22
O objetivo que norteou a política externa brasileira, segundo Pinheiro (2000), pelo menos entre 1930 e 1990 foi o desenvolvimento e a industrialização e o que explica as mudanças de paradigmas ocorridas foram "as visões sobre o melhor meio de alcançá-lo" (PINHEIRO, 2000, p.311). Além disso a aposta da autora é que a política externa deve continuar a ser pautada em princípios realistas da busca pela autonomia (PINHEIRO, 2000).
Com a mudança do paradigma hegemônico da política externa em 1974 para uma
visão globalista, o programa passa por sua principal reformulação e se abre para os demais
países que o Brasil possui acordos de cooperação cultural. Essa mudança se dá em
consonância ao início da abertura da política externa para uma aproximação com os países
africanos e o aumento dos fluxos econômicos e financeiros para o continente (PINHEIRO,
2000; IPEA, 2011).
No século XXI, as diretrizes da política externa brasileira foram marcadas pela
aproximação com o continente africano, especialmente com os países africanos de língua
oficial portuguesa, o que se baseou discursos de dívida histórica, solidariedade, busca pelo
desenvolvimento mútuo e semelhança cultural (ALVES, 2013). Ao mesmo tempo é
possível notar que nesse período no programa os países que mais enviaram alunos foram
Cabo Verde, Guiné-Bissau e Angola, fato que reforça a importância dada pelo governo
brasileiro – especialmente na primeira década do século XXI – às relações Sul-Sul e a
busca pelo desenvolvimento.
O discurso de laços históricos e a utilização da cooperação como ferramenta
diplomática no governo Lula, especialmente para com os PALOPs, podem ser apontados
como fator de atração dos estudantes desses países. Além disso a opção pela busca da
democratização do acesso aos mais altos níveis da governança global e nos mecanismos de
tomada de decisão gerou maior aproximação com os países africanos, no sentido em que
eles também se beneficiariam do alcance desse objetivo brasileiro. (MILANI &
CARVALHO, 2013).
Assim, é possível perceber a relação entre as variações ocorridas ao longo dos
anos no PEC-G com as mudanças na política externa brasileira. Nos momentos de
aproximação política brasileira com o continente africano observa-se no programa as
principais alterações no mesmo – a abertura do programa no protocolo de 1974 e a
superação da quantidade de alunos latinos por africanos na década de 1990.
Outra questão observada foi a discrepância entre os dados disponibilizados pelas
instituições gestoras do programa, que uma vez comparados não suprem todas as lacunas
de informações. A coordenação entre atores para a implementação de cooperação é
realizada mais facilmente quando em situações de cooperação bilateral. Mas, a partir do
momento em que precisa-se coordenar os interesses de dois ou mais atores para a execução
de projeto de cooperação para terceiros, surgem dificuldades devido aos interesses e
métodos de cada ator envolvido.
CONCLUSÃO
Tendo sido um dos primeiros países do Sul Global à executar cooperação sul-sul,
através da Comissão Nacional de Assistência Técnica na década de 1950, o Brasil lança
mão da prática da cooperação sul-sul como instrumento de sua política externa ao entendê-
la como instrumento de projeção de presença positiva no cenário internacional (BRASIL,
2012b). O Programa Estudante-Convênio de Graduação, enquanto cooperação técnica de
caráter acadêmico consolidada é um exemplo dessa utilização da cooperação pela política
externa.
O PEC-G funciona como fator de promoção do desenvolvimento internacional
através da disseminação da educação superior para estudantes de países em
desenvolvimento, além de promover o soft power brasileiro. O programa ainda se alinha ao
objetivo da busca pelo desenvolvimento que norteou a política externa brasileira desde os
anos 1930, atuando nas vertentes política, econômica e cultural da política externa
(BRASIL, 2016b; PINHEIRO, 2000).
Os dados apresentados no capítulo um deste trabalho demonstram as modificações
ocorridas na regulamentação do programa, bem como uma prevalência no acumulado
histórico de alunos oriundos do continente africano, da preferencia pelas instituições da
região sudeste do país – principalmente de São Paulo e Minas Gerais –, e dos cursos de
Medicina, Administração e Engenharia.
As mudanças na relação entre o Brasil e o continente africano apresentadas no
capítulo dois demonstraram que por muito tempo essa relação se limitou ao aspecto
comercial. A partir da década de 1970 a África começou a fazer parte dos interesses
brasileiros, mas foi no século XXI, especialmente na administração de Lula que o
continente ganhou papel central na agenda brasileira.
Nas análises executadas no capitulo três comprovou-se a relação entre as
mudanças da política externa brasileira e as mudanças ocorridas no âmbito do programa.
As alterações da legislação e da prática do programa são reflexos das mudanças na política
externa brasileira, no sentido em que, por exemplo, no período em que o paradigma
americanista regia a política brasileira, o programa era restrito aos países latino-
americanos. E, a partir do momento em que o globalismo passa a reger a política do país,
observa-se a ampliação do programa.
Contudo, o grande desafio a ser superado pelas instituições gestoras do PEC-G é a
questão da coordenação dos dados entre as mesmas. Uma vez que, atualmente, não há
concordância no ponto inicial real do processo seletivo – o MRE afirma que toda a seleção
é feita pelo MEC, enquanto o MEC afirma que a seleção se inicia nas representações
diplomáticas brasileiras nos países envolvidos –, nem nos dados disponibilizados por
ambas.
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Estudantes
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beneficiários de convênio cultural, aos estabelecimentos de ensino superior do
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Exteriores, de 10 de novembro de 1986. Disciplina o programa de estudantes-
convênio. Brasília.
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Previdência e Assistência Social, de 9 de julho de 1987. Complementa o
programa de cooperação educacional do governo brasileiro, para estudantes
e estagiários estrangeiros, no âmbito de acordos de cooperação Cultural e
Técnica, com prestação médica, odontológica e farmacêutica. Brasília.
BRASIL. Protocolo entre o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Educação,
de 4 de outubro de 1993. Disciplina o Programa de Estudante-Convênio (PEC-
G). Brasília.
BRASIL. Protocolo entre o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Saúde, de
25 de janeiro de 1994. Estende a prestação de assistência médica, odontológica
e farmacêutica, por meio do SUS, ao programa de cooperação educacional do
governo brasileiro. Brasília.
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13 de março de 1998. Regulamenta o Programa de Estudantes-Convênio de
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APÊNDICE – Sintetização dos Dados do Ministério da Educação e
Cultura
IES
Natureza
da IES Curso País Bolsa Habilitação
Data Ingre sso Data Conc lusão Situação UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Pública ADMINISTRAÇÃO África do Sul Bolsas da IES Bacharelado 03/03 /2010 03/03 /2015 Ativo FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE Pública Federal MATEMÁTICA APLICADA África do
Sul Promisaes Bacharelado
13/05 /2013 31/12 /2017 Ativo UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO Pública
Estadual ABI - CIÊNCIAS
SOCIAIS Angola Não Bacharelado
08/02 /2012 01/12 /2015 Ativo FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Especial ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 14/02
/1994 19/12 /2000 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 01/03
/2004 31/07 /2008 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 01/03
/2004 31/07 /2008 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 07/01
/2008 01/01 /2013 Formado UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS Pública
Estadual ADMINISTRAÇÃO Angola
Bolsas do País de Origem Bacharelado 18/02 /2008 08/12 /2011 Desligam ento UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI
Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 18/02 /2008 17/12 /2012 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 01/03
/2008 31/12 /2014 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 01/03
/2008 31/12 /2014 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 01/08
/2008 31/12 /2014 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI
Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 09/02 /2009
22/03
/2013 Formado UNIVERSIDADE
FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI
Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola Bolsas da
IES Bacharelado 09/02 /2009 28/02 /2014 Desligam ento UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL Privadas sem fins lucrativos ADMINISTRAÇÃO Angola Bolsas do País de Origem Bacharelado 01/03 /2009 02/07 /2013 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 02/03
/2009 09/05 /2014 Formado UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 03/03 /2009 31/12 /2013 Formado UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola
Bolsas do País de Bacharelado 03/03 /2009 31/07 /2014 Formado
Origem UNIVERSIDADE
FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 01/07
/2009 30/06 /2018 Ativo FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS Pública Federal
ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 01/01
/2010 01/03 /2016 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola
Bolsas do País de Origem Bacharelado 01/02 /2010 13/02 /2014 Formado UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS Pública Estadual ADMINISTRAÇÃO Angola Bolsas do País de Origem Bacharelado 08/02 /2010 07/12 /2013 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 08/02 /2010 19/12 /2014 Ativo UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 01/03 /2010 18/12 /2015 Ativo UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 03/03 /2010 31/07 /2015 Formado UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO Privadas sem
ADMINISTRAÇÃO Angola Bolsas do
MRE Bacharelado 01/02 /2011 23/01 /2015 Formado CENTRO UNIVERSITÁRIO METODISTA IZABELA HENDRIX Privadas sem fins
lucrativos ADMINISTRAÇÃO Angola Não Bacharelado 07/02/2011 07/07/2016 Formado UNIVERSIDADE
FEDERAL DE LAVRAS
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 28/02 /2011 31/12 /2016 Formado CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA CELSO SUCKOW DA FONSECA Pública Federal
ADMINISTRAÇÃO Angola Não Graduação 01/03
/2011 31/12 /2014 Formado UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 01/03 /2011
28/11 /2014 Ativo UNIVERSIDADE DE
BRASÍLIA
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 03/03 /2011 31/07 /2016 Formado UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA Pública
Federal ADMINISTRAÇÃO Angola Promisaes Bacharelado 03/03 /2011 31/07 /2016 Formado UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
Pública ADMINISTRAÇÃO Angola Bolsas do
MRE Bacharelado 01/08 /2011 31/07 /2016 Formado PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Privadas sem fins
lucrativos ADMINISTRAÇÃO Angola
Bolsas do País de Origem Bacharelado