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Aproveitamento dos frutos do Cerrado pelos produtores

Capítulo 2. O Processo de Aproveitamento dos frutos do Cerrado na

2.2. Aproveitamento dos frutos do Cerrado pelos produtores

para que, com simplicidade, se atinja o significado profundo da culinária brasileira.

Bolaffi professa: Cozinhar é um constante devir de antigas tradições e contemporâneas inovações que podem e devem ser combinadas com saber, arte, bom senso e bom gosto. Algumas dessas qualidades citadas são inatas, outras aprendidas com esforço e dedicação.

Felizmente sabe-se que pesquisas têm sido feitas para a aprimoração da cozinha brasileira, buscando-se incessantemente o aproveitamento de cada cultura regional e seus produtos para uma melhor identidade de cada região através de sua culinária.

Das espécies com potencial de utilização agrícola, na região do Cerrado, destacam-se as frutíferas.

São algumas dezenas de espécies de diferentes famílias que produzem frutos comestíveis. Estes frutos são consumidos em diferentes formas pelas populações locais e constituem, ainda, uma importante fonte de alimentos para animais silvestres e também para o gado (POSEY, 1986).

O extrativismo é a principal forma de obtenção desses frutos, e é feita através de catadores, esses fazem parte de famílias de baixa renda e envolvem todos os componentes da família inclusive crianças (RIBEIRO, 1999).

Após a coleta, as crianças dirigem-se para as beiras de estrada procurando oferecer o produto adquirido aos transeuntes, e também para os chamados

“atravessadores” que recolhem a produção e levam para serem comercializados nos grandes centros consumidores, como Goiânia ou Montes Claros em Minas Gerais (RIBEIRO, 1999).

Infelizmente os valores que são pagos aos catadores são ínfimos, pouco auxiliando para a melhoria de vida da população que sobrevive dessa atividade, outro fator desfavorável que deve ser levado em consideração é que essa produção é sazonal e na entressafra essas pessoas têm que buscar outras atividades para garantir a sobrevivência (RIBEIRO, 1999).

Os frutos in natura são comercializados para a utilização na culinária típica, ou consumo imediato. Também destinados a pequenos fabricantes de conservas vegetais, mas que não abrangem o grande público devido a uma técnica rudimentar no processo de conservação.

A extração do óleo do pequi também é outra fonte de renda para os pequenos produtores rurais. No entanto, o processo utilizado é muito precário e com baixa produção, produtividade e qualidade. Esse óleo obtido é vendido nos centros próprios de comercialização, mas a preços baixos, e também para os

atravessadores que colocam uma nova embalagem conseguindo preços mais significativos (RIBEIRO, 1999).

O mercado para a indústria cosmética consiste em outra forma de aproveitamento dos frutos do cerrado. Há diversas exigências para que ocorra esse tipo de utilização que exige determinadas características para que o óleo possa ser utilizado, ressaltando-se que quando o processo utilizado de extração não atende, ou quando atende o óleo não é adquirido pelos interessados (POSEY, 1986).

Também na cosmética é utilizada a casca da mutamba que se destaca por sua farta aplicação na recuperação da queda de cabelos, evitando a caspa e a seborréia. Macerada e em infusão, funciona como amaciante e desembaraçador de cabelo (ANDERSON, 1991).

Outro uso muito tradicional da mutamba na área rural é a adição dessa infusão ao caldo de cana para a produção da rapadura, com a função de aglutinar os resíduos do bagaço.

Os frutos do Cerrado apesar de apresentarem inúmeros nutrientes importantes e também grandes atrativos sensoriais, tais como cor, sabor e aroma, ainda são pouco explorados comercialmente (ÁVIDOS e FERREIRA, 2003).

Esses frutos em seu aproveitamento alimentar, utiliza a parte reprodutiva da planta, ou seja, se houver uma coleta predatória, sem deixar quantidade adequada para assegurar a germinação das sementes no campo, pode-se estar contribuindo para a extinção de determinada espécie.

A solução seria a produção de mudas com o fim de cultivo de espécies de interesse comercial, evitando-se assim a extinção.

Pode-se destacar também o uso medicinal popular de algumas dessas plantas, por exemplo, os frutos da cagaita são conhecidos como laxante, se ingeridos depois de fermentados ao sol; o efeito antidiarréico e cicatrizante das

folhas do cajuí; o poder reconstituinte do vinho do tronco do jatobá ou antibronquítico da resina (MANCIN, 2002).

Há também o uso do pó do fruto da lobeira contra diabetes e o de chá ou pomada da mamacadela para o vitiligo (despigmentação da pele). A polpa de pequi contra bronquite e os frutos da pimenta-de-macaco contra a prisão de ventre e cólica renal (HENRIQUES, 2003).

Infere-se citar aqui que o baru tem um grande potencial madeireiro, contendo madeira dura; é ornamental por apresentar bonita folhagem; ainda pode ser utilizado em nutrição animal, além disso, é uma planta melífera11.

Das palmeiras (buriti, gueroba, coquinho azedo, macaúba), aproveitam-se quase tudo: as folhas em cobertura de tetos e como matéria-prima para extração de fibras para confecção de redes, chapéus, balaios, peneiras; o pecíolo, ou seja, no pé da folha (do buriti) em confecção de móveis, artesanato, brinquedos e pequenas embarcações; o tronco depois de caído é utilizado como calhas em irrigação de pequenas áreas. Também se pode acrescentar que da polpa são extraídos corantes para alimentos e ainda está sendo estudado o seu uso como protetor solar.

A cagaita além de ornamental é melífera e também fonte de cortiça. Do jenipapo são extraídas tintas escuras que servem para tingir linhas para tecelagem (SANTOS, 2000).

Vários projetos de pesquisa vêm sendo desenvolvidos com espécies do Cerrado, contemplando os aspectos da produção de matérias-primas até o processamento dos frutos.

O objetivo principal do desenvolvimento de novas tecnologias é a busca para um aproveitamento racional dos frutos do Cerrado visando assim propiciar um auxílio maior às comunidades que vivem desse extrativismo (VEIGA, 1999).

11 Melífera – que produz mel.

Dessas observações pode-se considerar que algumas espécies enfocadas em pesquisas apresentam uma boa possibilidade de utilização em plantios comerciais, em curto prazo, como o araticum e a mangaba. Ambas as espécies são relativamente precoces, com quatro a seis anos para início de produção, a partir do plantio de mudas (VEIGA, 1999).

Entretanto, alguns problemas são apontados com relação ao araticum que são: o baixo poder germinativo e dormência das sementes12, dificultando a formação de mudas uniformes, além do ataque de insetos aos frutos, danificando-os (VEIGA, 1999).

Já a mangabeira não apresenta problemas de formação de mudas, desde que as sementes sejam plantadas imediatamente após a retirada dos frutos, um fator limitante na fase de produção é o recurso hídrico.

O pequizeiro que tem grande potencial econômico apresenta um problema quanto a demora para produzir, neste caso o produtor rural tem que recorrer à reprodução assexuada que seria uma forma de promover uma maior precocidade.

Considerando-se que essas técnicas venham a possibilitar um desenvolvimento para essas áreas poder-se-á incentivar novas aplicações para os produtos do Cerrado e/ou novos consumidores levando a uma maior valorização desses produtos. A otimização do uso dos frutos do Cerrado seria revertido em melhoria da qualidade de vida para a população.

12 Dormência das sementes – aplica-se à condição das sementes viáveis que não germinam apesar de lhes serem fornecidas as condições ambientais adequadas para germinarem.

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