CAPÍTULO 2- PERSPECTIVA CRÍTICA DO ESPAÇO DE MILTON SANTOS E
3. PROCESSO FORMATIVO DE PROFESSORES NO BAIRRO DE FÁTIMA EM
3.5 Aproximação inicial com a comunidade local e escolar:
Durante essa etapa, buscou-se aproximações com o contexto da comunidade local em que a escola Betel está situada, bem como ocorreu o primeiro contato da pesquisadora com a diretora e a coordenadora da escola. A proposta do curso intitulada “A realidade do bairro de Fátima: uma proposta para o ensino de ciências nos anos iniciais” foi apresentada na escola e algumas questões foram esclarecidas sobre a natureza do processo formativo, o qual possui um caráter colaborativo, no sentido em que os professores têm participação ativa nas atividades e discussões desenvolvidas ao longo do curso.
Freire (1996) destaca que a educação é uma ação coletiva, permeada pela troca de experiências, em que os sujeitos discutem acerca das suas concepções e por meio do diálogo, expressam sua visão de mundo. É nesse sentido que esse processo colaborativo tem como aporte a construção coletiva, em que todos têm oportunidade de reelaborar o mundo e de perceberem-se seres epistemologicamente curiosos (FREIRE, 1996).
Após a apresentação da proposta do curso, as professoras juntamente com a diretora e a coordenadora da escola, aceitaram participar do curso, com carga horária de 40h divididas em 10 encontros semanais. Posteriormente a confirmação do curso na escola Betel, buscou-se conhecer a realidade do bairro em que a escola está situada. Para tanto, foi realizado um levantamento com informações sobre a realidade da comunidade, em blogs da região e sites jornalísticos, a partir do qual foram identificados alguns problemas locais. As informações obtidas sinalizaram que os principais problemas do bairro são referentes à violência, descarte inadequado de lixo, acidentes de trânsito e falta de saneamento básico.
O conjunto das informações obtidas por meio de jornais, blogs, sites, e dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), configuram as informações secundárias. Na proposta da Investigação Temática (FREIRE, 1987), esse levantamento é complementar e serve como um primeiro diagnóstico das situações vivenciadas pela comunidade.
com a comunidade local. Dois integrantes do GEATEC realizaram uma videogravação do bairro, com o objetivo de obter em sua essência o cotidiano e a realidade dos moradores. As imagens obtidas por meio da videogravação apontaram novos problemas que não foram identificados nas informações secundárias (sites, blogs, reportagens e IBGE), tais como: precariedade da feira livre, moradores de rua alojados na praça do bairro, falta de sinalização no trânsito, bueiros expostos e falta de vigilância sanitária na feira.
Durante a visita a comunidade foi possível conversar com alguns moradores do bairro, o que resultou na obtenção de informações mais precisas da realidade vivenciada. Foi possível obter aspectos concernentes à moradia, segurança, coleta de lixo, atendimento médico, saneamento básico e lazer. Destaca-se que o sistema alfanumérico (M1, M2, Mn e F1, F2, Fn) foram utilizados para identificar os moradores e feirantes entrevistados durante as visitas informais.
Em primeira instância, constatou-se o medo e a insegurança que os moradores expressavam quando lhes era perguntado acerca da existência de problemas no bairro. As falas de alguns moradores evidenciaram situações controversas entre o discurso dos moradores e a realidade videogravada do bairro. Quando questionado sobre os problemas existentes no bairro, um morador respondeu:
O que eu tenho pra falar é tudo de bom do bairro, se não eu não morava aqui esses anos todos, não é? Já moro aqui esse tempo todo. O bairro é bom, não tenho o que dizer não, nem problema de esgoto, nem falta de água, coisa de luz, nada, nada nada! (M1).
M1 relatou que no bairro não havia nenhum problema, no entanto, as informações secundárias obtidas pelos integrantes do GEATEC evidenciaram uma realidade diferente, a existência de problemas relacionados à violência, falta de coleta de lixo, alto índice de acidentes no trânsito, falta de saneamento básico, entre outros. A visão da comunidade na perspectiva freireana possui muita relevância, pois é a partir dela que a compreensão dos sujeitos podem ser compreendidas, por meio da palavra, os sujeitos expressam a sua visão de mundo, podendo ser esta ingênua ou crítica (FREIRE, 1987). A fala de M1 expressa uma visão limitada acerca da realidade em que está inserida, pois existem vários problemas no bairro, e essa falta de percepção crítica da realidade sinaliza a presença de uma situação- limite.
Ressalta-se que em um simples passeio pelas ruas do bairro é possível notar uma situação diferente da relatada por M1. A figura 2 ilustra um pouco dessa controvérsia
Figura 3 - Imagens do lixo jogado em lugares inadequados. Fonte: Autora
Segundo Freire (1987), a palavra é o lugar do encontro e do reconhecimento da consciência acerca de algo, assim como é o lugar do reconhecimento de si mesmo. A fala expressa muito mais que apenas palavras, por meio dela é possível notar em que “lugar” encontram-se os sujeitos. Para Santos (2006), um conjunto de técnicas e instrumentos de trabalho historicamente determinados definem a estrutura de um lugar, por isso entender o espaço por meio da fala dos sujeitos é entender as relações entre o lugar e a formação social.
A fala de outro morador revela que:
A coleta de lixo, para mim, é ótima. Não tenho o que reclamar e o posto de saúde também, não tenho o que reclamar. Funciona direitinho, ainda hoje mesmo eu estive no posto, peguei medicamento, fui atendida. [...] A água também na minha residência também não anda faltando, eu considero assim normal e gosto do bairro. Bem centralizado, tem tudo perto no meu bairro, o comércio, farmácia, padaria, é tudo aqui eu acho ótimo, sacolão. (M2)
As falas dos moradores M1 e M2 trazem em si uma compreensão acrítica da realidade em que vivem, pois, de posse das informações levantadas e da videogravação, integrantes do GEATEC tiveram a oportunidade de constatar vários problemas que não foram evidenciados nas falas de alguns moradores. Dentre eles, a falta de sinalização nas ruas do bairro, acarretando um trânsito desorganizado, o descarte de lixo em lugares inadequados, falta de saneamento básico, desorganização e precariedade da feira livre. Essa videogravação constituiu a primeira codificação levada para as professoras no âmbito do processo formativo. Entende-se que a Investigação Temática tem como propósito conhecer a realidade por meio daqueles que a vivenciam. Para Freire (1987), esse processo envolve a investigação do próprio pensar dos sujeitos, que só é possível acontecer “[...] nos homens e entre os
homens” (FREIRE 1987, p. 58). Partindo dessa compreensão, realizou-se o processo de codificação com moradores da comunidade e professoras da Escola Betel.
Ressalta-se que a videogravação foi realizada no intuito de evidenciar a importância do espaço com relação à realidade local, pois para Santos (1988), as rugosidades, isto é, as marcas históricas que as construções imprimem no espaço, podem expressar as características culturais, econômicas e políticas de determinado lugar, ou seja, as características do local podem ser identificadas por meio do espaço habitado.