4. DE VOLTA PARA CASA: A VIDA APÓS A APOSENTADORIA
4.2 Aproximação x afastamento em relação ao ensino
Quando relacionamos os afazeres das professoras anteriormente, constatamos que três delas não contam nas suas atividades envolvimento mais sistemático com a educação.
132A professora Isabella e Maria Eulália são católicas, A Maria é espírita e a Vera á umbandista. A
professora Cláudia não se expressou acerca de sua religiosidade.
133MOSQUERA, Juan.O professor como pessoa.Porto Alegre: Sulina, 1976. p.61.
134HUBERMAN, O ciclo de vida profissional dos professores. In: NÓVOA,Vida de professores, p.49. 135Idem.
Pensamos nelas mais envolvidas nas suas novas atividades, vivendo de uma forma mais afastada das questões educacionais formais.
Já duas, embora não tendo mais a sua escola, ainda mantêm um vínculo com o ensino: Cláudia, em projetos da Secretaria da Ação social da Prefeitura de Passo Fundo trabalho, nos quais começou tempos depois de aposentada como voluntária e hoje trabalha como cooperada; Maria Eulália, na preparação de apresentações religiosas, de aulas de reforço que dá em sua casa para crianças de sua rua e freqüentando seguidamente a sua escola, além de suas leituras, que também contemplam de alguma forma questões relativas a sua profissão (carreira, área de formação).
Percebemos de comum, no entanto, que o afastamento da escola a partir da aposentadoria não ocorre de forma abrupta. É necessário algum tempo para que as professoras sintam-se desligadas da escola, e é um desligamento feito de forma suave, num processo gradual, que se dá de mansinho, quando outras atividades vão ocupando e dando significado aos seus dias. No caso de Maria Eulália, que se aposentou mais recentemente, percebemos isso de forma bastante clara:
Me aposentei em março do ano passado (2006), então ainda nem me estruturei como professora aposentada. Eu sinto muita falta dos alunos, de estar no colégio. Seguido vou ao colégio e já estou me escalando pra fazer um trabalho voluntário no ano que vem com música lá com as crianças... Lá na minha escola. (Maria Eulália)
A fala desta professora e também a de outras apontam-nos para uma série de rompimentos/distanciamentos acarretados em princípio quando da mudança da condição de professora ativa para inativa. São rompimentos/distanciamentos que atingiram diferentes aspectos da vida: biológico, socioemocional, organização dos dias.
O rompimento biológico remete-nos a questões mais orgânicas, tendo a ver com o costume do corpo habituado com os horários fixados e cumpridos ao longo de anos e que teima em acordar no mesmo horário: é uma sineta silenciosa que faz despertar. É a própria questão da rotina de trabalho, que se expressa também na dimensão física das professoras.
Ah, logo depois de aposentada não foi fácil eu não conseguia dormir um pouco mais, o meu ritmo era outro, eu me sentia mal ficar na cama, mas foi por pouco tempo, depois, eu aprendi, aí relaxei. (Maria)
Há também o aspecto emocional, marcado pela perda do círculo afetivo construído ao longo da trajetória docente com a escola, com os colegas, com os alunos. A convivência, de uma forma geral, a interação, é para a professora Isabella o aspecto mais sentido.
Então, propriamente da aula eu não acho falta, acho falta do convívio que eu tenho com os colegas, cada dia tu se encontrar, como colegas conversar. Do convívio assim. E mesmo no sentido de convívio com os alunos. Agora de dar aulas não (Isabella)
Eu ia lá na escola, ficava conversando com colegas, saia pro pátio e ficava conversando com os alunos. Depois, aos poucos, eu fui me distanciando da escola... e agora não tenho mais tempo. ( Cláudia)
No caso de professores que têm uma rotina marcada essencialmente pela interatividade, pelo estabelecimento de relações, perdê-las de repente pode conduzir realmente a uma sensação de perda. O rompimento dos laços afetivos vem junto com a perda do trabalho-fonte, que produzia sentido e ações e que organizava, estruturava, os seus dias, a sua vida. Portanto, o ganho do tempo tem como contrapartida a perda da rotina. Assim, reconstruir o cotidiano é um processo que vai se dar com o tempo, um processo efetivado à medida que novas ocupações vão não apenas preenchendo os dias, mas adquirindo significação dentro dessa nova fase da vida, a qual, no caso das professoras, considerando a sua idade, deve ser maior que seu período ativo.
Por outro lado, também vemos que aposentadoria pode ser encarada de uma forma dicotômica: juntamente com a sensação de perda, o ganho de tempo, libertação, e nesse sentido como possibilidade de explorar novas coisas, “coisas” e atividades para as quais, antes, não havia tempo. É nesse espaço que se encontram os planos, os sonhos, o atendimento de dimensões mais pessoais.
Constatamos na fala da professora Cláudia que o afastamento do ensino formal, a aposentadoria, soou-lhe quase como uma libertação de dias tão atribulados. Assim, em princípio, aposentar-se conduziu-a à proposição e possibilidade de efetivação de muitos
gozos, de aproveitar o tempo que antes era tão escasso e fazer tudo aquilo que seria maravilhoso fazer, espaço para o ressurgimento de dimensão pessoal136:
Logo que eu me aposentei eu tinha planos de ler tudo o que eu não tinha conseguido ler, ver os filmes todos que eu gostaria, viajar, ficar sem fazer nada. (Cláudia)
No entanto, a euforia durou pouco, visto que as “coisas” foram além das questões do tempo e os seus planos não se efetivaram: voar é uma coisa que se aprende desde cedo. Será? E a professora compara-se a um pássaro que não aprendeu a voar:
Mas tem a história do passarinho que viveu sempre preso, aí um belo dia resolveram soltá-lo. O que o passarinho fez? Foi pra cima da gaiola e ficou aí ao redor da gaiola. Então eu me comparo a esse passarinho. Eu saí da prisão, me libertei, mas não me liberei. (Cláudia)
“Eu me libertei, mas não me liberei; quem é professor se aposenta da atividade, não da profissão.” Traduzimos essas expressões das professoras Cláudia e Maria Eulália como a tendência que percebemos nelas de se manterem mais vinculadas a sua antiga atividade: lendo sobre, desenvolvendo atividades ligadas de alguma forma à educação. Em oposição, nas demais percebemos, juntamente com a manutenção de valores e modos de ser docentes, um maior afastamento das questões ligadas diretamente à educação ou à escola.
Nesse sentido, aposentar-se não é seguir um caminho já traçado, porque este pode ser construído permanentemente; ao mesmo tempo, não significa uma renúncia aos anos dedicados ao trabalho. Pode, sim, ser uma continuidade vivida em outros espaços e por meio de diferentes modos de subjetivação.
136A professora Maria Eulália tem atendido mais essa sua dimensão pessoal, incluindo a música, sua paixão