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2 PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA

2.1 Aproximações com o objeto de estudo e participantes da pesquisa

2 PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA

Este capítulo tem o intuito de apresentar o percurso metodológico adotado para a realização desta Dissertação. Desse modo, apresenta o objeto de estudo, o perfil do pesquisador e dos participantes, revisão de literatura, a entrevista episódica e as categorias de análise dos dados com as quais trabalhamos.

2.1 Aproximações com o objeto de estudo e participantes da pesquisa

Buscamos situar aqui o meu percurso de formação e os elementos que

fui encontrando para a realização desta dissertação. Afirma-se que essa recapitulação se justifica por compreender que ela cumpre um dos princípios deontológicos do movimento educacional das histórias de vida em formação.

Furlanetto (2010, p. 170) destaca que “ao retomar sua história de vida, nos espaços de formação, e ao pensar sobre ela, os sujeitos se reencontram com experiências simbólicas que se apresentam como ideias, emoções, acontecimentos”. Para a autora, “a formação, nessa perspectiva, expande seus limites” (ib.)

O início se deu a partir das discussões nas aulas do curso superior de Gestão de Recursos Humanos, em uma faculdade privada da cidade de Campinas-SP, no ano de 2016, quando me deparei com a minha primeira turma de alunos calouros, que era composta por pouco mais de cem matriculados. Nos primeiros encontros da disciplina, foi possível perceber a ampla diversidade de pessoas que ali estudavam.

Com o passar dos dias, considerei importante dialogar com cada um dos estudantes em particular para conhecer a realidade de vida, os objetivos que os levaram a escolher um curso no âmbito da Gestão e quais eram as expectativas sobre as aulas. Na medida em que realizava esses tipos questionamentos, era possível ouvir um pouco sobre as histórias de vida e ir me deparando com pessoas que já trabalhavam ou que já haviam

43 trabalhado na área de atuação profissional do curso escolhido, como por exemplo, o aluno Leilson, com deficiência visual, que trabalhava em uma empresa multinacional. Ele é uma pessoa cega, matriculado em um curso de Gestão de Recursos Humanos, com diversas perspectivas para sua formação profissional. Salientamos que o mesmo estava entre os estudantes que mais participavam assiduamente das aulas, contribuía com suas experiências sobre o mercado de trabalho e questionava bastante sobre as competências que um profissional de RH deveria desenvolver para realizar trabalhos com eficiência e eficácia.

Esses foram os primeiros momentos em que tive a oportunidade de conviver de perto com um aluno cego. Logo de início, fiquei bastante interessado em conhecer de modo mais aprofundado sua trajetória de vida e suas experiências no mercado de trabalho, pois além de ter se mostrado um intelectual, participativo, em meio a uma turma de mais de cem alunos “videntes” (termo denominado para descrever a pessoa que enxerga fisicamente), precisava aprender a lidar com as necessidades de uma pessoa com deficiência visual, no que diz respeito à sua em sala de aula.

De acordo com Mantoan (2015),

A inclusão é uma inovação que implica um esforço de modernizar e reestruturar a natureza atual da maioria de nossas escolas. Isso acontece à medida que as instituições de ensino assumem que as dificuldades de alguns alunos não são apenas deles, mas resultam, em grande parte, do modo como o ensino é ministrado e de como a aprendizagem é concebida e avaliada. (MANTOAN 2015, p.62)

Nesse sentido, a autora nos leva a refletir sobre o fato de que algumas das principais dificuldades dos alunos com deficiência visual diz respeito ao que acontece na sala de aula, a implicação do modo de como o ensino é ministrado, aos materiais utilizados e ao modelo de avaliação que, muitas vezes, não considera as necessidades desses alunos. Podem ser falhas da própria instituição que provê um processo de ensino aprendizagem que se adequa apenas a um perfil específico de alunos.

Uma vez que a maioria dessas ações estão diretamente relacionadas com os professores, entendemos que estes profissionais desempenham um importante papel na construção de práticas pedagógicas mais inclusivas.

44 Conforme destaca Ferreira (2006, p.230), “o reconhecimento do valor e do poder que residem no corpo docente deve estar no centro de qualquer projeto cujas ações estejam voltadas para o desenvolvimento de escolas inclusivas”. Docentes que trabalham de forma inclusiva podem proporcionar para seus alunos, ambientes mais agradáveis onde a aprendizagem ocorre de forma cooperativa e com materiais didáticos adequados.

É importante ressaltar que como docente do ensino superior, foi muito instigante ouvir a trajetória profissional e de vida de Leilson, pois em uma instituição com mais de cinco mil alunos, não era algo comum encontrar pessoas com esse tipo de deficiência. Era corajoso da parte dele compartilhar suas experiências e querer participar das atividades que envolviam discussões em grupos e apresentações em público, porém, senti muita dificuldade quando chegou o dia da primeira avaliação escrita e individual.

A instituição liberou a presença da cônjuge do aluno para auxiliar na leitura das informações da prova sob meus cuidados. Porém, logo no início, alguns alunos criticaram dizendo que a avaliação não estava sendo individual, mas em dupla. Aquela situação me deixou angustiado e com a sensação de incapacidade, entretanto, conforme passaram-se os dias, o meu interesse em pesquisar sobre o desenvolvimento profissional da pessoa com deficiência visual aumentava cada vez mais e após um ano e meio, transformei minhas inquietações num projeto de pesquisa para a elaboração desta dissertação. Pode ser que devido à baixa quantidade de matriculas de pessoas cegas na referida instituição, a ausência de contatos com essas pessoas por parte dos alunos videntes tenha resultado na construção de um estereótipo negativo e distorcido com relação a forma de realização da avaliação escrita. Hoje, avaliamos o quanto é cada vez mais frequente a inclusão de pessoas com deficiências no ensino superior, o que implica um rompimento da imagem de insucesso que se tem a seu respeito.

Apesar da falta de experiência para lidar com uma pessoa cega, até mesmo em questões mais simples, como por exemplo, a maneira correta de abordá-la para simplesmente guia-la na travessia de uma faixa de pedestres, sempre procurava ouvir daquele aluno como ele gostaria de ser guiado, como poderia melhorar meu desempenho. Busquei mais conhecimento, percebi que a inclusão de todos é imprescindível para a formação de qualquer educador,

45 senti a necessidade de pesquisar, resolvi questioná-lo se ele tinha o interesse em contribuir com a minha pesquisa, e com um sorriso de satisfação, ele respondeu que seria uma oportunidade de ser ouvido e imediatamente se prontificou em participar.

Conforme dialogávamos sobre o aprofundamento dos estudos para a realização do trabalho, surgiu a necessidade de entrevistar mais pessoas com deficiência visual que conseguiram ter acesso ao ensino superior. Em uma das nossas conversas, Leilson relatou a história de vida da Mayara e marcou um encontro com ela para que fôssemos apresentados. Na ocasião, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a trajetória de vida da Mayara e a convidei para participar junto conosco. Ela prontamente aceitou o convite e ao mesmo tempo comentou sobre outra pessoa muito especial, que se aceitasse a proposta, seria muito importante para a realização da pesquisa. Era perceptível o interesse demonstrado pela nossa nova participante, que logo no dia seguinte entrou em contato com a pessoa que havia mencionado. Ela falou resumidamente sobre a proposta e perguntou se aceitava ser a nossa terceira e última entrevistada. Para nossa satisfação, o convite foi aceito pela jovem chamada Ana Carolina, que também possui deficiência visual, é estudante do curso de Psicologia e trabalha em uma multinacional renomada no mercado. Após essa confirmação, a nossa equipe estava completa para a realização dos estudos e das atividades que contribuíram para a realização das entrevistas narrativas. Criamos o grupo de whatsapp intitulado “Cegos Líderes” para facilitar nossa comunicação sobre os encontros e outros temas pertinentes ao trabalho.

Conforme já anunciamos, a nossa pesquisa tem o intuito de contribuir para que se compreenda que as pessoas cegas possuem as mesmas capacidades que qualquer pessoa vidente. Dentre outras potencialidades, elas podem realizar projetos de vida com a perspectiva de constituírem famílias, gerar filhos, desempenharem funções na carreira profissional e acadêmica, inclusive atuando como líderes, gerir o seu próprio negócio, dentre outras possibilidades.

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2.2 Perfil dos Participantes

Foram realizadas entrevistas narrativas individuais com três pessoas com deficiência visual que estudavam em instituições privadas de ensino superior da cidade de Campinas-SP. Os critérios adotados para a escolha dos participantes foram: ser adultos cegos que tenham conquistado uma vaga no ensino superior; com experiência em cargos administrativos de grandes empresas e que em algum momento das suas vidas tenham vivenciado situações de liderança.

Leilson, Mayara e Ana Carolina são os três participantes cegos que nos concederam de forma generosa suas narrativas autobiográficas. Ao entrevista-los, informamos que a identidade poderia ser preservada, porém todos optaram em manter seu verdadeiro nome.

A realização das entrevistas ocorreu no dia 29 de outubro de 2018, com Leilson e Mayara e no dia 03 de março de 2019 com a Ana Carolina. O local escolhido foi a biblioteca da Faculdade Anhanguera de Campinas por se tratar do local onde surgiu a ideia inicial e pela facilidade de acesso para deslocamento de todos.

A Instituição teve uma ligação comum entre os participantes da pesquisa ao se remeterem sobre o acesso dificultoso da pessoa com deficiência ao ensino superior e ao mesmo tempo por se sentirem privilegiados ao contemplarem com êxito suas trajetórias em meio a uma sociedade que ainda é tão preconceituosa mesmo com tantos avanços que já existem nessa área.

Esses aspectos em comum e essa proximidade nos levou a considerá-los como significativos no meio das pessoas cegas, o que nos despertou o interesse em realizar o convite para participarem da pesquisa. Quando realizamos as entrevistas, suas idades variavam entre 28 e 31 anos de idade. Leilson, 29 anos, casado, pai de um menino, graduado em Gestão de Recursos Humanos, trabalhou como palestrante em uma multinacional, é empresário no ramo de fabricação de bengalas para pessoas cegas e massoterapeuta. Nasceu no município de Cícero Dantas, localizado no interior do estado da Bahia e mora em Campinas-SP. Ele possuía baixa visão até os dez anos de idade, porém devido a um descolamento da retina acabou