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Aproximações entre Schiller e Caspar Friedrich

3. Caspar Friedrich, o gênio do sublime

3.3 Aproximações entre Schiller e Caspar Friedrich

Não há registros de que Friedrich Schiller e Caspar Friedrich tenham se conhecido. Schiller morre em Weimar em 1805, mesmo ano que Caspar Friedrich vence o concurso organizado por Goethe na cidade. No entanto, é possível constatar pontos comuns entre o filósofo e o pintor. Pontos comuns muito além do “Friedrich” em seus nomes.

Caspar Friedrich propõe uma espécie de sinestesia entre arte, natureza e filosofia. Nos escritos de Schiller sobre o sublime, a natureza e arte também trazem este caráter. A obscuridade deliberada representada nas paisagens do artista é uma tradição arraigada na estética do sublime. Mais significativamente do que talvez qualquer outro artista romântico, Friedrich aspira invocar o sublime através de uma estética subjetivada que descreve a aparência externa de natureza através da percepção interior do observador. Da forma apontada por Schiller, põe o sujeito fora de si próprio e em contato com o que o rodeia, portanto, a contemplação e a estética são praticamente uma só. A relação sujeito e natureza, tal como se encontra expressa em e na obra de Friedrich, assenta não só na concepção da natureza como um organismo vivo, mas também na convicção de que a natureza, enquanto espaço vivo que se relaciona com o sujeito, tem para com este uma atitude positiva de acolhimento e compreensão.

Friedrich entende que o encontro do sujeito observador com a paisagem representa (mais do que um encontro sujeito/objeto) o ponto de convergência de dois seres vivos e do estado de alma que partilham sentimento e entendimento. Dessa atitude resulta uma simpatia que possibilita o encontro do sujeito observador com a natureza e a consequente construção da paisagem. A contemplação da arte, para Schiller é a tendência prática da didática do belo, do sublime e da liberdade, que permite a relação direta do ser humano com a arte, coloca o sujeito em estado estético. A contemplação coloca o sujeito fora de si próprio e em contato com o que o rodeia, portanto, a contemplação e a estética são praticamente um só.

As considerações de Schiller acerca dos impulsos humanos, instituídos sobre o estado físico e o estado moral (impulsos prático e teórico), intermediados pela

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possibilidade do jogo e da liberdade, direcionam o olhar aos conflitos diversos instaurados pelos românticos, especialmente sobre o sublime. O sublime, deve ser uma avaliação estética e não lógica de um objeto de grandeza e força infinitas. A sua representação estética tem que comover mais do que o infinito. Schiller destaca no seu texto, Sobre o Sublime que “A visão de distâncias ilimitadas e alturas fora do alcance da vista, o vasto oceano a seus pés e o oceano maior ainda sobre ele arrancam seu espírito da esfera estreita do real e da prisão opressora da vida física” (2011, p. 66) e como a magia do sublime “se encontra na aparência, e não no conteúdo, a arte possui todas as vantagens da natureza, sem partilhar seus grilhões” (2011, p. 74). O filósofo entende o sublime como a resistência ao natural, o enfrentamento entre a passividade e a ação, pois isso não pode ser explicado mediante as leis da natureza, de causa e efeito. Por ser resistência, o sublime impõe ao indivíduo dignidade, “descolamento” do mundo natural, sentido de humanidade. Schiller afirma, no mesmo texto, que “nada há mais indigno do homem do que sofrer violência, pois a violência o nega. Quem a exerce sobre nós, não faz nada menos que contestar-nos a humanidade. Quem a suporta covardemente, despoja- se de sua humanidade” (SCHILLER, 2011, p. 55). Como se vê, o sublime de Schiller está associado à resistência, que por sua vez, é o exercício pleno da liberdade. Assim, a obra de arte é alternativa para o sublime, pois o ser humano não precisa resistir de fato.

Friedrich, por sua vez, concebe sua arte com liberdade, rejeita o racionalismo do Iluminismo, escrevendo, "A tarefa do pintor não se funda na exposição fiel do ar, da água, dos rochedos e árvores, mas em tudo isso devem se refletir sua alma e seus sentimentos.” (FRIEDRICH, apud in SUBIRATS, 1986 p. 49). Friedrich articulou simultaneamente, a beleza da paisagem e o sentimento de dependência absoluta, ou a consciência da divindade infinita no mundo finito, a partir da suspensão entre a proximidade da terra e a vastidão do céu. É exatamente assim que Schiller teoriza, agregando os sentidos e as emoções na construção de uma sociedade mais livre. A emoção sublime, na concepção de Schiller, aponta uma saída do mundo sensível. O impacto do sublime origina a separação entre físico e mental, entre o que é real e o que é moral, em que o primeiro é atingido por uma força terrível, e o segundo por um sentido de libertação devido à capacidade de experienciar o infinito e o inatingível. Friedrich materializa estas ideias em suas pinturas que apresentam um sujeito que está em relação com a natureza, com o divino, com o mistério e com a emoções humanas. As suas pinturas transitam entre realismo e abstração usando a objetividade da natureza como mediadora de um exercício interior. “Tenho de me render ao mundo que me rodeia, unir-me às suas nuvens e pedras,

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para poder ser aquilo que sou. Preciso da solidão para poder comunicar com a natureza”, diz o pintor (FRIEDRICH, apud in WOLF, Norbert, 2003, p. 1).

A relação entre as ideias de Schiller e Friedrich não se dá apenas a partir da “interpretação” da obra do pintor, forçando as imagens para ilustrarem as ideias, mas é uma aproximação feita a partir da leitura do pensamento de ambos. Friedrich em vários aforismos reunidos na publicação Caspar David Friedrich em Briefen und Bekenntnissen (Cartas e Confissões), apresenta ideias semelhantes as teorias de Schiller sobre a pintura. Em um destes aforismos Friedrich afirma que “O pintor não deve pintar apenas o que vê à sua frente, mas também o que vê em si mesmo. Se ele não vê em seu interior, é melhor que renuncie a pintar o que vê fora de si” (FRIEDRICH, apud in, SUBIRATS, 1986, p. 48). Por sua vez, para Schiller o pintor paisagista, depois de ter buscado o segredo das leis que governam os movimentos internos do coração humano, e estudado as analogias que emergem entre esses movimentos e fenômenos externos específicos, se transforma de um retratista de natureza, em um verdadeiro pintor de almas humanas. Ou seja, ambos compreendem que a pintura deve representar a subjetividade, as emoções do pintor.

Na pintura de Friedrich, a natureza como tema, não se dá por meio meramente mimético, mas através da interlocução entre impressão visual, reflexão mental e emocional (WOLFF, 2003, p. 8) que, como pensa Schiller, apenas o gênio é capaz de produzir. Como cita Norbert Wolf, “nas palavras de Friedrich, uma imagem de ser seelenvoll – à letra “plena de alma” - no efeito que produz, para que possa ser considerada uma verdadeira obra de arte” (2003, p. 9). A moralidade que Schiller pretende encontrar está presente em Friedrich, que com a iconografia envolvente, o indivíduo é levado a pensar no tempo, no poder, na força e grandiosidade da natureza

Schiller e Caspar Friedrich não refutam absolutamente a utilidade da razão, mas promovem a noção de que os sentimentos podem ser companheiros do intelecto. Ambos desejavam ampliar as restrições intelectuais do classicismo para abraçar uma maior diversidade nos modos de pensamento e sentimento.