Episódio I: A brincadeira de esconde-esconde
IDADE REFERENTE À OUTUBRO DE
3.4 O ENCONTRO COM O CAMPO DE PESQUISA
3.4.1 Aproximando-me dos bebês
Na tentativa de realizar uma pesquisa com a participação dos bebês e pautada na orientação etnográfica, foi necessário, em diversos momentos, realizar uma incursão teórica para fundamentar e repensar os procedimentos deste estudo que, como afirma Kramer, “A pesquisa no campo das ciências humanas e sociais envolve sempre desafios epistemológicos, metodológicos e éticos” (KRAMER, 2009, p.36). Nessa direção, compreende-se que a busca incessante por possibilidades que orientem os procedimentos, embora possam não garantir com precisão se o caminho percorrido é o mais adequado, oferecem subsídios que alargam o olhar e os sentidos do pesquisador.
Finalmente, a primeira entrada a campo! Era uma manhã um pouco acinzentada, há muitos dias não chovia, por isso o clima estava seco, embora nessa manhã houvesse uma cerração baixa. Acordei cedo e ainda pensei: será que começo hoje ou outro dia? Não podia mais vacilar... era hora de iniciar, superar os medos, as inseguranças e passar a conviver um pouco com os bebês, conhecer seus modos de vida no espaço coletivo da creche, as linguagens que manifestariam. Certamente seria diferente, entraria dessa vez em um contexto de berçário com um propósito diverso daquele que há muito realizei como professora, agora eu seria o outro junto aos bebês, diferente deles e diferente das professoras, seria a pesquisadora.
Estava tudo combinado. A professora já me esperava, mas, novamente o vacilo... será que eu estava preparada? Lembrei que tempos atrás lia, buscando saber qual a melhor forma de iniciar as observações. Das diferentes preocupações, a que mais me afligia, era pensar em como os bebês sentiriam a minha presença, se me aceitariam ou não. Se a minha presença não se tornaria um estorvo nas suas relações ou se eu teria a sensibilidade de estar presente sem ser inoportuna. Já imaginava que os bebês seriam sensíveis o bastante para perceber a presença deste “outro” entre eles e que logo se perceberiam observados.
Os estudos mais recentes com crianças pequenas, principalmente os da Sociologia da Infância, vêm nos revelando o quanto as crianças são perceptivas, o quanto percebem nossas entradas e intenções, mesmo quando pensamos que não. Como já disse, estava há dias lendo e buscando entendimento, orientação para entrar em campo sem ser invasiva, sem que as professoras e, principalmente, os bebês não ficassem desejando que eu não voltasse nunca mais àquele espaço. Precisava assumir meus receios e arriscar o primeiro contato:
Cheguei à Creche às 9h30min, horário que havia marcado e sugerido pela professora. Tirei o calçado, pedi licença e entrei na sala dos bebês, onde brincavam espalhados por toda ela. Acomodei minha bolsa na prateleira que a professora apontou e procurei um espaço no chão, entre os bebês, para sentar. Pedi novamente licença e falei “oi” e o meu nome, e perguntei se poderia ficar um pouco com eles.
As crianças brincavam livremente no chão. Havia dois bebês em bebês-conforto separadamente, um deles dormia o outro olhava atento tudo o que acontecia. A professora estava sentada no chão com um bebê no colo e alguns à sua volta, e outro bebê encontrava-se no berço. Percebi que algumas crianças, ao me notarem se, sentiram um pouco incomodadas e logo houve choro de algumas delas e uma certa disputa pelo colo da professora, que se encontrava sozinha naquele momento, pois a auxiliar de sala estava em seu intervalo de café. A professora, com muita tranquilidade e acolhimento, estendia a mão aos bebês que a solicitavam e dizia “calma, eu estou aqui com vocês, está tudo bem, não precisa fazer isso”.
Diante de tantas imagens e situações, fiquei um pouco assustada. Como manter e qual seria a postura mais adequada e, ao mesmo tempo, como tomar consciência do que vim observar? E a linguagem dos bebês? Que estratégias estão utilizando para se comunicar? Rapidamente procurei me acalmar e pensar que se os passos fossem dados de acordo com as possibilidades oferecidas, gradualmente seria possível observar o fenômeno desejado.
Assim, naquele mesmo instante, ao perceber o incômodo que parecia ter gerado neles, me levantei bem devagar e sentei em um tablado ao lado da porta de entrada da sala e procurei ficar quietinha, comentei com a professora que esse exercício de ser pesquisadora era algo novo para mim, e precisaria tomar alguns cuidados, pois não desejava interferir, já que, com o histórico de professora de bebês intrínseco a minha constituição, se tornava difícil vê-los chorar e não oferecer um colo, mas também estava percebendo que se o choro era pela minha presença, seria melhor ser o mais discreta possível.
Em seguida a auxiliar de sala voltou do seu intervalo e me cumprimentou. As duas profissionais diziam para eu ficar à vontade. Nesse momento, os bebês estavam mais afagados, pertinho da professora, que procurou acalmá-los. Mesmo assim, alguns ainda choravam, disputando o colo da professora.
Algumas crianças começaram a se aproximar de mim. Ricardo, muito sorridente e parecendo querer me mostrar o que já conseguia fazer: corria e pulava, sorrindo e voltando o olhar para mim, como se quisesse ter a confirmação que eu o estava acompanhando. Antônio e Tiago também se aproximaram, trouxeram brinquedos e me ofereceram; trocaram os objetos entre eles e sorriram para mim, olhando intensamente em meus olhos como se desejassem se comunicar comigo. Assim, quando aceitei o brinquedo que cada um, em diferentes momentos, me trouxe, senti aquele gesto como um convite “venha brincar comigo”. A partir das ações dessas
crianças, comecei a me sentir um pouco mais tranquila. (Diário de Campo, 18/08/2010)
Depois das manifestações desses bebês, reafirmei que o objeto de estudo seria a linguagem, mas sem perder de vista que os sujeitos da pesquisa eram os bebês que, de uma forma ou de outra, estavam em constante comunicação entre eles e com o meio social do qual partilhavam. Lembrei-me, ainda, das indicações de Bakhtin sobre a pesquisa nas ciências humanas: “[...] Toda vez que procuramos delimitar o objeto de pesquisa, remetê-lo a um complexo objetivo, material compacto, bem definido e observável, nós perdemos a própria essência do objeto estudado, sua natureza semiótica e ideológica” (BAKHTIN, 1986, p.70).
Agora, porém, passava a ser necessária uma postura cautelosa que me permitisse ver e ser vista, ser aceita. Entender cada enunciado que fosse possível, procurar o invisível a partir do visível, de cada olhar, cada gesto, sorriso, choro e movimento. Novamente recorri aos pressupostos da Sociologia da Infância que apontam para a importância de as negociações serem feitas constantemente e, principalmente com os sujeitos da pesquisa, mas também com os outros sujeitos que vivenciam esse momento, os adultos da relação na pesquisa.
Na tentativa de ilustrar como essas negociações e aproximações foram sendo realizadas, trago o excerto referente ao momento do almoço, no primeiro dia em campo.
Chegou o almoço, as professoras alimentaram um bebê de cada vez. Ofereci ajuda e três bebês aceitaram almoçar comigo, Antônio, Denise e uma das meninas que não foi autorizada a participar da pesquisa. Também tentei oferecer almoço ao Tiago, mas ele recusou, mesmo depois de ter esbanjado sorrisos para mim. Percebi que não quis almoçar com as professoras, parecia estar sem apetite. É um momento difícil, esse da alimentação. Estavam treze bebês, todos desejando ser atendidos ao mesmo tempo e havia apenas duas profissionais para atendê-los. Mas as professoras deixavam os bebês à vontade pela sala e lhes ofereciam o almoço onde eles pareciam se sentir melhor. Digo, com isso, que não ficavam eles confinados em berços ou bebês-conforto para serem atendidos. Enquanto não estavam sendo servidos, podem brincar e interagir com os outros
e com os objetos disponíveis na sala. As profissionais da sala permaneciam conversando com os bebês, tanto com os que estavam se alimentando como com os outros que estavam à espera e diziam que logo seriam servidos também. (Diário de Campo, 18/08/2010)
Estabelecer essas negociações, oferecendo ajuda aos adultos e me aproximando dos bebês, pedindo permissão a eles para vivenciar um pouco dos seus mundos no contexto da creche, tornava-se um desafio no sentido de participar e garantir a aproximação às ações dos bebês, e contribuía para com os registros que seriam realizados. Para Graue e Walsh (2003):
O maior desafio dos investigadores das infâncias é o de descobrir: descobrir intelectualmente, fisicamente e emocionalmente é algo difícil quando se trata das crianças, pois a distância física, social, cognitiva e política entre o adulto e a criança torna essa relação muito diferente das relações entre adultos. (GRAUE e WALSH, 2003, p. 10-11)
Dessa forma, é importante ressaltar aspectos que Pinto e Sarmento (1997) apontam acerca dos estudos da Infância, que constituem essa categoria social “como o próprio objeto da pesquisa a partir do qual se estabelecem as conexões com os seus diferentes contextos e campos de ação”, garantindo como característica central do recurso metodológico “a recolha da voz das crianças, isto é, a expressão de sua ação e da respectiva monitorização reflexiva” (PINTO e SARMENTO, 1997, p.24).
Com base nessas perspectivas teóricas, no próximo capítulo, irei abordar a concepção de Linguagem pela qual pretendo analisar as estratégias de comunicação entre os bebês e, finalmente, na análise dos dados selecionados para a composição desta pesquisa.
4 CONCEITO DE LINGUAGEM: POR UMA ANÁLISE