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CAPÍTULO 3 – A TRADUÇÃO EM INTERFACE COM O

3.3 APROXIMANDO PRINCÍPIOS; O CONTEXTO DA INTERFACE

Desde a consolidação da área dos estudos da tradução como campo de pesquisa acadêmico, há pouco mais de trinta anos, a tradução tem sido pensada e analisada enquanto processo derivativo de um texto-fonte (TF) exclusivamente, empregado como medida tanto para se avaliar a tradução tanto como processo quanto como produto53. Consequentemente, teóricos e pesquisadores continuam bastante apegados a noções tradicionais, enraizadas nas definições de equivalência, fidelidade ao TF e ao apagamento do tradutor, isto é, sua invisibilidade, como sinônimo de uma verdadeira competência tradutória. É lógico que, desde os primeiros passos estabelecidos para o que podemos chamar hoje de uma „ciência da tradução‟, avanços significativos foram alcançados, culminando em um novo olhar acadêmico que compreende a tradução como espaço de reflexão sobre a prática tradutória articulada por instâncias diversas no processo de tradução e metodologias próprias de pesquisa. Apesar disso, nem sempre se abre espaço para que as teorias desenvolvidas possam incursionar por áreas afins, talvez porque essas relações exigem, em alguma medida, que saiamos de „zonas de conforto‟ nas quais a tradução se insere de acordo com padrões teóricos desenvolvidos, o que também não deixa de ser uma reação natural, visto que nem sempre é fácil se abrir para o novo.

Por outro lado, a própria evolução das reflexões, pesquisas e metodologias tem favorecido e expandido naturalmente a parceria dos estudos da tradução com áreas afins, tais como a sociologia, a filosofia e a psicologia, o que reforça ainda mais uma tendência contemporânea visível não só nesta como em outras áreas, que é o trabalho interdisciplinar. Esta postura resulta em um nível de complexidade para os estudos tradutórios colocando em cheque vários conceitos normativos, e por vezes até ingênuos, relacionados à

53Tradução como processo: envolve o desempenho e o papel dos tradutores e as condições nas quais realizam sua tarefa. Implica discussões acerca de valores associados à prática como questões de leitor, contexto de produção e recepção, estratégias, cultura. Tradução como produto: estuda somente o texto traduzido, independente do texto original que serve apenas como referência para compreender o quão pero ou distante a tradução está do original.

tradução como a já tão debatida noção de equivalência, o que confirma o pensamento de Borges (2004, p. 28) segundo o qual a “diversidade teórica é necessária para que uma disciplina se mantenha viva”. A interdisciplinaridade é defendida também por Mona Baker (apud MARTINS, 1999) como meio de ampliar as discussões sobre a abrangência que o fenômeno da tradução frequentemente impõe como é o caso da interface tradução-jornalismo (ZIPSER, 2002).

Por esta razão, conforme mencionado no item anterior, para compreender a proposta desta interface é necessário, primeiramente, se desprender da concepção tradicional que compreende a tradução como transcodificação isenta, isto é, literal e derivada, necessariamente, de um TF. Torna-se necessário “pensar diferente, de maneira diferente daquela a que estamos habituados e isso é uma grande dificuldade”, conforme Borges (2004, p.24). No caso da interface, Zipser (2002) parte de uma noção ampliada de texto que, dentro da esfera jornalística, configura-se como sendo o próprio fato noticioso. Isto porque, do acontecimento até a reportagem final a notícia geralmente percorre um longo caminho no qual sempre há um recorte no relato elaborado pelo jornalista, visto que as matérias não são divulgadas sem antes passarem por responsáveis [editores chefes, chefes de redação] que podem vir a alterar esses textos, obedecendo a critérios de pauta, noticiabilidade ou mesmo interesses particulares do próprio veículo de informação.

Convém esclarecer, no entanto, um ponto específico para a pesquisa antes de continuarmos a exposição sobre a interface: o caminho percorrido pela notícia na mídia impressa e online. O pesquisador deve considerar neste momento, conforme Nord (1991) o „canal‟ ou o „meio‟ de divulgação do fato. No caso desta pesquisa, o corpus de trabalho é constituído por periódicos online, ou seja, sites dos jornais FSP e NYT cujas notícias impressas sofrem poucas modificações ou adequações para serem postadas54. Por esta razão, as reflexões conduzidas neste capítulo não contradizem o material de análise. No entanto, se o corpus de pesquisa for constituído a partir de sites ou portais de notícia como os provedores (UOL; AOL; IG; Terra, etc.) o caminho percorrido pela notícia sofre modificações significativas quanto à postagem, edição e estilo. Logo, o pesquisador deve estar atento a aspectos referentes ao imediatismo e instantaneidade da informação postada quase sem filtros, ou seja, em tempo real.

54Lembramos que as mudanças para a edição de notícias online ocorrem muito mais com referencia ao estilo, do que na linguagem propriamente dita, ou seja, a linguagem web segue os princípios fundamentais da linguagem jornalística geral adequada aos padrões dos jornais e sites na web.

Retomando as reflexões deste capítulo, é aí [na união tradução e jornalismo e no leitor como elemento comum] que as mídias impressas e online encontram um ponto em comum, visto que a imprensa não escreve para si e que no outro vértice do relacionamento „fato-imprensa-reportagem‟ encontra-se o leitor final que, além de atribuir ao jornalismo uma função testemunhal, espera ser informado sobre os fatos com a devida “isenção”. Dessa forma, a tradução em meio jornalístico é normalmente relegada ao que se chama de tradução consensual, bastante presente na cultura das redações. Pinho (2003, p.197), inclusive, apresenta essa questão como uma das tarefas do redator e do editor de web no processo de desenvolvimento do conteúdo jornalístico. Segundo Pinho (idem), redator e editor devem “ajudar na tradução de textos, se houver necessidade, cuidando para que somente o material já editado seja encaminhado para o tradutor”. Mas, quem é o tradutor destes textos?

Uma prática bastante comum é o próprio jornalista assumir a função de tradutor, visto que uma eventual contratação de profissionais tradutores geralmente onera o custo final do trabalho. Somente grandes empresas de comunicação contratam tradutores, eventualmente. Na grande maioria das vezes, o jornalista é quem exerce essa “função”, bastando para isso conhecer o idioma, o estilo do veículo para o qual escreve (exigência também para os tradutores profissionais) e ter realizado alguns trabalhos com sucesso, isto é, ter traduzido corretamente, sem „alterar‟ ou „distorcer‟ a informação.

Tais considerações, segundo Zipser (2002), permitem afirmar que a tradução praticada na imprensa é aquela “fiel à letra”, isto é, uma transcodificação literal da reportagem e que se propõe objetiva, imparcial e neutra no relato da notícia. No entanto, conforme demonstrado por Esser (1998) esses princípios inexistem nas instâncias da prática em si, colocando- se apenas como questões epistemológicas que sustentam o fazer jornalístico no seu entorno social. Ocorre que os veículos da imprensa têm, normalmente, pautas programadas para os assuntos do dia que, por sua vez, obedecem a critérios chamados valores-notícia ou critérios de noticiabilidade que conferem atributos aos fatos, tornando-os passíveis (ou não) de se transformar em notícias. Uma vez selecionados, os fatos obedecem a determinadas angulações e enfoques por conta até mesmo das características do veículo e, mesmo a matéria traduzida não é divulgada sem antes passar por responsáveis [editores chefes, chefes de redação] que podem alterar esses textos. Segundo Fontcuberta (2002, p.9), “a notícia não é apenas a técnica mais eficaz e rápida de contar fatos ao público; é decidir a realidade a que o público tem direito.” Desta citação pode-se depreender o poder do jornalista ao decidir pelo leitor o que interessa ser lido, traduzido, impresso ou postado no site. Que esta é uma realidade procedente não há dúvidas, mas o que se esquece é que se a notícia

é, em última instância, produto de venda, é no entorno social que estas decisões devem ser tomadas, pois é neste contexto que o leitor (indiretamente na imprensa ou diretamente no ambiente online através de links específicos) expressa sua vontade e interesses pessoais.

Por essa razão, as interferências entre o fato e seu relato na imprensa são especialmente sensíveis quando as notícias têm origem em ambiente internacional. Neste contexto, e enquanto leitores, normalmente se tem acesso somente à leitura da imprensa que nos é apresentada pelos meios de comunicação. Entretanto, é preciso saber e se conscientizar de que esta não é a única leitura possível para os acontecimentos. Um exemplo recente trata das notícias publicadas sobre a escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016. Uma simples busca em alguns dos mais conhecidos sites de jornais e revistas online (NYT; Herald Tribune, Der Spiegel; La Nación,

El Clarín, Le Monde, etc.) mostra que cada um traduziu a escolha do Rio a

partir da ótica da sua própria cultura ressaltando pontos como violência, corrupção política, dificuldades sociais, alegria dos cariocas, beleza da cidade, entre outros que, provavelmente, retratam as associações destes países quando se fala sobre o contexto brasileiro e foram estes fatores os associados à candidatura do país.

Destas constatações comprovam-se as conclusões de Esser (1998) e Zipser (2002) sobre a questão de que a imprensa vive dos fatos que acontecem fora do seu universo, absorvendo influências diversas deste meio que se refletem nas várias instâncias de sua organização, especialmente as culturais. Isso se traduz no relato jornalístico através da própria escolha do fato a ser noticiado (considerando-se os valores-notícia de determinada sociedade), da forma como será abordado, da maneira como o texto será articulado, no modo como o título/manchete é pensado para chamar a atenção do leitor. Todas essas determinações refletem padrões socioculturais de informação específicos para cada país, resultando em diferenças de abordagem para um mesmo evento, como as Olimpíadas e o próprio “11 de Setembro”.

Neste processo, se o leitor não compartilha do contexto da cultura de partida onde o fato tem origem, cabe ao jornalista lançar mão de meios de aproximação entre o fato e o leitor final, espaço onde a interface começa a ganhar contornos mais visíveis. No contexto dessa lógica, Zipser (2002) esclarece a existência de filtros entre o fato e o relato da imprensa tendo em vista um leitor prospectivo, sempre previsto e respeitado durante a elaboração do texto e por razões óbvias: ele compra o jornal e confirma a institucionalidade da imprensa. Deste modo, os filtros, cuja função é aproximar o leitor do fato ocorrido em território estrangeiro, impõem diferentes enfoques para um mesmo evento, através do emprego de marcas

culturais, pelo jornalista, pertinentes à cultura do destinatário: “Tal processo nada mais é do que um correlato, no universo da imprensa, das leituras que se fazem de uma realidade, de um fato. Trata-se, enfim, de uma leitura e não da leitura desse mesmo fato”, (Zipser, 2002, p.3 - grifo nosso). Como resultado dessa manobra de aproximação leitor ↔ fato, Zipser (2002), seguindo os princípios epistemológicos do funcionalismo em tradução, estabelece os seguintes paralelos que fundamentam a interface tradução-jornalismo, a saber:

 A neutralidade representa para o jornalismo o que a transcodificação isenta representa para a tradução: um ideal epistemológico apenas, pois ambos os processos desconsideram a linguagem como manifestação de cultura e produção de sentido;

 As sistematizações de Nord e Esser apresentam uma dinâmica comparável: atuam de fora para dentro, partindo de níveis macro para micro-textuais e vice-versa numa retroalimentação constante;

 Tradutor e jornalista constituem o centro do processo de produção textual;

 O leitor-destinatário, por sua vez, é o foco da prática tradutória e jornalística. Logo, o texto só cumpre a sua função (seja qual for) no momento da recepção (leitura) desse leitor;

 O texto-fonte está para a tradução assim como o fato-fonte (ou fato gerador) está para o jornalismo;

 A interculturalidade é o ponto convergente da atividade do jornalista e do tradutor, visto que os filtros atuam e condicionam sobre as escolhas do tradutor e do jornalista e,

 A autoconsciência cultural é a dinâmica que permeia os modelos propostos por Esser e Nord.

Nesse sentido, os filtros culturais que geram essas diferentes leituras/traduções para um mesmo fato, de modo a aproximá-lo do destinatário final, conduzem as reflexões de Zipser para os dois eixos principais da interface, a saber:

 O jornalista passa a ser um jornalista-tradutor de fatos (ou de forma ampliada, de discursos) e,

 A tradução passa a ser compreendida como a representação cultural do fato noticioso.

Estes paralelos confirmam o olhar funcionalista sobre a sistematização de Frank Esser. Sendo a linguagem a instância maior na produção textual e que representa culturalmente mundos distintos, os fatos (assim como a intenção do autor) constituintes desses mundos podem ser culturalmente representados pelo tradutor e pelo jornalista. Assim, enfatizamos a tradução como ato de língua em paralelo ao jornalismo como fato de língua segundo Gomes (2000, p.19).

3.4 REPRESENTAÇÃO CULTURAL: DIFERENTES ENFOQUES,