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Aracaju, em tempos de “empresariamento”: algumas notas

Capítulo II – A INTEGRAÇÃO DA ECONOMIA SERGIPANA À DINÂMICA

4.3. Aracaju, em tempos de “empresariamento”: algumas notas

Nos anos 1980, de grande protagonista das transformações ocorridas no período anterior, o Estado brasileiro entrou em profunda crise fiscal e financeira, reduzindo de forma significativa sua capacidade de gestão das políticas sociais, econômicas e de desenvolvimento regional, repercutindo diretamente na condução do desenvolvimento econômico nacional. Nesse contexto, os projetos econômicos e sociais de médio e longo prazo foram substituídos pelas preocupações de curto prazo, de ajustamento da economia aos movimentos da conjuntura, do equilíbrio das contas públicas e dos compromissos de pagamento da dívida externa (Guimarães Neto, 1996).

Em Sergipe, a crise tornou-se mais evidente a partir da segunda metade da década de 1980, quando as atividades de extração de petróleo e gás natural, a fabricação de fertilizantes e a extração de sais minerais, que foram os segmentos que impulsionaram a economia sergipana até meados da década, apresentaram-se como atividades consolidadas, com queda expressiva

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Não se pretende fazer uma discussão aprofundada sobre o empresariamento urbano (seja teórica ou aplicada), mas apenas indicar alguns elementos constitutivos deste modelo de desenvolvimento e apontar algumas ações constantes da realidade sergipana que indicam a adoção desta prática.

do nível de investimento do poder público92, embora mantivesse um peso importante na criação direta e indireta de emprego (Lopes, 2004). A indústria da construção civil, não obstante algumas crises, permaneceu forte e consolidou-se como grande absorvedora de mão- e-obra, respondendo por um contingente de força de trabalho próximo da soma encontrada em todos os gêneros da indústria de transformação (Melo, 2001).

A forte dependência dos investimentos públicos tornou a economia sergipana sem grande capacidade de diversificação produtiva. Embora as estatais continuassem em franca produção, os projetos de novos investimentos e/ou modernização, como o Pólo Cloroquímico e a ZPE, foram arquivados, dada a conjuntura adversa (Dantas, 2004). Isto significou um descompasso brutal entre industrialização e urbanização, uma vez que os empregos esperados na atividade industrial não ocorreram e a população continuou a migrar para a capital, acentuando cada vez mais o crescimento populacional, a dependência do setor terciário, o crescimento do setor informal e o número de desempregados93 (França, 1999).

O setor terciário voltou a predominar na formação do PIB, apresentado modernização e diversificação das suas atividades, principalmente aquelas vinculadas ao turismo, ensino e saúde, tornando-se, de forma crescente, os segmentos de maior peso para a economia sergipana na geração de emprego e renda (Melo, 2001).

Com a redução da capacidade do Estado em elaborar políticas públicas que agregassem a economia nacional às diversas economias regionais, criou-se a idéia de que a cidade deveria assumir um comportamento empresarial em relação ao desenvolvimento econômico, oferecendo as melhores condições possíveis para a atração de investimentos (Harvey, 1996). Significa que a questão urbana, que outrora tinha como preocupações o crescimento desordenado, a reprodução da força de trabalho, os movimentos sociais urbanos, a racionalização do uso do solo, agora se transformara na problemática da competitividade urbana, ou seja, as cidades deveriam criar condições para competir pelo investimento de capital e tecnologia, atrair novas indústrias e negócios, oferecer serviços com alta qualidade e preços baixos, bem como, atrair força de trabalho adequadamente qualificada (Vainer, 2000).

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Apesar da redução no volume de inversões, a Petrobrás continuou como a principal empresa de investimento no Estado (Dantas, 2004).

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O total de empregos previstos com a implantação do Distrito Industrial de Socorro, Pólo Cloroquímico, ZPE e Terminal Portuário era de 39.954 empregos. Contudo, com a crise econômica e a não efetivação de diversos empreendimentos industriais, o volume gerado foi de apenas 639 empregos (França, 1999).

A mudança do “gerenciamento” para algum tipo de “empresariamento” urbano alterou o significado da cidade, que saiu de uma forma passiva para uma forma ativa de sujeito, com feições de empresa. Deste modo, criou-se uma competição entre cidades, transpondo o modelo estratégico do mundo das empresas para o universo urbano (Harvey, 1996; Vainer, 2000).

Além da competição interurbana, o empresariamento urbano exerceu um poder “coercitivo” externo sobre as cidades, na medida em que procurou alinhá-las à disciplina e à lógica do desenvolvimento capitalista, através da reprodução repetitiva e em série de certos padrões de empreendimentos (Harvey, 1996).

Porém, ao contrário das características empresariais, a urbanização deveria ser a expressão do processo social que ocorre no espaço, com diferentes atores, objetivos e agendas, interagindo através de uma configuração específica de práticas espaciais interligadas, refletindo as distintas relações entre forma e processo, atividade e coisa, sujeitos e objetos, uma vez que é o conjunto de práticas de classes relacionadas à circulação do capital, à reprodução da força de trabalho e das relações de classes (Harvey, 1996).

Buscando caracterizar o novo empresariamento urbano Harvey (1996) destacou como ponto central a noção de “parceria público-privada”, que buscava suprimir as reivindicações locais e as integrava ao poder público local na busca de fontes externas de financiamento, novos investimentos diretos ou novas fontes geradoras de emprego.

Com isso, os objetivos políticos e econômicos imediatos passaram a ser as atividades empresarias, através de empreendimentos imobiliários pontuais e especulativos, onde o setor público normalmente assumia grande parte do risco e a iniciativa privada ficava com os benefícios do empreendimento, relegando a segundo plano projetos econômicos concebidos primordialmente para promover melhorias nas condições de vida ou de trabalho de determinada localidade, como habitação, educação, saúde, etc.

Harvey (1996) ainda destacou quatro opções básicas utilizadas pelo empresariamento urbano na busca de competitividade locacional: 1. explorar as vantagens específicas para a produção de bens e serviços, seja através da utilização de recursos locais favoráveis (petróleo, por exemplo), ou de investimentos públicos e privados sob a forma de infra-estruturas físicas e sociais que reforçam a base econômica da região; 2. dividir espacialmente o consumo, buscando transformar a cidade em um lugar inovador, excitante, criativo e seguro para viver, visitar ou consumir; 3. lutar para assumir o controle e função de comando de determinadas

operações, como os serviços financeiros, de governo, de armazenagem e processamento de informações, etc; 4. fazer acordos para obter maiores recursos dos governos centrais.

Buscando associar o desenvolvimento urbano recente de Sergipe com estas teorias acerca do urbano, observamos que a partir dos anos 1990 algumas ações dos governos estadual e municipal indicavam a adoção do empresariamento na administração urbana do Estado, cabendo destacar algumas delas.

A primeira diz respeito à construção do Shopping RioMar. Através de parceria firmada com a Construtora Góes Cohabita Construções S.A., a Empresa Municipal de Urbanização (EMURB) negociou a construção do Shopping, agilizou a liberação de recursos junto ao agente financeiro (CEF) e cedeu o terreno para a construção por um prazo de 90 anos, renovável pelo mesmo período, em troca de 17% das receitas dos aluguéis das lojas. Com isso, a EMURB buscava a valorização e ocupação da Coroa do Meio, bairro planejado pela Prefeitura e que diversos problemas e prejuízos vinha causando à municipalidade (França, 1999).

A construção do Shopping, por sua vez, trouxe uma nova centralidade para alguns espaços da capital. O comércio, tradicionalmente concentrado no centro da cidade, tem se expandido em várias direções, apresentando uma segmentação territorial. Grande parte das lojas destinadas a consumidores de baixa renda permaneceu no centro da cidade, ao passo que as lojas de produtos destinados às classes mais abastadas migraram para os shoppings ou para áreas mais valorizadas.

Este empobrecimento do centro levou o Governo do Estado ao desenvolvimento de obras de revitalização, com a construção de um novo Mercado Central, em área ocupada anteriormente pelo Porto de Aracaju e a 500 metros de distância do antigo.

O projeto de urbanização da orla de Aracaju, o Projeto Orla, desenvolvido pelo Governo do Estado, no bairro Atalaia, gerou conflito entre o poder municipal e o estadual porque as duas instâncias de governo possuíam projetos distintos para o mesmo espaço. Como Aracaju é área de interesse especial, após disputa judicial o governo estadual iniciou as obras, com duplicação de avenidas, construção de quadras de esporte, pista de patinação, skate, ciclovia, praça de eventos, parques infantis, quadras poliesportivas, quiosques, conjuntos de bares e restaurantes, etc. (França, 1999).

Destaca-se ainda, a ampliação do Aeroporto Santa Maria, a criação do Centro de Convenções e tentativa de vender a imagem de Aracaju como lugar ideal para o turismo de eventos, uma vez que a competição com o turismo de Salvador, um dos maiores do país, e com as belezas naturais de Alagoas dificultam a inserção (ou “competitividade”) do Estado nos principais roteiros turísticos nacionais e internacionais. Algumas festividades também recebem incentivo do governo estadual, como forma de atrair visitantes, destacando-se o Pré- Caju, carnaval fora de época realizado em Aracaju semanas antes da data oficial do carnaval, e as festividades juninas, com a tentativa de “vender” a imagem de que Sergipe é a “capital do forró”.

Finalmente, em mais uma tentativa explícita de se enquadrar aos novos ditames do mercado, dadas as “pressões uniformizadoras dos atores hegemônicos para a realização do

mundo atual” (Sánchez, 2001, p.172), em 2003 a Prefeitura Municipal de Aracaju, como uma

das ações do Plano Estratégico da Administração 2001-2004, elaborou estudo que buscava identificar os fatores sistêmicos da competitividade da capital, visando criar condições para a atração de visitantes e investidores. Após elencar os fatores positivos e negativos da competitividade de Aracaju o estudo concluiu que se deviam adensar os pontos fortes do município e procurar eliminar os gargalos existentes, pois a responsabilidade da promoção do desenvolvimento não era exclusiva da Prefeitura, mas de todos os atores envolvidos, requerendo assim uma maior articulação entre eles, para que o desenvolvimento local e sustentável de Aracaju pudesse servir de exemplo e ser replicado em outros municípios brasileiros.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Analisando todo o processo de formação econômica de Sergipe observa-se que o início das atividades produtivas do estado, não obstante seguissem os determinantes gerais da economia nordestina, de desenvolvimento da monocultura canavieira e de implantação de um segundo sistema econômico complementar à atividade principal (a pecuária), seus “tempos” de desenvolvimento foram distintos, ou seja, Sergipe andou na contramão do fluxo nordestino, embora desenvolvesse as mesmas atividades produtivas. Desta forma, Sergipe não foi “beneficiado” com os ganhos provenientes da indústria do açúcar. Ao contrário, desde sua formação já apresentava um caráter dependente e complementar às atividades produtivas dos demais estados do país, notadamente a Bahia.

Esta dependência e complementaridade não lhe confeririam capacidade suficiente de acumular capitais que pudessem dinamizar outras atividades produtivas no estado, ficando refém dos capitais extra-regionais, desde a sua origem. Vale lembrar que a instalação do único Engenho Central no estado foi iniciativa da Companhia de Engenhos Centrais da Paraíba do Norte e Sergipe (o que hoje chamaríamos de uma joint venture).

Outra característica da economia sergipana, e também decorrência da dependência sofrida por capitais extra-regionais, seria o tamanho relativamente pequeno dos seus empreendimentos locais. Desde as usinas, o que se verificou foi a predominância de capitais atomizados que buscavam, de alguma forma, acompanhar o movimento geral das economias nordestina e nacional e inserir-se na dinâmica produtiva do país.

Com o processo de articulação comercial da economia brasileira, a indústria sergipana sofreria os efeitos de estímulo, inibição e destruição descritos por Wilson Cano, como decorrência da maior competição inter-regional. Contudo, prevaleceriam os efeitos de destruição, dada a fragilidade da sua estrutura industrial e a falta de capitais locais de maior vulto, expressos na queda constante do valor da produção estadual desde 1920 até 1960, transformando o estado de Sergipe, que no início do século XX apresentava-se como um dos mais importantes do Nordeste, numa das mais inexpressivas economias da região.

Superada a articulação comercial e iniciada a integração produtiva, o estado de Sergipe seria “invadido” por alguns capitais extra-regionais que buscavam expandir seus processos de valorização. Entretanto, quando comparado com os demais estados do Nordeste observa-se

que a incapacidade de ter criado, ao longo da primeira metade do século XX, fatores de atratividade para o setor privado, quais sejam, economias externas e de aglomeração, fizeram com que Sergipe fosse preterido ante a maioria dos estados nordestinos, notadamente a Bahia e Pernambuco, e também Ceará, que desde o inicio das suas formações apresentaram capitais locais de maior expressão que pudessem promover um processo de valorização aliado aos capitais extra-regionais.

Até mesmo o Sistema de incentivos fiscais 34/18-FINOR, um dos principais mecanismos utilizados pelo Governo Federal para atrair capitais privados para o Nordeste, não teria o efeito esperado sobre a economia sergipana, embora não se possa negar sua importância no processo de modernização de algumas indústrias, bem como seu poder de atração para empresas que visavam explorar as matérias-primas locais, notadamente na indústria de minerais não-metálicos.

Os investimentos incentivados, em sua grande maioria, foram de empresários locais, em setores tradicionais e com pequena capacidade de desencadear efeitos a montante e a jusante nas atividades do estado. Na ausência de capitais extra-regionais e diante da reduzida magnitude dos capitais locais, a Sergipe restou a atuação imprescindível e intensa do Estado Nacional.

Desta maneira, a integração produtiva da economia sergipana à dinâmica nacional somente foi possível graças à atuação direta do Estado, “inclusive como empresário, capaz de

estender e levar até os seus limites os estreitos horizontes do setor privado” (Draibe, 2004, p.

15).

Deve-se considerar que os objetivos iniciais de desenvolvimento e redução das disparidades regionais para o estado de Sergipe, constante num projeto maior de desenvolvimento do Nordeste, através da atuação da SUDENE, seriam obstados com o Golpe Militar de 1964, cujos propósitos estavam no crescimento acelerado e contínuo do país, sem uma preocupação estrita com o desenvolvimento regional (ou mesmo nacional). Não se pode negar que houve um aumento da intervenção governamental não só em Sergipe, mas em todos os estados nordestinos durante o regime autoritário, mas deve-se ter presente que tal atuação ocorria em função da acomodação dos interesses das elites e das oligarquias regionais, e não do desenvolvimento econômico e social da região.