A simplicidade deste projecto vem na forma de um único plano vertical, uma estante que faz a organização e caracterização do espaço. Este é um projecto de uma biblioteca, que surge da ideia de construir uma estante em espiral que vai desde o centro e se prolonga até ao exterior dando forma ao único compartimento do edifício. A forma em espiral da estante permite criar um sistema organizado, com um princípio e um fim, sobre o qual são colocados os livros ordenados por temas no sentido dos ponteiros do relógio. Contudo rasgaram-se rectângulos de diferentes dimensões nas estantes que permitem ao usuário abandonar a lógica organizativa da espiral e andar descontraído e errante pela biblioteca, permitindo que no centro da espiral se tenha a percepção radial de todo o espaço.
O facto do espaço da biblioteca estar bastante condicionado pela forma em espiral da estante faz com que o simples acto de andar seja uma contínua sequência de expectativas que só pára no centro da espiral. A estante contínua que divide o espaço cria um fluxo cadenciado de situações diferentes, conforme a curvatura da parede, a sua extensão e as aberturas que lhe estão associadas. Assim sendo, um passo à frente pode significar ver algo novo, diferente em profundidade ou em luminosidade, que estava escondido um passo imediatamente atrás. O espaço desenrola-se no tempo e podemos ver o cenário a mudar a cada passo, por vezes drasticamente. Ou seja, o espaço é gradualmente descoberto à medida que um passo se sucede ao outro, e assim se converte em motivação extra para o usuário continuar a avançar e querer saber o que se segue.
A estante vai até ao tecto mas apenas a parte que está ao alcance da mão é ocupada com livros. Este facto não preocupa o arquitecto, que vê nas estantes vazias outras possibilidades de ocupação, lugares disponíveis para receber a iniciativa de quem tiver vontade de os usar.
Depois de construída a biblioteca, e já em uso, o arquitecto fica fascinado com a capacidade do ser humano em alterar o propósito que ele (o arquitecto) tinha proposto inicialmente, interagindo cada qual de modo diferente conforme a sua vontade ou necessidade. Perante aquilo que foi construído e está ao seu alcance, o usuário foi capaz de encontrar outras formas de usufruir do espaço para além das previamente previstas pelo arquitecto.
Gestos simples;
Qualquer projecto de arquitectura no atelier Sou Fujimoto é objecto de um sem número de transformações pelo maior tempo que for possível. Contudo, essas transformações que tem como principal objectivo qualificar o espaço disponibilizado pela arquitectura partem de acções simples e do uso de técnicas primitivas como é rodar, deslocar, dividir, acrescentar, empilhar, ligar, etc. Esta é uma valiosa lição que Sou Fujimoto nos dá, mostrando que com economia de gestos se consegue obter transformações significativas.
O arquitecto aprendeu a trabalhar com pouco para atingir o máximo possível desse pouco. A opção pelo pouco parece ser sensata, evitando que haja dispersão em relação à ideia motriz do projecto e propicie a concentração no que é essencial à concretização da ideia principal. Em suma, a complexidade na arquitectura de Sou Fujimoto é investigada por gestos simples.
Ambiguidade;
Chegado a este ponto da dissertação é já evidente que a ambiguidade é uma das maiores qualidades que Sou Fujimoto preza na arquitectura. Como se viu são vários os meios utilizados para o conseguir, um deles é a simplicidade. Interessa pois perceber de que modo a simplicidade gera ambiguidade. Mas antes e para que não haja duvidas, convém deixar claro que:
la arquitectura no puede ser en ningún caso ambigua, pero, en cambio, puede surgir una ambigüedad positiva cuando los seres humanos interactúan con la arquitectura. La arquitectura,
que es algo coherente, hace realidad la ambigüedad 91
Na arquitectura dele existe uma supressão dos típicos elementos arquitectónicos em favor de uma nova ideologia de concepção do espaço que constrói esses mesmos elementos de modo mais primitivo e culturalmente abstracto. Como consequência, quem entra no espaço desenhado por ele vê-se muitas vezes privado de referências a que estava habituado ver na arquitectura convencional. Perante isto gera-se uma situação de dúvida e hesitação no individuo no que concerne ao modo de agir perante a ambiguidade do cenário. Esta é uma ambiguidade positiva que faz com que perante a falta das coisas que já se conhece e já se sabe para que serve e como se utiliza o individuo tenha que recorrer ao seu instinto. É então que a arquitectura na sua diversidade de propostas transmite estímulos que vão ser sujeitos à livre vontade dele.
Silêncio da arquitectura;
... acho muito bonito construir um edifício a pensa-lo a partir do silêncio, ou seja faze-lo calmo, o
que hoje em dia é bastante difícil, porque o nosso mundo é tão barulhento. 92
A simplicidade na arquitectura de Sou Fujimoto visa apagar o edifício enquanto elemento físico para dar ênfase ao edifício enquanto meio capaz de proporcionar uma experiência àquele que estiver disposto a usufruir. Para que isso aconteça a arquitectura silencia-se na simplicidade das suas formas para que o foco da atenção recaia sobre as relações que ela ousou criar e sobre os efeitos positivos que se geram no contacto directo com ela. O fascínio pelo edifício fica assim adiando até ao momento em que tem inicio a interacção entre corpo e arquitectura e se descobre múltiplas possibilidades ao dispor.
Este silêncio que atravessa a experiência arquitectónica não nega nem se opõe à complexidade e pluralidade da realidade, torna-a neutra para aceitar toda a instabilidade e todo o individualismo da realidade contemporânea. Este também é um silêncio intencional e momentâneo das estruturas de significação que regem a cultura e a linguagem, para que a experiência proporcionada pela arquitectura seja conduzida pelo instinto. Afirma-se como um apelo a uma pausa mental que pelo facto de ser menos plena em sentido a torna mais rica em sensações.
O silêncio traduz-se em algo mais para além da depuração formal, da simplicidade geométrica dos seus elementos, da ausência de distracções ou apontamentos supérfluos; Ele está presente na sensibilidade do arquitecto ao desenhar com as medidas do corpo humano para que entre corpo e arquitectura haja harmonia e ao desenhar relações pacificas entre compartimentos; Ele está presente na poética sensível do uso da natureza que equilibra o rígido e rigorosamente geométrico com o tronco (im)perfeito e orgânico. Esta é uma simplicidade que se traduz em silêncio, que não é meramente linguístico mas também fenomenológico.
O projecto que remata este capítulo não é da autoria de Sou Fujimoto mas de um colega seu cujo trabalho tem sido acompanhado atentamente pelos meios de comunicação dedicados à divulgação da arquitectura contemporânea. Este trabalho consta aqui porque expressa de uma forma sintética o que se tentou abordar em texto.
92 MACHABERT Dominique, BEAUDOUIN Laurent. Álvaro Siza: uma questão de medida. Casal de
¦ Kait Workshop ¦
Junya Ishigami + associatesNeste projecto a simplicidade é notória pelo modo como arquitecto se serve do elemento coluna, e realiza um exercício de composição de um espaço de trabalho. No total são trezentas e cinco colunas, todas de secção diferente, que suportam a cobertura e estão aleatoriamente dispersas por uma área quadrangular de quarenta e cinco metros de lado. Contudo, a sua colocação no edifício é aleatória apenas na porção do espaço que foi destinada previamente pelo arquitecto. Ou seja, existe uma ideia de zonas funcionais e da sua localização no espaço e é com base nisto que se desenha a disposição das colunas no edifício. Assim sendo, os pilares são distribuídos do seguinte modo: os mais afastados como proporcionam mais área livre, definem zonas de trabalho, enquanto que os menos afastados significam menos área livre e definem zonas de passagem. Este processo de construção e definição de zonas utilizando um elemento só, o pilar, assemelha-se a desenhar por pontos: nas zonas que queremos mais escuras, fazemos muitos pontos e mais próximos, nas zonas mais claras, menos pontos e mais distantes. Assim sendo, as zonas escuras, corresponderiam aos espaços de circulação, enquanto as mais claras aos espaços de trabalho.
O edifício é um espaço só e não existem limites no seu interior; existem sim, zonas mais densas e outras menos densas. A proximidade dos pilares dá-nos pistas subtis da localização das zonas, sem criar rupturas, o que permite criar fluidez na transição entre zonas mas sentir que estamos a abandonar uma zona e a entrar noutra pela proximidade entre pilares. Este é um limite demorado. Cada apoio tem uma forma, espessura e orientação diferentes e a distância entre eles varia o que torna qualquer porção de espaço irrepetível. O edifício assemelha-se a um bosque de pilares onde cada pessoa, a cada dia, percorre um caminho diferente pois não existem limitações ao vaguear. Várias são as utilizações que se dão a este espaço onde o mobiliário tem um papel preponderante na definição dessa função, pelo que tudo muda quando muda o mobiliário. Não existe um modo certo de o colocar no espaço, pois todas as orientações são possíveis, mas conforme os apoios, deve-se tentar a mais adequada. Nesta arquitectura, cada pessoa, ou um grupo delas, é impelida a definir as condições que mais lhe aprouverem com os objectos que conseguirem deslocar para a sua zona de trabalho. Levantam-se barreiras com estantes e moveis se assim se quiser, definindo pequenas zonas de trabalho, imprimindo no interior do edifício orientações e constrangimentos para quem o usa.
Conclusão
Este capitulo foi construído sob a forma de maqueta, uma expressão criativa e experimental de alguém que ao longo do trabalho de investigação se sentiu impelido a pôr em prática os ensinamentos que adquiriu. A ideia de concluir a dissertação com recurso a uma das mais úteis ferramentas de trabalho do arquitecto, maqueta, surge da necessidade de clarificar aqueles momentos introspectivos que com alguma regularidade, pela força das palavras lidas ou escutadas, transportaram o receptor por imagéticas soltas sem sentido claro. Era uma mistura de ideias, experiências espaciais e de formas arquitectónicas, mais ou menos detalhadas, que pairavam na cabeça e que exigiam ser testadas em maqueta. Cabe ao espaço abstracto confinado por paredes de cartão revelar a potencialidade do que foi surgindo na mente enquanto hipótese de espaço doméstico ou meramente enquanto ideia fértil capaz de produzir estímulos para a realização de novas formulações.
Os conceitos teóricos estudados criaram impactos diferentes no estudioso, dos quais se destacaram alguns com especial incidência: a) A Arquitectura enquanto dispositivo de apelo à sensibilidade humana e forma audaz de convite ao uso do instinto; b) O edifício como experiência libertadora de vivência do espaço à margem de padrões comportamentais; c) A mudança na hierarquia de importância dos vários elementos como agente de definição do projecto de arquitectura; d) A Arquitectura como uma rede relações entre partes; e) A natureza como musa da forma poética do edifício e modelo capaz de proporcionar uma vivência espacial intensa; f) O equilíbrio entre natural e artificial como tema de reflexão na concepção dos espaços de habitar; g) A simplicidade dos gestos, da forma e da ideia, como condição essencial para atingir a complexidade das coisas, A tradução em massa crítica de algumas das ideias despoletadas foram desafios que se propôs abordar criativamente como exercícios de projecto abstracto em que se optou por retirar da equação constrangimentos normalmente associados à prática de projecto, nomeadamente o lugar e o cliente, para se centrar sobretudo na ideia e na vivência do espaço.
Ao longo da formação na faculdade, o lugar tomou sempre uma importante presença no projecto de arquitectura, mas neste exercício a proposta é construir sem lugar. A experiência do Japão ensina com grande clareza que o lugar não é uma entidade fixa e intocável podendo ser alterada e ver mudadas as suas condições de vizinhança. Esta noção advém da realidade urbana japonesa que está em constante mutação, pois são poucos os pontos que se mantém petrificados durante muito tempo. Independentemente da razão, o que é facto é que os edifícios são considerados pelos
japoneses como algo efémero, construídos apenas para um determinado momento da sua vida, o que dá origem a uma sequência rápida de construção e demolição. Perante a ausência de amarrações estáveis na vizinhança para que se possa estabelecer uma relação dialogante, os arquitectos optam por projectar sem congestionar a sua obra por razão dos edifícios vizinhos, mas antes com a cidade, entendida por vezes como entidade una. O facto dos edifícios serem projectados para um curto período de vida e de não terem que se coagir pelo contexto tem vantagens nomeadamente para o arquitecto que se liberta de parte do peso do acto projectar e se vê livre para organizar o espaço arquitectónico quase exclusivamente em linha de conta com as circunstâncias exigidas na realização plena do conceito.
O cliente é alguém incógnito, anónimo, uma vez que este é um exercício abstracto de aplicação prática de algumas ideias. As maquetas são sobretudo habitadas pela ideia que guia e transforma a maqueta à sua imagem. Perante o cliente genérico e impreciso, a casuística convencional associada ao programa deixa de existir, para dar lugar a um vazio que só é preenchido posteriormente, numa etapa mais avançada de definição do projecto.
Depois de construídas as maquetas e em forma de balanço, nota-se que existe alguma contenção na forma final, pouco radical, se comparado com os projectos que se estudou ao longo do trabalho. Na tentativa de encontrar a razão achou-se que a mais próxima da realidade seria talvez aquela que vê a aprendizagem académica como factor que na hora de tomar opções, coage. Isto significa que existem pressupostos que são difíceis de abdicar e esse talvez constitua o maior desafio: o de conseguir fazer uso dos conceitos suscitados por Sou Fujimoto na formulação de projectos sem por em causa uma vivência confortável do espaço à luz dos padrões culturais da nossa sociedade.
As maquetas são sobretudo experimentos de propostas de vivência do espaço doméstico pouco convencionais, que por vezes se tornaram contraditórios ou excessivos porque se quis experimentar compulsivamente, sem estar preocupado com o equilíbrio final do produto apresentado. Apesar do esforço, muitas ideias ficaram por experimentar e outras hipóteses de abordagem também, mas a reflexão que se fez ficou gravada e surgirá em tempo oportuno.
Cada projecto, quanto mais radical e conceptual resultar, significa que serviu para investigar
questões teóricas do habitar 93
Proposta 1
Esta maqueta foi concebida como exercício de projecto de uma residência de estudantes inserido na disciplina de PROJECTO 2. Esta maqueta destaca-se pelo modo como a área total do pavimento do piso do rés-do-chão, que inclui sala, cozinha e casa de banho, foi dividido em patamares colocados a níveis diferentes com intuito de criar diferenciação de zonas.
Esta, de todas as maquetas que vão ser expostas nesta dissertação, é a única que foi construída antes do período de pesquisa e análise do pensamento de Sou Fujimoto. No entanto, ela expressa algumas das suas ideias e, inclusive, apresenta semelhanças com alguns dos seus projectos, o que justifica a sua presença nesta lista.
Proposta 2
A forma deste edifício é distinta da comum forma de uma casa. Criada propositadamente assim, sem vincos nem vínculos, quer de significações quer de contexto, com o intuito de ser uma forma universal que possa ser introduzida em qualquer lugar. Este é um projecto que nasce da ideia de uma habitação prefabricada com vista a ser exportada para qualquer parte e que, por isso, é construída centrada em si mesma e indiferente a acontecimentos externos a ela. A outra razão que justifica os seus contornos orgânicos é o repetido exercício que tantas vezes actualmente se faz: construir um edifício em parte sustentável. Com recurso ao senso-comum e a algum prévio conhecimento da trajectória do sol tentou-se aproximar o desenho da curvatura (perpendicular ao sol) a uma forma eficaz de aproveitamento da luz solar, recolhida por um sistema de painéis solares colocados na superfície. No entanto, o invólucro não obedece somente a critérios exteriores ao edifício, ele também foi pensado como estrutura de planos horizontais em que é possível ter algum tipo de interacção.
Com base nos critérios acima indicados, a carapaça toma forma, enquanto no interior a lógica de composição do espaço se baseia em vários módulos em forma de cubo com 2,8 metros de aresta, que se vão associar aos pares para configurar os compartimentos indispensáveis do espaço doméstico. No desenho do interior do edifício optou-se por definir um espaço central para o qual os compartimentos comunicam e em torno do qual se fixam mas são possíveis outras configurações. Da organização desses módulos pela área disponível confinada pelo invólucro ficam a sobrar zonas, que, sem estar definidas, localizam-se na extensão dos compartimentos, podendo ser usadas de formas diferentes em associação ou não com aqueles espaços que previamente foram definidos. A necessidade de mediar o invólucro com os módulos exigiu que se reduzisse ao mínimo o espaço dedicado a determinada função para que houvesse espaços de transição entre eles. Este é um projecto que suscita uma reflexão sobre o facto de por vezes as exigências à forma exterior e interior obedecerem a critérios dispares o que provoca a sua desintegração. Neste projecto tentou-se mediar este conflito directo da linha curva ininterrupta em voltas sucessivas e a linha recta em três direcções ortogonais entre si, com especial atenção para os momentos em tensão, que contém um potencial qualitativo em termos espaciais grande, se devidamente controlados.
Proposta 3
Este projecto pega no elemento arquitectónico escada e no acto de subir e descer comummente associado a ela, para repensar o modo como este elemento se insere no edifício e para revelar o seu potencial quando pensado de um ponto de vista diferente do estritamente convencional. Para isso, retira-se do sitio que geralmente remetemos na casa e inicia-se o projecto a partir dela com o mote: uma escada para ser habitada. O projecto ganha forma e a escada transforma-se numa cadência de patamares, interrompidos pontualmente por volumes que interceptam a estrutura para dar ao edifício lugares amplos para funções específicas do habitar.
Da forma da maqueta entendeu-se, à semelhança do que Sou Fujimoto faz nos seus projectos, estabelecer um paralelo com a natureza. A montanha foi a sugestão figurativa mais aproximada e foi a partir dela que se construiu um enredo que exalta a sensação de continuidade criada entre o plano horizontal e a superfície inclinada que o intercepta e que permite que em contínua passada se consiga chegar ao cume. Durante a subida, existe um conjunto de lugares (cavernas, depressões, conjuntos rochosos) que chamam à atenção e que são possíveis de ser habitados. Todos eles se ligam pela superfície inclinada e enquanto subimos e descemos ou mudamos de lugar temos uma experiência variada de relacionamento com o totalidade do espaço.
Em termos de forma, o resultado final assemelha-se a um paralelepípedo a que foi retirado um prisma triangular deitado sobre uma das faces rectangulares. No lugar do prisma, plantou-se um jardim por onde se faz a entrada da casa e sobre o qual os compartimentos pairam suspensos. O jardim é vivido intensamente porque fortemente presente no centro do edifício que o envolve e o absorve para si.
Duas sensações simultâneas sentem-se neste edifício: o de viver numa casa suspensa sobre o jardim que cresceu no seu âmago e ao mesmo tempo numa encosta de socalcos com saliências e