Dos cartórios da Ordem Beneditina ao Real
ABSTRACT
This article deals with the bibliophile vein of Francisco de São Luís Saraiva, evidenced since his entry into the Benedictine Order, at the age of 14, and his journey through the libraries and archives of the Order as a visitor and archivist, until his appointment as Guardian of The Royal Archive of Torre do Tombo. This experience, as well as his devotion for historical research, based on the documents of the monastic archives, allowed him to know the state of these archives, which led him to express a constant concern with the facilities, the conservation and the “arrangement” of the records.
KEYWORDS: Cardinal Saraiva; Torre do Tombo; Archives of the Benedictine Order.
Introdução
Nascido em Ponte de Lima, em 26 de janeiro de 1766, Frei Francisco de São Luís Saraiva ingressa na Ordem Beneditina com apenas catorze anos de idade, tendo desde logo sido aproveitado como bibliotecário daquela casa.
Desde cedo evidenciou um espírito empreendedor que o levou a tomar a iniciativa de estudar os princípios gerais da literatura e a fazer extratos de textos de poetas, oradores e historiadores com o intuito, segundo o próprio, de “confirmar na memoria as doutrinas, e os factos e ao mesmo tempo hir--me habilitando na arte de escrever, e de formar o estilo”1.
Em 1791 obtém o grau de Doutor em Teologia pela Universidade de Coimbra, vendo assim reconhecida a sua capacidade e labor científico2.
Efetivamente, a sua vida académica, enquanto estudante e professor, foi pautada por sucessivos triunfos, sendo prova disso o facto de ter inicia-do a sua carreira professoral, em 1788, antes mesmo de ter concluíinicia-do o doutoramento. Em 1789, decorrido apenas um ano sobre a aprovação no concurso de habilitação ao magistério doméstico da Ordem, é promovido a professor ordinário de Teologia no Colégio de São Bento de Coimbra. Foi
nas provas para opositor de Ciências Sacras4. Mas, só em 1817 entra no corpo docente da Universidade de Coimbra, tomando posse da cadeira de Filosofia Racional e Moral no Real Colégio das Artes, equiparado a lente substituto de Teologia5.
No início do século XIX é nomeado para cargos importantes que terão reflexo no seu percurso profissional, designadamente: companheiro do Dom Abade Geral do Colégio de São Bento de Coimbra, D. Frei José de Santa Rosa Vasconcelos (1801), abade do Colégio de São Bento de Coimbra (1804), visitador geral (1807-1810 e 1814-1816), e duas vezes cronista-mor do seu instituto religioso (a primeira vez em1807 e a última em 1819)6.
Em 21 de julho de 1821 é nomeado Bispo Coadjutor e futuro sucessor da mitra de Coimbra, cuja consagração teve lugar na Sé de Coimbra, em 15 de agosto de 18227, e por carta régia de 27 de agosto de 1821, é ainda nomeado para o cargo de Reformador Reitor, sucedendo a D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho. Prestou juramento em Lisboa, em 5 de setembro, e tomou posse em Claustro de 20 de outubro do mesmo ano. Foi exonerado do cargo por carta régia de 23 de junho de 18238.
O cargo de Reitor da Universidade de Coimbra contribuiu para que beneficiasse, à semelhança de outros monges, da autorização para ler e possuir livros proibidos concedida pela Real Mesa para o Exame e Censura de Livros, cujo propósito consistia em “controlar o que a população podia ler sem que os seus espíritos fossem perturbados por fórmulas novas aten-tatórias do poder político vigente, ou subversivas em relação aos valores da moral católica”9.
A sua veia bibliófila terá tido início na biblioteca do Mosteiro de Tibães10, onde procedeu ao arranjo e à catalogação da livraria, dos manuscritos e
4 RAMOS, 1972: 60.
5 CARDOSO, 1995: 38.
6 DIAS, 2017: 21; MÓNICA, 2004: 588.
7 RAMOS, 1972: 122.
8 MORAIS, 1951: 61.
9 CARDOSO, 2013: 371.
10 A Biblioteca do Mosteiro de Tibães, uma das mais importantes da Província de Entre Douro e Minho, constituída por cerca de 25000 a 30000 volumes ou tomos, situava-se num local bem iluminado e “era protegida por um sistema de segurança a quatro chaves distribuídas pelo Abade Geral, Prior, Bibliotecário [e] pelo Principal Frei Manoel de Ascensão”. Entre o mobiliário existente, destacam-se umas estantes fechadas “destinadas a manuscritos do mosteiro e de outros cenóbios beneditinos, outras abertas para depósito dos livros que, no virar do século, eram já muitos” e, ainda, de uns gavetões “onde se guardavam os papéis avulsos, conclusões, ou programas
científi-obras raras11, passando pelas bibliotecas do Mosteiro da Batalha, do Mosteiro dos Religiosos Paulistas da Serra de Ossa e do Mosteiro de São Bento da Saúde, onde “por entre os vetustos in-folios das bibliotecas monásticas converteu em sábias colheitas a fertilidade dos arquivos”12.
Não nos cabe aqui traçar o percurso político de Frei Francisco de São Luís, contudo não podemos deixar de referir que este sempre defendeu fielmente os ideais liberais, insurgindo-se contra o absolutismo monárquico de D. Miguel.
As suas convicções políticas levaram ao seu desterro para o Mosteiro da Batalha, após a Vilafrancada e a consequente queda da Constituição de 1822 e, pos-teriormente, em 7 de julho de 1828, após a aclamação de D. Miguel, foi arrancado de sua casa, na sua terra natal, para o exílio no Mosteiro de Religiosos Paulistas da Serra de Ossa13, onde se mantém, em condições lamentáveis, até à Convenção de Évora Monte, assinada em 26 de maio de 1834.
Os cerca de seis anos em que esteve exilado na Serra de Ossa (entre 1828 e 1834) foram os mais frutíferos a nível intelectual, em que passou grande parte do seu tempo ler e a escrever memórias literárias e históricas
“fazendo breves com a leitura as horas compassadas e longas do desterro”14. Grande parte do seu estudo foi dedicado à investigação histórica, nomeadamente à História da Igreja, à História da Ordem Beneditina e à História de Portugal, bem como à Diplomática e à Paleografia, o que em muito terá contribuído para a sua nomeação para o cargo de visitador.
Efetivamente, Frei Francisco de São Luís tinha nos arquivos as fontes de informação primárias a partir das quais “sumariava os extratos dos códices, depois de os exumar de pulverulentos sarcófagos, numa impávida sanha de lutador”15. Contudo, a leitura, interpretação e análise crítica dos documen-tos originais, como fontes autênticas para a (re)construção da história nacio-nal, exigia forçosamente conhecimentos de Paleografia e de Diplomática16.
11 Em 1798, Frei Bernardo da Esperança Teles, Abade Geral de Tibães e da Congregação Beneditina Portuguesa (1795-98), incumbiu a Frei Francisco de São Luís a organização do catá-logo da Biblioteca de Tibães, que contava com 3.357 títulos e mais de 4.000 volumes. (COELHO, 1873: 148-149).
Coube-lhe, ainda, a elaboração do catálogo dos manuscritos e obras raras da livraria do
Assim, no início do século XIX, enquanto percorria as livrarias (biblio-tecas) e os cartórios (arquivos) dos mosteiros da congregação em benefício da sua instrução, decidiu melhorar os conhecimentos que possuía em diplo-mática geral e particular portuguesa.
Tinha na sua Ordem os maiores mestres da Diplomática, entre os quais Jean Mabillon, autor da obra De Re Diplomatica Libri VI, publicada em 1681, na qual estabelece regras precisas para a verificação da autenticida-de dos documentos, promulgando, assim, uma nova ciência que viria a ser designada por Diplomática, cujo intuito consiste em distinguir os documen-tos autênticos e genuínos dos documendocumen-tos falsificados ou suspeidocumen-tos de tal17. Mas, para o efeito, contou com o apoio do grande diplomatista e lente da Universidade de Coimbra, João Pedro Ribeiro, que lhe despertou interesse “na decifração dos gregotins e garabulhas dos velhos diplomas da história de Portugal, subministrando-lhe diversos extractos e íntegras do Arquivo Nacional da Torre do Tombo”18.
Frei Francisco de São Luís sabia ler “as caligrafias medievais e quinhen-tistas, prezava a matéria e o seu cultivo científico”19 e o seu reconhecimen-to como paleógrafo e diplomatista evidencia-se na correspondência troca-da com João Pedro Ribeiro e Frei Bento de Santa Gertrudes acerca de questões paleográficas20.
A sua dedicação ao estudo da Paleografia e Diplomática foi ainda mais importantes se consideramos que a Lei de 21 de fevereiro de 1801 estabe-leceu que apenas poderiam desempenhar funções no Real Arquivo da Torre do Tombo aqueles que tivessem frequentado com aproveitamento as aulas de Diplomática, durante pelo menos um ano21.
Apesar de serem inúmeros os cargos distintos para os quais foi suces-sivamente nomeado ao longo da sua vida e que sempre exerceu com gran-de afinco, sentido gran-de responsabilidagran-de e patriotismo, aquilo que se preten-de aqui realçar é o espírito inquieto, inconformado, dinâmico e, simultanea-mente, paciente com que empreendeu as suas funções em prol do bom funcionamento e conservação dos arquivos e bibliotecas.
17 FREITAS, 2011: 10.
18 FERREIRA, (s.d.): 8-9.
19 RAMOS, 1972: 289.
20 Veja-se MATTOSO, José – Correspondência diplomática de Fr. Bento de Santa Gertrudes, João Pedro Ribeiro e Fr. Francisco de S. Luís. Lusitania Sacra. Volumes 1 (1956: 261-293), 2 (1957:
295-314), 3 (1958: 257-305), 4 (1959: 275-295) e 5 (1960-1961: 257-302).