Deixa pra lá o bem falá.
ARESTAS RABISCOS RASCUNHOS FIM DA PAUSA.
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Diário
Anotações no caderno. 2005.
Anotações no caderno. 2009.
Anotações no caderno. 2012.
2005Sobre o que quero quando começo a me mexer.
Caminhe pelo espaço. Escolham um ponto do pé. Agor, joguem o peso da caminhada para este ponto. Deixem fluir. Ok. Troquem o ponto. Novo corpo. Experimenta. Deixem fluir. Cuidado com a careta, Liana, não tensione tanto seu rosto. Melhor. Acelerem um pouco. Agora, achem qual o limite deste corpo modificado na sua caminhada.
22 anos, nutricionista, barracão das Cênicas, Unicamp, calor, desconhecidos, suor, ansiedade. Tensão no rosto.
Sonho com aquele dia em que foi muito gostoso fazer teatro. Não este dia da caminhada, em que eu não entendia bem o que estava acontecendo, mas o dia em que me livrei de ser nutricionista e tornei-me atriz. Foi sem mais nem menos. Como um acidente, como a sorte, como a morte. A nutrição virou um passado muito distante, uma vida passada e eu estava atriz, de uma hora pra outra. Não uma boa atriz. Eu nem sabia nada de nada. Sabia de chorar, sabia de escrever livros para ninguém, sabia de ouvir música de 50 anos atrás e achar que cantava, sabia dessas coisas de quem ama
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platonicamente o mundo da arte. E quando a arte respondeu à minha piscadela, mandou-me um sorriso, eu me larguei em seus braços. E virei atriz. Lembro de que faria qualquer coisa para estar em cena. Lembro de que não me importava qual seria o texto, qual seria o diretor. Lembro-me de ir ao Teatro e querer gritar.
Caminhem. Continuem. Não simulem.
A dança que “dancei” no dia em que virei atriz me veio à mente. Eu dancei algo estranho, comecei a falar entre os movimentos. Eu me lembrei disso. Desse exato momento. E continuei caminhando. Teve um dia em que, em meu quarto, eu estive com o corpo conectado, mas eu descobri isso depois, na Unicamp, quando estava desconectada. Quando estava caminhando pelo espaço, com muito calor e o rosto tenso. Continuei caminhando. Como recuperar aquele corpo que dançou escondido no quarto? Eu queria aquilo de novo e sempre. Como não tensionar o rosto, não revelar a procura do que já esteve em mim? Continuei caminhando. Com a mente no passado, eu me esqueci do ponto no pé e meu corpo logo se desfez. Estava com meu corpo novamente no cotidiano, em uma caminhada trivial. Pensei que aquele era o corpo que eu caminhava quando estava indo para a faculdade que não queria fazer, caminhei mais rápido. Então me veio o cheiro, me veio a música que eu ouvia, me veio o sol, o vento frio. E eu caminhei. Meu pé estava encontrando um novo ponto de apoio. (Estranho como algumas coisas acontecem tão simultaneamente que a gente não percebe a ordem delas). E ali, logo abaixo dos dedos, apoiando meu corpo nas pontas dos pés, continuei caminhando. A imagem continuava. Era o sol, o vento, frio, a música da Elis. Eu não sei bem onde ia. Já não era tão óbvia a minha “fábula”.
Bom, Liana, está no caminho. Disse o professor.
Meus olhos encheram-se de lágrimas. Que bobagem emocionar-me por uma coisa dessas, mas foi assim. Eu fiquei muito emocionada por descobrir que eu poderia continuar sendo o que sempre fui e ser atriz. Descobri que o ponto de tensão nos pés era enorme desculpa para que eu lembrasse que tenho corpo, que respiro, caminho e
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vivo. E que tudo aquilo era uma intensificação da própria vida, mas o corpo durou pouco. Dancei no quarto por um instante e voltei à tensão no rosto. E volta tudo outra vez. E começa de novo. Naquele dia e para sempre.
2009
Escritos durante aulas da Pós-Graduação
(Engraçado que, quando penso em silêncio, me vem mais a imagem de um cego do que de um surdo. Imagino que essa associação acabe sendo uma constatação prática de que não são somente as palavras e o discurso verbal que significam. As coisas também "falam" e por não codificarem a fala, acabam significando de forma muito mais caótica, mais difusa. Mas, em contrapartida, existe um momento em que os elementos desse caos combinam-se de tal maneira que tudo fica suspenso e silencia. De que (ou quem) depende isso afinal? Será o silêncio, pura e simplesmente, uma questão pessoal e subjetiva? Um movimento dos sentidos em você e não em todos? O apaziguador, o aterrador, o sublime, desolador, nostálgico, suspenso, flutuante está em cada um?)
(Boca: habitação supervalorizada, mas passageira, efêmera, lugar de transição, limbo das palavras. As palavras importam menos para a boca do que para o ouvido. Humildade de delineá-las a outros, também para leigos desconhecedores de seu intrincado universo interior. Falar para o ouvido dos outros, fazer da boca um escorregador perfeito, seja para escorregar pena ou pedra, gota e cataratas. Seja para não escorregar nada. De nada adianta pensar cataratas e expressar gotas. De nada adianta ser deserto e desembocar discursos vazios feitos de água que não mata a sede. Ser feito de silêncio. Aprimorá-lo. Deixar que palavras brotem, que cresçam, mas que nunca se esqueçam de onde vieram, onde estão suas raízes enormes, infinitas, regadas por coisas que não têm nome e devem permanecer assim.)
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(Sinto falta das palavras piegas, fora de moda, movidas antes pela paixão do que pelo embasamento teórico. Sinto falta de magia e sobrenatural ao tratarmos da nossa arte. Sinto nostalgia do tempo que não vivi, do tempo em que a arte não precisava dar satisfação a ninguém.)
(Deixemos que a arte seja confusa e suja. Que seja ruidosa e atrapalhe. Que seja impossível de domesticar. Que nos escape a todo instante. Que seja um ser imaginário que habita o mundo mágico. Não tentemos capturar a Arte como se captura uma borboleta de asas luminosas para que brilhe para os outros por meio de nós e mais ninguém. Dancemos em um campo de borboletas sem asas. Façamos, com a nossa dança, as asas luminosas das borboletas e as deixemos partir. Libertemos as borboletas e fiquemos nós sem asas para mergulharmos no abismo e sermos somente um grito de adeus.)
2012
Do sonho que tenho
Hoje, sonhei que estava vendo uma peça. Mas, de repente, eu não estava sentada e sim no palco. Sem saber o que fazer, acordei aos gritos. Tenho esse sonho desde criança.
Hoje, contei o sonho para meu marido. Ele me disse que é um sonho do Kafka. Que o Kafka também tinha esse sonho.
Esse é o sonho do Kafka. Mesmo sendo meu sonho desde criança.
Entro em uma peça e tenho vontade de gritar. Qualquer peça. Tenho uma vontade quase incontrolável de gritar.
Conversei com uma amiga. Ela também tem.
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Afinal, para que eu preciso estar em arte, se acho para tudo que faço um correspondente imediato? Qual a força de minha arte? Qual a força de minha presença viva no teatro?
Os sonhos são do Kafka. E Kafka roubou meu sonho de criança. E mesmo que pareça a todos que este roubo foi meu, eu sei que de nada adianta meu sonho de infância se ele já foi sonhado (reconhecido, descrito, consagrado) por Kafka. E ele, morto há décadas, conseguiu roubar meu sonho de ontem.
E assim como o sonho, roubam-me os gritos, roubam-me as ideias, roubam-me os papeis clássicos que sempre quis fazer e roubam-me a certeza de que sou necessária. Roubam-me o tempo. Eu continuo chegando em último lugar. Foram mais rápidos. Roubam-me a identidade. Para que prosseguir sem se saber necessária?
Alimento minha filha, protejo-a. Conto-lhe histórias. Vejo-a crescer com olhos curiosos. Estou feliz por ela se parecer comigo. Renovo meu olhar. Eu tenho olhos curiosos e tristes. Roubaram-me a novidade e o frescor dos olhos que tinha. Roubam-me a juventude.
Respiro.
Uma canção.
Uma dança.
Um colorido de palavras.
Leio este texto em voz alta.
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Minha voz está ao meu lado e nem consegue dar força às palavras de desistência.
Tenho minha voz para contar meu sonho e também o sonho de Kafka.
Quero um foco, um palco, um sonho.
Se acordo gritando do sonho do Kafka, é porque sei que minha voz é a solução.
Só me desespero por que não tenho no sonho o meu som. Sou muda, sou ideia, sou corpo morto, sonhando adormecido.
Mas me deixem desperta, com voz e corpo, invertam a palco e terei o que fazer.
Não tenho o mesmo sonho de Kafka. Ele é meu. Se nós dois estivéssemos no mesmo palco sonhado, teríamos vozes diferentes, inconfundíveis. Mas os corpos metafísicos são iguais. E roubam minha certeza.
Esta voz aqui não. Nem este corpo.
A ideia da voz desespera. As palavras escritas são todas iguais. Elas têm uma voz muda da cabeça. Roubam-me as palavras, mas não podem roubar-me a voz. Pois é o que, de fato, me pertence. O resto são ideias soltas. Cães sem dono (mesmo que com coleiras de identificação).
E por isso que minha certeza de fazer teatro dura apenas um instante: o instante em que faço.
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