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2. Estado do conhecimento

2.3. Argamassas de Cal

Designação genérica para argamassas que utilizem este material como ligante. A cal é obtida através da cozedura de pedra de calcário ou dolomite. A parte um da norma NP EN 459 (IPQ 2011) - Cal para construção, definições, especificações e critérios de conformidade; divide a cal para construção em duas categorias principais: Cal aérea, sem propriedades hidráulicas; Cal com propriedades hidráulicas. A cal aérea é obtida de calcários puros (< 5 % argila e outras impurezas) enquanto a cal com propriedades hidráulicas é tradicionalmente obtida através do processamento de calcários com 8 - 20 % de argila e outras impurezas. A parte dois desta norma aborda os métodos de ensaio para a classificação de ligantes.

2.3.1. ARGAMASSAS DE CAL AÉREA

As altas temperaturas provocam a dissociação de compostos de carbonato de cálcio, e carbonato de cálcio-magnésio no caso da utilização de dolomite, com libertação do carbono para a atmosfera, resultando sobretudo em óxido de cálcio (CaO) e óxido de magnésio (MgO).

CaCO3+ Energia → CaO + CO2 (2.1)

Estes compostos vulgarmente referidos como cal viva, reagem quando hidratados, resultando em hidróxido de cálcio e hidróxido de cálcio-magnésio, vulgarmente designado por cal apagada.

CaO + H2O → Ca(OH)2 + Energia (2.2)

A cal apagada irá endurecer por reação com o carbono da atmosfera, resultando novamente em carbonato de cálcio, água e libertação de energia (COUTINHO 1988). Este processo depende da penetração do dióxido de carbono (CO2) na argamassa, e desenvolve-se lentamente.

Ca(OH) 2 + CO2→ CaCO3 + H20 + Energia (2.3)

É usual dividir a cal aérea em duas categorias, consoante o seu teor de argila e outras impurezas. Quando são produzidas a partir de calcário muito puros ( < 1 % de impurezas) originam cais denominadas gordas por apresentarem uma melhor trabalhabilidade. As cais obtidas de calcários com maior teor de impurezas ( 1 - 5 % ) designam-se por cais magras e usualmente apresentam um tom acinzentado.

2.3.2. ARGAMASSAS DE CAL HIDRÁULICA

As propriedades hidráulicas da cal estão associadas à presença de argila e impurezas que por calcinação a temperaturas mais elevadas (1000 / 1100ºC), originam composto semelhantes aos do clínquer, como o silicato dicálcico (SiO2. 2CaO) e aluminato tricálcico (Al2O3.3CaO).

CaCO3+ argila + Energia → CaO + Al2O3 + SiO2 + CO2 (2.4)

À medida que a argamassa seca, estes compostos hidratados cristalizam resultando num endurecimento inicial, que não ocorre nas argamassas de cal aérea. O restante endurecimento é conseguido à medida que se processa a difusão do CO2 e se desenrola a reação de carbonatação

(COUTINHO 2004)

2.3.3. ARGAMASSAS COM ADIÇÃO DE POZOLANAS

Define-se pozolana como material rico em sílica ou alumina sem características de ligante mas com a capacidade de reagir na presença de água à temperatura ambiente com o hidróxido de cálcio para formar aluminatos e silicatos (COUTINHO 1988).

A utilização das pozolanas remonta a tempos muito antigos existindo diversas provas arqueológicas da sua utilização em obras hidráulicas e outras. As civilizações mediterrânicas da antiguidade, empregavam cinzas vulcânicas na elaboração de argamassas para revestimento, impermeabilização e mesmo elementos estruturais. Os melhores exemplos da utilização de argamassas com pozolanas são a cúpula do Panteão em Roma e o porto de Cesareia na Palestina. Estão também documentados casos da utilização de restos de cerâmica reduzidos a pó, como substituto de cinzas vulcânicas.

Neste estudo, procurou-se obter resistências mecânicas maiores a idades mais jovens com a adição do material pozolânico, no âmbito da procura por dosagens de argamassa, com base em cal aérea, com maior aplicabilidade face às exigências atuais da indústria da construção.

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2.3.4. METACAULINO

O metacaulino é obtido pelo processamento de caulinite em fornos com rearranjo da sua estrutura química. Por exposição a temperaturas entre os 650 e os 700 ºC, os aluminatos e silicatos são desidratados num processo denominado desidroxilação (Figura 2.1). Resulta num material amorfo com grande reatividade pozolânica (COUTINHO 1988).

a)

b)

Figura 2.1 - a) Partículas de metacaulino observadas através de MEV (KIM 2012). b) Argamassa de metacaulino e cal aérea no estado endurecido observada através de MEV (CHAROLA 2005)

A caulinite está presente em diversos países como, Portugal, França, Brasil e China. Sendo tradicionalmente empregue na produção de porcelana, o potencial de complemento de ligante na produção de argamassas e betões levou ao início de vários projetos de investigação para a determinação rigorosa das suas propriedades e aplicações. O projeto FCT-METACAL insere-se neste conjunto de iniciativas.

Para além da utilização como adição pozolânica, está a ser estudada a eficácia do metacaulino no controlo da reação alcalino-sílica no betão, como acelerador das reações de hidratação, para a obtenção de materiais mais densos com introdução das partículas de metacaulino nos espaços vazios da argamassa (betões de alto desempenho e efeito de filler). São também conhecidas as vantagens da incorporação deste material em betões de cimento, para controlo da reação expansiva alcalino-sílica com consequente melhoria da durabilidade do material (GRUBER 2001).

2.3.5. ARGAMASSAS DE CAL AÉREA COM ADIÇÃO DE METACAULINO

Como já foi referido a utilização de argamassas de cal aérea apresenta diversas vantagens, nomeadamente na área da reabilitação. O principal entrave a uma maior utilização destas argamassas deve-se à lentidão do processo de endurecimento que está associado à difusão de C02

no interior da argamassa.

A utilização das propriedades pozolânicas do metacaulino poderá compensar esta desvantagem conferindo resistências mecânicas significativas ao fim de pouco tempo. Desta forma

permite-se a utilização de uma argamassa com menor energia incorporada, em situações onde usualmente se empregariam argamassas de cimento, devido à sua capacidade de endurecimento rápido. Esta aplicação seria de grande interesse para o aumento da competitividade das intervenções de reabilitação e poderia ser alargada a projetos de nova construção. Para tal é necessário aferir qual o efeito das dosagens e condições de cura, nas características das argamassas no estado endurecido em diferentes idades.

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