1.2 A reforma nos modelos processuais penais na América Latina
1.2.1 Argentina
A Argentina é uma federação que relançou a democracia em 1983, após um longo período de instabilidade política, que se iniciou com o golpe militar de 1930.
Nesse país vigora o sistema jurídico da civil law e adota um código de processo penal para cada uma das 23 províncias. Apesar de possuírem autonomia legislativa,
77 BRENTEL, Camilla. A disciplina da prova no processo penal argentino. In: FERNANDES, Antonio Scarance; ALMEIDA, José Raul Gavião de.; MORAES, Maurício Zanoide de. (coords.). Provas no processo penal – estudo comparado. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 84
78 LOPES, Mariângela Tomé. O sistema probatório no código de processo penal chileno. In:
FERNANDES, Antonio Scarance; ALMEIDA, José Raul Gavião de.; MORAES, Maurício Zanoide de.
(coords.). Provas no processo penal – estudo comparado. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 146.
devem respeitar os princípios fundamentais da Constituição Nacional, a constituição provincial e o respectivo código de procedimentos penais.79
Os códigos de processo penal possuem características fortes do sistema misto clássico composta por três fases processuais, sendo elas: uma fase investigativa pré-processual conduzida pela polícia judiciária, a instrucción (também chamada de investigación prévia ou sumário) e o juicio oral80.
O golpe militar se deu no dia 10 de Setembro de 1930 e teve a legitimidade do novo governo reconhecida pela Corte Suprema de Justiça da Nação. Durante o período de instabilidade foi sendo ampliado os poderes legislativos, que ocasionou a remoção dos juízes e funcionários judiciais e dos membros do Tribunal. Somados todos esses fatores resultou numa baixa confiabilidade nos membros Corte Suprema e no sistema processual penal adotado, tendo em vista a inconsistência das estruturas judiciais e legais adotadas.81
Em 1937 Amadeo Sabattini do Partido Radical, o então governador de Córdoba, constituiu uma comissão com o objetivo de elaborar um novo código de processo penal para essa província. Para ocupar essa comissão foram nomeados os professores liberais da Universidade Nacional de Córdoba: Alfredo Vélez Mariconde e Sebastián Soler.
O trabalho feito pela comissão se baseou no Código de Processo Penal italiano de 1913 e 1930. Apesar disso os juristas se preocuparam em analisar cada dispositivo, de forma crítica, com o intuito de atender as necessidades e realidades da província de Córdoba.
79 BRENTEL, Camilla. A disciplina da prova no processo penal argentino. In: FERNANDES, Antonio Scarance; ALMEIDA, José Raul Gavião de.; MORAES, Maurício Zanoide de. (coords.). Provas no processo penal – estudo comparado. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 81
80 BRENTEL, Camilla. A disciplina da prova no processo penal argentino. In: FERNANDES, Antonio Scarance; ALMEIDA, José Raul Gavião de.; MORAES, Maurício Zanoide de. (coords.). Provas no processo penal – estudo comparado. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 86
81 ACUÑA, Carlos H.; ALONSO, Gabriela. La Reforma Judicial en América Latina: Un estudio político-institucional de las reformas judiciales en Argentina, Brasil, Chile y México. Working Paper, Departamento de Humanidades. Buenos Aires: Universidad de San Andrés, 2003, p. 04.
Ao final esse novo Código de Córdoba demonstrou a intenção de seguir o modelo acusatório, ao estabelecer os julgamentos públicos e orais, ampliando os direitos da defesa na fase pré-processual, concedendo ao promotor atribuições investigativas na fase de pré-julgamento de infrações não graves. Apesar disso esse Código ainda manteve várias características do modelo inquisitório ao excluir os juízes leigos, adotar a regra da acusação compulsória e atribuir ao juiz a função de investigar as infrações graves na fase pré-julgamento.82
A intenção dos professores era de abandonar os antigos códigos, com viés inquisitórios, por estarem em desconformidade com a Constituição Argentina, que prega o fortalecimento da democracia, e com a tendência dos demais países da América Latina em adotar códigos que pregassem a adoção do modelo acusatório.
Por essas questões que ficou conhecido com o “códigos modernos” 83, até por isso foi utilizado como modelo para diversas outras províncias argentinas, tais como:
Santiago del Estero (1941), San Luis (1947), Jujuy (1950), La Rioja (1950), Mendoza (1950), Catamarca (1959), Salta (1961), San Juan (1961), Entre Ríos (1969), Corrientes (1971) e Chaco (1971) todas adotaram os “códigos modernos”84.
Na Quinta Conferência do Instituto Ibero-Americano de Direito Processual, o Código de Processo Penal de Córdoba foi reconhecido como modelo a ser seguido para os demais países da região. Em decorrência disso foi que a Costa Rica, em 1973, utilizou esse código como referência85.
Apesar do aval do Instituto, o Código somente não foi adotado pelo restante da Argentina e demais países da América Latina, em razão da instabilidade vivenciada no decorrer das décadas de 1950 até 1970.
82 LANGER, Máximo. Revolução no processo penal latino-americano: difusão de ideias jurídicas a partir da periferia. Revista da Faculdade de Direito da UFRGS, Porto Alegre, n. 37, p. 4-51, dez.
2017.
83 MAIER, Julio B. J. I Derecho Procesal Penal. 2. ed. Del Puerto, 1996, p. 422.
84 LANGER, Máximo. Revolução no processo penal latino-americano: difusão de ideias jurídicas a partir da periferia. Revista da Faculdade de Direito da UFRGS, Porto Alegre, n. 37, p. 4-51, dez.
2017.
85 MAIER, Julio B. J. I Derecho Procesal Penal. 2. ed. Del Puerto, 1996, p. 422.
A reintegração democrática, ocorrida em 1983, veio carregada de fortes expectativas em relação a atuação do Judiciário, uma vez que se esperava a validação dos direitos humanos e da sanção aos responsáveis por violações durante a ditadura militar anterior, a transição e o governo de Raúl Alfonsín. A partir de então a Argentina se deparou com um Poder Judiciário renovado, neutro quanto às influências militares.86
A primeira etapa na reforma do sistema de justiça argentino foi focada na atualização dos códigos de processo penal, que se deu em 199187, seguindo a tendência pela adoção do modelo processual acusatório de tradição garantista.88
Nesse código há a previsão do juiz, na instrução, produzir de ofício todas as provas que entenda necessárias para se alcançar a verdade real89.