CAPÍTULO 2 – A AUTONOMIA DO ARGUMENTO DA TERRA GÊMEA MORAL 62
2. Laurence, Margolis e Dawson
2.3. Argumento 3: a dificuldade de isolar as propriedades morais
O ponto central da terceira objeção de LM&D a H&T é a suposta dificuldade em se isolar as propriedades morais entre T e TG. Ou seja, manter que o uso de ‘correto-t’ e de
‘correto-tg’ é causalmente regulado por propriedades naturais diferentes e, ao mesmo tempo, preservar a similaridade exata entre T e TG no que diz respeito a todos os outros aspectos.
Como eles afirmam,
O simples fato de que seu sistema conceitual [dos habitantes de TG] é tão parecido com o nosso e de que eles compartilham nossos interesses sociais e culturais – tem governos, músicos de rock e assim por diante – certamente enviesa a interpretação de que seus termos morais devem referir as mesmas propriedades que os nossos termos morais. (LM&D, 1999, p. 160).
Como podemos notar, LM&D estão sustentando o seguinte: dado que T e TG são exatamente similares em tudo o que não diz respeito às propriedades naturais reguladoras do uso dos termos morais (compartilham amplo conjunto de interesses culturais, governamentais etc.), é difícil ver
‘correto-t’ e ‘correto-tg’ como não referindo as mesmas propriedades naturais. Essa comunalidade entre os dois planetas em quase todos os aspectos, enviesaria a intuição dos apreciadores do experimento mental em favor da IUS. De acordo com LM&D, o que parece dificultar o julgamento dos falantes é o fato de que em muitos casos as teorias de primeira ordem são coinstanciadas em T e TG, isto é, os particulares que realizam multiplamente a correção, por exemplo, são os mesmos se assumirmos o consequencialismo e o deontologismo.
Portanto, mesmo que a propriedade causalmente reguladora de ‘correto-t’ seja maximizar o agregado de felicidade apenas, os leitores não estão livres do fato de que tratar os outros como fins em si mesmos pode reunir o mesmo conjunto de instâncias, mesmo que tal propriedade não seja adotada como melhor teoria em T. Isso, argumentam LM&D, facilita o nosso juízo em favor de que ‘correto-t’ e ‘correto-tg’ são semanticamente unívocos. Para além disso, há uma
diferença para com o ATG original de Putnam aqui (LM&D, 1999, p. 160). No ATG, não há coinstanciação entre H2O e XYZ, ou seja, a ocorrência de ‘água’ em TG é captada apenas por XYZ enquanto em T é captada apenas por H2O e os leitores não tem motivos para supor que
‘água’ se refira a H2O em TG ou a XYZ em T. Ao não respeitarem a similaridade com o experimento original de Putnam, argumentam LM&D, H&T estão propondo um experimento mental com características filosóficas claramente não neutras.
Como nota Rubin (1999), ao considerarmos a objeção de LM&D é importante notarmos o seguinte: o juízo de que os termos morais de T e TG refletem o mesmo conteúdo não é um fato semântico assumido de antemão por H&T, mas um fato sobre a reação dos falantes ao considerarem o experimento. É a falta de atenção aos detalhes, digamos, que levaria os leitores a supor que, dado que os dois planetas são quase totalmente similares, o são também no que diz respeito à referência dos termos morais, pois, na realidade, assume-se na descrição do experimento que ‘correto-t’ e ‘correto-tg’ possuem referências distintas. Este é o ponto de LM&D21. Para tornar o ponto mais claro, poderíamos dizer que a explicação de LM&D para a IUS é de que há uma característica enviesadora da intuição, que é: em T há ocorrência de
‘correto-tg’ e em TG há ocorrência de ‘correto-t’ e isso confunde o juízo dos leitores. Já no experimento de Putnam, sustentam LM&D, não haveria tal característica.
Pois bem, isso implica que se tal explicação para a IUS fornecida por LM&D obtêm sucesso, se colocássemos a característica enviesadora da intuição em outro experimento (preservando os componentes relevantes), mesmo que fosse com termos não morais, deveríamos ter o mesmo resultado, ou seja, deveríamos ter uma espécie de favorecimento da intuição em direção à univocidade. Caso contrário, tal característica não é explanatória. Sendo assim, é possível construir um experimento alternativo para testar essa hipótese. Se houver enviesamento da intuição, assim como no experimento de H&T, então LM&D estão certos e a IUS pode realmente ser uma falha. Por outro lado, se não houver, então isso significa que a hipótese explanatória fornecida por LM&D não está correta.
Rubin (1999, p. 322-3) chama atenção para o fato de que o próprio Putnam tem uma variante de seu experimento original que pode ser usada para testar a hipótese explanatória de LM&D. Lembre que LM&D chamam atenção para o fato de que no ATGM, embora não haja
‘correto-tg’ em T ou ‘correto-t’ em TG, dado que a referência de tais termos é bastante similar,
21 É importante não confundir tal ponto com o insight que os próprios H&T querem extrair com o ATGM. Eles de fato argumentam que os termos morais dos dois planetas são semanticamente unívocos, mas isso se deve ao fato de haver um conteúdo não-cognitivo que é comum. Aqui, LM&D estão tentando fornecer uma explicação alternativa, isto é, como os falantes teriam a IUS mesmo na ausência da explicação não-cognitivista de H&T.
os membros de T seriam confrontados não apenas com instâncias de ‘correto-t’, mas aparentemente de ‘correto-tg’ também (e vice-versa). Já no ATG isso não seria o caso, pois os membros de T não têm familiaridade com XYZ e os membros de TG não tem familiaridade com H2O. Para testar a hipótese explanatória de LM&D precisamos de um caso em que, embora a referência dos termos em questão seja diferente em T e TG, os membros dos dois planetas estão de alguma forma familiarizados com a entidade que constitui a referência dos termos de T e TG.
Considere o seguinte. Há um planeta chamado Terra Gêmea que é uma réplica perfeita da nossa Terra exceto pelo fato de que os habitantes de TG usam o termo ‘molibdênio’ para todos os propósitos pelos quais nós, habitantes de T, usamos o termo ‘alumínio’. Putnam nos pede para supor que “o molibdênio é tão comum na Terra Gêmea quanto o alumínio o é na Terra e que o alumínio é tão raro na Terra Gêmea quanto o molibdênio o é na Terra” (PUTNAM, 1975, p. 225s). Além disso, devemos supor que alumínio e molibdênio são indiscerníveis em suas qualidades superficiais (tal como H2O e XYZ). No entanto, em T o uso ‘alumínio’ é causalmente regulado pelo elemento com número atômico 13 (Al) enquanto o uso de
‘molibdênio’ é causalmente regulado pelo elemento com número atômico 42 (Mo). Por outro lado, em TG o uso de ‘alumínio’ é causalmente regulado por Mo e o uso de molibdênio é causalmente regulado por Al. Isso significa que em T o uso de ‘alumínio’ é aplicado a Al e em TG o uso de ‘alumínio’ é aplicado a Mo.
Agora, note que, embora o molibdênio seja raro em T, ele está presente e que, embora o alumínio seja raro em TG, também está presente. Com isso, preservamos a similaridade com o ATGM em que, aparentemente, há ocorrência de ‘correto-t’ em TG e ‘correto-tg’ em T. Isso é importante pelo seguinte motivo. LM&D estão argumentando que a intuição dos leitores do ATGM é enganada pelo fato de que a propriedade que regula causalmente o uso dos termos morais estar presente em ambos os planetas. Nessa variante do experimento, de fato a propriedade que regula causalmente o uso de ‘alumínio’ em T (Al) está presente em TG e a propriedade que regula causalmente o uso de ‘alumínio’ em TG (Mo) está presente em T.
Assim, com a preservação da característica supostamente enviesadora da intuição, deveríamos ter o seguinte resultado: ao apreciarem o experimento, os falantes deveriam ter a intuição de que há univocidade semântica entre ‘alumínio-t’ e ‘alumínio-tg’. Mas, será este o caso?
Suponha que habitantes de T e TG se encontrem e se engajem numa discussão sobre se um determinado particular é ou não uma instância de alumínio. Os Terráqueos sustentam que x é alumínio enquanto os Terráqueos Gêmeos sustentam que x não é alumínio. Haveria
desacordo genuíno aqui? Parece claro que não. E isso se deve a uma intuição anterior. A intuição de que ‘alumínio-t’ e ‘alumínio-tg’ não são semanticamente unívocos. ‘Alumínio-t’ se refere a Al. ‘Alumínio-tg’ se refere a Mo.
A nossa intuição deveria ser de que ‘alumínio-t’ e ‘alumínio-tg’ são semanticamente unívocos, pois construímos um experimento mental que preserva a característica supostamente enviesadora da intuição, tal como proposta por LM&D. No entanto, tal intuição não parece estar presente. Portanto, a hipótese de LM&D não pode ser a melhor explicação para a IUS. E, na ausência de uma explicação alternativa melhor do que a proposta por H&T, isto é, que temos a IUS porque os termos morais compartilham um significado conativo, devemos permanecer com a primeira alternativa.
Diante dessas réplicas aos três argumentos desenvolvidos por LM&D, podemos concluir que o apelo para as supostas diferenças entre o experimento apresentado por H&T e o experimento mental de Putnam não nos dá razão suficiente para rejeitarmos o ATGM. Pelo menos até agora, pois há outros ataques ao ATGM que adotam a mesma estratégia de LM&D.
Consideremos, agora, a proposta de H. Geirsson.