Capítulo 1 – Da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento
6. Motivações para a ajuda
6.1. Argumentos a favor e contra a ajuda internacional
Como podemos observar, pode existir uma diferença significativa entre as motivações declaradas para a ajuda internacional e as reais motivações para o fazer. Que teoria é que justifica a ajuda? Será possível justificar teoricamente a ajuda internacional? Podemos afirmar, com base no crescimento existente e na teoria do desenvolvimento, que a ajuda internacional promove o desenvolvimento em sentido estrito?
Há, desde os anos 1950, um importante debate em torno desta questão. Comecemos por dizer que, de acordo com os modelos teóricos que têm sido formulados em seu torno, a assistência ao desenvolvimento não é nem condição necessária nem suficiente para o crescimento e desenvolvimento. Ou seja, o desenvolvimento pode existir sem ajuda e nem sempre esta gera desenvolvimento. O crescimento económico pode ser alcançado sem ajuda internacional e não é garantido que esta resulte necessariamente em crescimento e em desenvolvimento (Martinussen e Pedersen, Apud Pignatelli, 2016: 30).
As primeiras teorias económicas que apoiavam a APD encontravam-se baseadas na análise do papel que a formação de capital desempenhava no crescimento, assumindo que
o investimento gera desenvolvimento. Mais tarde surgem analistas que defenderiam que é precisamente na formação de capital que residia o problema básico dos países em desenvolvimento. Asante (1985) ou Moyo (2010) afirmam que não só a questão é complexa como muitos programas de desenvolvimento tiveram efeitos perversos, nomeadamente pela sua ação, durante décadas, em diversos países e regiões de África. Easterly (2006) refere-se também aos efeitos nefastos de desincentivo que a ajuda gera em países pobres, associando-a à "maldição dos recursos" e ao "cartel da ajuda" que se encontra nas mãos das grandes Organizações Internacionais (OI) enquanto Shikwati (2005) aponta para o problema da corrupção gerada no seio político ligada à cooperação. Mas, vários economistas têm vindo, durante as últimas três décadas, a afirmar que os efeitos da transferência de capital dependem de muitos outros fatores, incluindo aqui a política económica do país recetor da ajuda. Injetar capitais é só uma das formas da ajuda. Existem argumentos pró-ajuda internacional a populações de países pobres, como Singer (s.d.) que defende que esta, se não potenciar o crescimento, pode prevenir o declínio cumulativo. Outros sustentam (ironizando, inclusive) que nem as transferências de capital nem outros apoios beneficiam necessariamente os mais pobres, pelo que o problema não está na ajuda mas na forma como ela é gerida. O sueco Myrdal já havia defendido em
Asian Drama: An inquiry into the poverty of nations, dado à estampa em 1968, uma teoria
compreensiva e multicausal que integre diversos modelos de desenvolvimento. As abordagens pós-coloniais têm também apresentado argumentação crítica, apontando para o neocolonialismo, subalternidade, perpetuação da dependência e os debates sobre agendas centro-periferia.
As motivações morais e humanitárias têm sido criticadas por alguns setores que rejeitam liminarmente a suposta obrigação moral de os países ricos terem de ajudar os pobres. Peter Bauer (1981), citados por Martinussen e Petersen (Apud Pignatelli, 2016: 31) por exemplo, defende que não há nenhum motivo para que os países ricos se sintam responsáveis pela pobreza de outros países, exceto se acumularam essa riqueza de modo injusto. A situação favorável ou desfavorável é apenas o resultado de esforços feitos pelos próprios, considerando inaceitável que países mais pobres cobrem impostos aos seus cidadãos para financiar a ajuda internacional. O autor considera mesmo que isso constitui uma violação dos direitos de propriedade individual. Outros rejeitam, mas apenas parcialmente e outros ainda defendem que, como a ajuda internacional não tem ajudado
ao desenvolvimento e provavelmente não ajudará, a tal obrigação moral é simplesmente irrelevante. Em jeito de contracrítica, é dito também que a riqueza dos países industrializados (PD) é feita à custa dos recursos dos que estão em desenvolvimento (PVD).
Quanto às motivações dos países recetores para receberem ajuda internacional, essas são as já enunciadas: os governos dos estados recetores querem ajuda internacional para promoverem o desenvolvimento económico e social. Mas, ao contrário do que pensam os cidadãos dos países dadores, os países em vias de desenvolvimento não aceitam pura e simplesmente a ajuda internacional: estão normalmente dispostos para negociar as condições de ajuda – quase sempre querem discutir a vinculação (condicionalidade) da ajuda a nível de segurança e de interesses comerciais que os doadores bilaterais normalmente impõem e preferem que ela não exista, preferindo a ajuda sob a forma de empréstimos cujo pagamento possa ser suavizado; ou em alguns casos, recusam mesmo a ajuda, especialmente a bilateral. Isto aconteceu precisamente com a Grã-Bretanha que viu a sua oferta a algumas ex-colónias recusada por receios relativos a neo-dependências (Martinussen e Pedersen, Apud Pignatelli: 2016, 32). O documento de referência neste âmbito é o relatório da South Comission (1990) produzido por 28 individualidades do hemisfério sul sobre "Os Desafios do Sul". Este documento refere precisamente a preferência pela a ajuda multilateral (mais desvinculada e porque muitos dos países recetores de ajuda são membros das organizações internacionais como a ONU, podendo assim exercer algum tipo de influência sobre o processo de ajuda internacional), reforça já naquela altura, a vontade de estreitar parcerias de cooperação sul-sul e apontar para a eficácia da ajuda ao desenvolvimento. Depois de muitos anos de experiência com diversas formas de ajuda, formaram-se nos países em desenvolvimento grupos de pressão que contestam e querem ver a ajuda internacional faseada ou radicalmente alterada (Martinussen e Pedersen, Apud Pignatelli: 2016, 32). Existiram e existirão sempre, nestes países, grupos internos que são contra a ajuda internacional por acreditarem que isso não só cria e perpetua dependências como piora a corrupção dos países recetores.