5. ANÁLISE DA SUSPENSÃO DO JUIZ DAS GARANTIAS PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
5.1. ARGUMENTOS PRÓS E CONTRAS À IMPLEMENTAÇÃO DO INSTITUTO
O Juiz das Garantias apresenta-se como um grande avanço no Sistema Penal Pátrio. Nas palavras de Soares e Silva: “Sem dúvidas concluímos que a implementação do Juiz de Garantias trata-se de um avanço civilizatório, compatível com o controle da criminalidade [...]”120.
118 Ibidem.
119 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Decisão do Ministro Luiz Fux, na ADIN 6.298, p. 42 e 43.
Disponível em: http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADI6298.pdf. Acesso em 02 ago. 2021.
120 SOARES, Vládia Maria de Moura de; SILVA, Marcos Faleiros da. Reflexões sobre o Juiz de Garantias: comentários à Lei 13.964/19. Comentário de Legislação. Revista da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Uberlândia v. 48 n. 2, 2020, p. 11.
O Juiz das Garantias tem por escopo a atuação na fase de investigação, deixando a fase processual a cargo do juiz da instrução e julgamento. Essa separação de funções traz aos jurisdicionados a garantia de um processo imparcial, condizente com as diretrizes constitucionais que regem o nosso Estado Democrático de Direito, pois, ao Juiz das Garantias é atribuída a função de salvaguarda dos direitos individuais, bem como a responsabilidade pelo controle da legalidade da investigação criminal, evitando, assim, que o processo seja contaminado pelos pré-juízos formados pelo juiz da instrução quando do contato com as provas produzidas na fase de investigação.
Como bem alerta Simone Schreibeir:
A atuação do juiz na fase de investigação pode prejudicar sua imparcialidade porque, em primeiro lugar, exige que o juiz mantenha um contato próximo com os atores incumbidos da persecução penal, em que é constantemente inteirado das etapas e rumos da investigação. O propósito da investigação é desvendar a prática do crime e apontar seu autor. Nesse ambiente o juiz acaba se engajando num esforço conjunto para que a apuração chegue a bom termo. Aí está a semente da ideia de que o juiz criminal se une aos órgãos de persecução no combate à criminalidade121.
Como já explanado, o nosso Código de Processo Penal encontra-se defasado frente às garantias Constitucionais impostas pela Carta Maior, pois permite a atuação do juiz na fase de inquérito colhendo provas que posteriormente serão utilizadas para embasar a sua decisão.
Diante dessa situação de uma possível contaminação do processo pelos pré-juizos formados pelo magistrado, a adoção do juiz das garantias se apresenta como solução para evitar que essa ingerência provoque nulidades.
Portanto, a atuação do juiz das garantias na preservação da imparcialidade do julgador, que é a base do devido processo legal e requisito para o exercício da função jurisdicional, garantindo às partes um processo livre de parcialidades, firmado nas diretrizes constitucionais consagradas na Carta Maior, reafirmando o contraditório e a ampla defesa, bem como a presunção de inocência, se revela importante para reforço de um Sistema Penal harmônico à Constituição Federal de 1988. Dito isto, são claros os motivos para a sua não suspensão.
121 SCHREIBER, Simone. Em defesa da Constitucionalidade do Juiz das Garantias. Revista Consultor Jurídico. 25 abril 2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-abr-25/simone-schreiber-defesa constitucionalidade-juiz-garantias. Acesso em 02 ago. 2021.
Expostas as justificativas para implementação do Instituto, passemos à análise das razões desfavoráveis à manutenção da figura do Juiz das Garantias no Processo Penal Pátrio.
Insta frisar que muitos dos argumentos contra o novel instituto estão contidos na ADI n. 6.298, ADI n. 6.299, ADI n. 6.300 e ADI n. 6.305, referentes, portanto, a (in)constitucionalidade do instituto. Além disso, há quem argumente que a adoção da figura do Juiz das Garantias no Processo Penal Brasileiro se mostra desnecessária, sob o argumento de que no processo penal pátrio a imparcialidade do órgão julgador é requisito fundamental a ser observado pelo magistrado, sendo garantia já incorporada ao órgão julgador, como veremos mais à frente. Outro ponto também levantado é em relação à morosidade processual que o instituto causaria.
Umas das maiores justificativas para não adoção do instituto é em relação ao período da vacatio legis, a inconstitucionalidade formal frente ao de vício de iniciativa (art. 96, I, “d”; e II, “b” e “d”, da CF 88), e a inconstitucionalidade material em razão de violação da regra de autonomia financeira e administrativa do Poder Judiciário (art. 99, caput, da CF 88).
Primeiramente, em relação ao período de vacatio legis, discutia-se acerca da viabilidade de implementação do Juiz das Garantias dentro do curto prazo previsto no art. 20 da Lei 13.964/19, 30 (trinta) dias, contados da data de publicação da lei para a sua entrada em vigor, haja vista que o prazo mostrava-se insuficiente para que tanto o Ministério Público quanto o Poder Judiciário promovessem reformas estruturais em seus órgãos para implementar o instituto. Além disso, havia o problema de o período de vacatio legis ter se dado durante o transcurso do recesso parlamentar federal e estadual:
A previsão de o dispositivo ora impugnado entrar em vigor em 23.01.2020, sem que os Ministérios Públicos tivessem tido tempo hábil para se adaptar estruturalmente à nova competência estabelecida, revela a irrazoablidade da regra, inquinando-a com o vício da inconstitucionalidade. A vacatio legis da Lei n. 13.964/2019 transcorreu integralmente durante o período de recesso parlamentar federal e estadual, o que impediu qualquer tipo de mobilização dos Ministérios Públicos para a propositura de eventuais projetos de lei que venham a possibilitar a implementação adequada dessa nova sistemática122;
122 Ibidem.
Assim, mesmo após a decisão liminar do Ministro Dias Toffoli em sede de Ação Direta de Inconstitucionalidade, que suspendeu os dispositivos 3º-B a 3º-F, do CPP de 1941, por 180 (cento e oitenta) dias, contados a partir da data de publicação da decisão, para que os Tribunais implementassem o instituto, o prazo continuou se mostrando insuficiente para atender a novidade legislativa, que se apresentava complexa em virtude da problemática referente à criação de uma nova estrutura organizacional no âmbito do Poder Judiciário.
A segunda justificativa para não implementação do instituto relaciona-se à suposta inconstitucionalidade formal ante ao vício de iniciativa, pois estaria infringindo o art. 96, I, “d”; e II, “b” e “d”, da CF 88123.
O argumento é que a Lei 13.964, de 24 de dezembro de 2019, que instituiu o Juiz das Garantias, alterou as regras de organização judiciária, pois, o art. 96, II, “b”, determina que compete privativamente ao Poder Judiciário legislar sobre o tema, incidindo, assim, numa inconstitucionalidade formal por vício de iniciativa.
Além disso, haveria também violação ao art. 169, da CF, como explicado no tópico anterior a este. Esse dispositivo refere-se ao gasto com pessoal124.
O último argumento para não implementação do Juiz das Garantias diz respeito à inconstitucionalidade material em razão de violação da regra de autonomia financeira e administrativa do Poder Judiciário, art. 99, caput, da CF 1988, também explicado anteriormente, “Ao Poder Judiciário é assegurada autonomia administrativa e financeira”.
Há quem divirja de tais argumentos. Para David Metzker, com a implementação do Juiz das Garantias não há a criação de uma nova função ou novo cargo, logo, não haveria inconstitucionalidade, se tratando apenas de uma regra de impedimento e de divisão funcional do juiz que atua na fase investigativa e do juiz que atua na fase processual:
123Conforme a Constituição Federal em seu Art. 96. “Compete privativamente: I - aos tribunais: [...] d) propor a criação de novas varas judiciárias; [...] II - ao Supremo Tribunal Federal, aos Tribunais Superiores e aos Tribunais de Justiça propor ao Poder Legislativo respectivo, observado o disposto no art. 169: [...] b) a criação e a extinção de cargos e a remuneração dos seus serviços auxiliares e dos juízos que lhes forem vinculados, bem como a fixação do subsídio de seus membros e dos juízes, inclusive dos tribunais inferiores, onde houver; d) a alteração da organização e da divisão judiciárias;”.
124 Conforme a Constituição Federal em seu art. 169. “A despesa com pessoal ativo e inativo da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios não poderá exceder os limites estabelecidos em lei complementar”.
Os comentários tecidos nas ADI´s dão a entender a criação de cargo e que deve ser implementado de forma imediata o juiz das garantias. O que será implementado de forma imediata é a regra do impedimento. Não se criará, através da lei anticrime, uma nova vara, uma central de inquérito, ou algo que o valha, mas, aplicado de forma imediata o impedimento do juiz que atuou na fase do inquérito. Ao receber a denúncia, o juiz simplesmente encaminhará o processo ao setor de distribuição, que encaminhará o processo para o substituto legal para processar e julgar, permanecendo os autos da fase investigativa no juízo que ficou como juízo das garantias125.
No mesmo sentido, são os posicionamentos de Vládia Maria de Moura Soares e Marcos Faleiros da Silva:
O teor da Lei nº 13.964/19, na sua essência, apenas reafirma de direitos fundamentais, não havendo qualquer inconstitucionalidade por vício de iniciativa, ao contrário do que defende a Associação dos Magistrados Brasileiros. Juiz de Garantias refere-se ao direito das pessoas de serem julgadas por um órgão imparcial dentro do devido processo legal, previsto na Constituição e Tratado Internacional previsto na Constituição e Tratado Internacional, não sendo mera norma de organização judiciária, como tem se argumentado. Normas de direitos fundamentais podem ter iniciativa no Poder Legislativo126.
O Grupo de Trabalho do CNJ, instituído pelo Ministro Dias Toffoli em 26 de dezembro de 2019127, que tinha por escopo estudar alternativas para implementação do Juiz das Garantias no âmbito dos tribunais, recebeu propostas enviadas por diversos seguimentos, entre esses, alguns magistrados, que sugeriram que a designação de magistrados para exercer a função de juiz das garantias recaia, de modo regionalizado, sobre os juízes federais e juízes federais substitutos das varas federais com competência criminal. Os atos se dariam por meio de videoconferência se fosse hipótese de deslocamento no interior da seção judiciária. Sugeriram também a criação de centrais de inquérito regionais, competentes para atuar do flagrante até o recebimento da denúncia, incluindo também a atuação na audiência de custódia, utilizando-se da videoconferência128.
125 METZKER, David. Lei Anticrime (Lei 13.964/2019): Comentários às modificações no CP, CPP, LEP, Lei de Drogas e Estatuto do Desarmamento. Edição Revista e Atualizada. SP: Editora Cia do eBook, 2020, p. 45.
126 SOARES, Op.cit, p. 9-10.
127 BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. CNJ institui grupo de trabalho para estudar impactos da Lei 13.964/2019. Notícias CNJ/ Agência CNJ de Notícias. 26 dez. 2019. Disponível em:
<https://www.cnj.jus.br/cnj-institui-grupo-de-trabalho-para-estudar-impactos-da-lei-13-964-2019/>.
Acesso em: 02 ago. 2021.
128 BRASIL. Conselho Nacional de Justiça Grupo de Trabalho analisa sugestões para aplicação da Lei 13.964/2019. Notícias CNJ/ Agência CNJ de Notícias. 10 jan. 2020. Disponível em:
<https://www.cnj.jus.br/grupo-de-trabalho-analisa-sugestoes-para-aplicacao-da-lei-13-964-2019/>.
Acesso em: 02 ago. 2021.
Em 23 de junho de 2020, o Corregedor Nacional de Justiça, ministro Humberto Martins, entregou ao Presidente do CNJ, Dias Toffoli, a conclusão do estudo realizado pelo grupo129. No relatório diziam entender ser viável a implementação do Juiz das Garantias pelo Poder Judiciário Brasileiro, não havendo necessidade de despesas adicionais por parte dos Tribunais de Justiça. De acordo com o Corregedor Nacional, o Grupo buscou informações sobre as experiências obtidas por países estrangeiros, mais precisamente países da América Latina.
Nesse sentido, o grupo elaborou diretrizes de política judiciária, levando em consideração as particularidades dos Estados Brasileiros, bem como de seus Tribunais, permitindo que cada Corte adote o modelo mais adequado à sua realidade130.
Além disso, a minuta de resolução trouxe outra ferramenta para simplificar e tornar eficiente a aplicação do Juiz das Garantias nos Tribunais brasileiros:
A minuta de resolução prevê que o CNJ disponibilizará aos órgãos do Poder Judiciário, gratuitamente, sistema para a tramitação eletrônica dos atos sob a competência do juiz das garantias, assumindo o compromisso da atualização do módulo criminal do Processo Judicial Eletrônico (PJe)131.
Além dos argumentos desfavoráveis acima apontados, incluindo gasto com despesas, violação das regras de organização judiciária, etc., há quem aponte que a implementação do juiz das garantias no Processo Penal Brasileiro é desnecessária, haja vista que o magistrado brasileiro já atua com imparcialidade, sendo esse requisito inerente ao exercício da função jurisdicional. É o que entende Juliana Babinski:
Conclui-se que não há motivo para existência da figura do Juiz das Garantias, já que [...] todo juiz que exerce a jurisdição zela pela proteção aos direitos e garantias fundamentais e é revestido de total imparcialidade.
Como resultado, têm-se a proposição de uma figura desnecessária, que trará problemas desnecessários, provocando custos desnecessários. A consolidação dessa ideia trará mais ônus do que benefícios ao Poder Judiciário, que sequer abarca de forma eficaz as demandas existentes.
Seria provável o aumento de atrasos, prescrições e gastos com a expansão
129 Idem. Conselho Nacional de Justiça Grupo de Trabalho analisa sugestões para aplicação da Lei 13.964/2019. Notícias CNJ/ Agência CNJ de Notícias. 10 jan. 2020. Disponível em:
<https://www.cnj.jus.br/grupo-de-trabalho-analisa-sugestoes-para-aplicacao-da-lei-13-964-2019/>.
Acesso em: 02 ago. 2021.
130 BRASIL, Op. cit., 2020.
131 Ibidem.
do quadro de juízes e deslocamento destes entre as comarcas que possuem apenas um juiz132.
Nesse mesmo diapasão são as críticas feitas por Mauro Fonseca de Andrade, que aponta que a implementação do instituto traria problemas estruturais nas Comarcas com apenas um Juiz; causaria um choque orçamentário para o Poder Judiciário; e, resultaria em morosidade processual. Nesse sentido, aduz:
Diversas foram as críticas sofridas pela proposição do juiz das garantias,
Simone Schreiber discorda de tal posicionamento por entender que a adoção do Juiz das Garantias não traria morosidade processual:
“(...) a alegação de que o juiz de garantias aumentará a morosidade da justiça penal é meramente especulativa. Não há nenhuma evidência concreta que ampare tal afirmação. Como já dito, não se atribuiu ao judiciário novas funções. As atribuições do juiz de garantias serão retiradas dos juízes das varas criminais, o que levará à maior eficiência. O fato de o juiz do processo não haver participado da investigação não é um entrave à boa condução do processo, ele terá acesso a todos os elementos
Faculdade de Direito, Departamento de Ciências Penais. Orientador: Prof. Dr. Mauro Fonseca Andrade, 2020. p. 47.
133 ANDRADE, Op.cit.
134 SCHREIBER, Simone. Em defesa da Constitucionalidade do Juiz das Garantias. Revista Consultor Jurídico. 25 abril 2020. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2020-abr-25/simone-schreiber-defesa-constitucionalidade-juiz-garantias> Acesso em 02 ago. 2021.
consequente salvaguarda das garantias constitucionais do acusado, resguardando o pilar do devido processo legal, qual seja, a imparcialidade do juiz, é preciso que a figura do Juiz das Garantias se dê de forma organizada e harmônica, de modo a conferir segurança jurídica aos jurisdicionados, e dialogando com os demais entes interessados, obedecendo aos ditames constitucionais previstos na Carta Maior.