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CAPÍTULO 1 O PROTAGONISMO DA JURISPRUDÊNCIA NA

1.3 HORIZONTE DE PESQUISA

1.3.2 Argumentos propositivos

Além de conclusões preliminares, o levantamento das decisões proferidas pelos

tribunais brasileiros aplicando a cegueira deliberada a amplo espectro de casos permite

também a formulação de proposições que serão colocadas a prova ao longo dos capítulos

subsequentes desta tese.

Primeiramente, cotejando o teor das decisões americanas e inglesa citadas nos acórdãos

brasileiros examinados e as formulações nacionais sobre cegueira deliberada, propõe-se que a

definição de cegueira deliberada adotada pela jurisprudência e pela doutrina brasileira, enquanto

193 Ver, nesse sentido, SILVEIRA, Renato de Mello Jorge. A aplicação da teoria da cegueira deliberada nos julgamentos da operação Lava Jato. Revista Brasileira de Ciências Criminais, n.122, p.257, set./out. 2016. (embora o autor se equivoque quanto ao Tribunal responsável pela reforma da decisão, referindo-se ao TRF da 1.ª Região); PRESTES, Cristina. Teoria importada dos EUA deve ser maior inovação do STF no mensalão. Valor Econômico, 08 abr. 2013. Disponível em: <https://goo.gl/8zzGXn>. Acesso em: 12 nov. 2016; ROLLEMBERG, Gabriela; CALLEGARI, André Luís. Lavagem de dinheiro e a teoria da “cegueira deliberada”. Consultor Jurídico, 26 fev. 2015. Disponível em: <https://goo.gl/uQWT4d>. Acesso em: 12 nov. 2016; SILVA, Robson A. Galvão da; LAUFER, Christian. A cegueira deliberada na lava-jato. Empório

do Direito, 15 nov. 2015. Disponível em: <https://goo.gl/GeyFJB>. Acesso em: 12 nov. 2016; SAMPAIO,

Karla. Os crimes de colarinho branco e a “cegueira deliberada”. Canal Ciências Criminais, 13 abr. 2016. Disponível em: <https://goo.gl/YfZ2wr>. Acesso em: 12 nov. 2016; LUZ, Juliana Hermes. Cegueira deliberada no crime: você sabe o que é? Empório do Direito, 24 jun. 2016. Disponível em: <https://goo.gl/FzY9SM>. Acesso em: 12 nov. 2016; BONA JUNIOR, Roberto. É preciso discutir teoria da cegueira deliberada em crimes de lavagem. Consultor Jurídico, 19 nov. 2016. Disponível em: <https://goo.gl/hkc16W>. Acesso em: 13 maio 2017. O objetivo da citação dos artigos de internet é demonstrar a difusão da sentença proferida no caso do Banco Central de Fortaleza, conhecida e citada por grande parte dos autores que buscam investigar a cegueira deliberada.

categoria “equivalente” ou “equiparada” ao dolo eventual, coincide muito pouco com as willful

blindness instructions existentes no direito americano. A uma, porque enquanto naquele contexto

a willful blindness surge como substituto do conhecimento exigido pelo autor do fato, no

Brasil insiste-se que os tipos que exigem conhecimento não comportam dolo eventual, e, por

consequência, não admitem cegueira deliberada. A duas, porque se exige para a configuração

da cegueira deliberada componentes adicionais, tais como a indiferença, inexistentes nas

formulações de willful blindness existentes na jurisprudência americana. A fim de demonstrar

esses argumentos, no Capítulo 2 desta tese será examinado o sistema jurídico-penal dos Estados

Unidos da América, desde as categorias básicas de imputação subjetiva até o desenvolvimento

das willful blindness instructions pela jurisprudência daquele país a partir da formulação

originária inglesa de willful blindness no caso R v Sleep, de 1861. Comparando-se tais formulações

com a conceituação de cegueira deliberada proposta pela jurisprudência brasileira, buscar-se-á

demonstrar tratarem-se de conceitos diferentes, aplicados com finalidades diferentes, não

havendo identidade entre tais categorias, apesar da insistência pela jurisprudência nacional.

Uma vez demonstrada a diferença entre as categorias willful blindness e cegueira

deliberada existentes nos Estados Unidos e no Brasil, propõe-se como segundo argumento de

tese a desnecessidade da noção de cegueira deliberada para a resolução de casos em que o

autor de determinada conduta decide se manter ignorante quanto à natureza ou à origem de

coisas ou valores recebidos de terceiros, quanto à natureza ou às consequência de sua própria

conduta, quanto à conduta de terceiros, beneficiando-se do resultado ou omitindo o exercício de

controle sobre tais condutas. A lei penal brasileira delimita o alcance do dolo eventual às

situações em que o autor assume o risco de produzir eventual resultado de sua conduta. Tal

estudo parte do exame do dolo no direito brasileiro e comparado, investigando-se as diferentes

teorias sobre o dolo desde as suas formulações históricas até as suas proposições contemporâneas

e a pertinência desses desenvolvimentos à realidade jurídico-penal brasileira. Propõe-se apontar,

assim, que nem todos os casos em que o autor de determinada conduta, sabedor da elevada

probabilidade de estar praticando algum crime, agindo com indiferença a tal conhecimento ao

visar se manter deliberadamente ignorante de alguma circunstância elementar desse crime, a

fim de poder se beneficiar de eventual alegação de desconhecimento, têm presente o dolo

eventual, podendo haver situações nestas exatas condições em que o sujeito age com

imprudência. Sendo assim, estima-se haver solução adequada na teoria do delito para resolver

os casos em que a doutrina e a jurisprudência supõem ser necessária a cegueira deliberada,

não havendo motivo para se recorrer a essa categoria como substituto ou complemento do

dolo eventual para permitir a condenação dos autores em cada um desses casos. Aliás, espera-se

pelo estudo aprofundado dos casos demonstrar que nem sempre a condenação baseada em

dolo é a solução adequada de um caso, podendo haver a absolvição se não estiver tipificada a

modalidade culposa de determinado crime ou inexistir dever de conhecimento pleno pelo autor

do contexto fático em que age.

Com a demonstração de desnecessidade da cegueira deliberada para a solução de casos

no direito brasileiro, surge o argumento central da tese: o recurso dos tribunais ao transplante

de categoria estrangeira, mesmo com contornos e contexto diversos de sua formulação em seu

sistema de origem, para a solução de casos para os quais a teoria do delito já fornece resolução

adequada demonstra inconformidade pelos tribunais com a solução existente no direito penal

brasileiro. Sendo possível a absolvição dos acusados nos casos em que não houver previsão de

modalidade imprudente de crimes, a aplicação da cegueira deliberada pelos tribunais para

permitir ou reforçar a condenação de acusados revela a não aceitação da absolvição baseada

na ausência de previsão de modalidade culposa. Assim, em vez de acatarem a moldura criada

para o direito penal brasileiro pelo legislador – o qual se presume tenha conscientemente

deixado de prever modalidades culposas para crimes cuja comissão entendeu ter relevância

jurídico-penal apenas quando praticados dolosamente –, os tribunais optaram pela ampliação

do alcance do dolo eventual. Isso foi feito, argumenta-se, relativizando categorias e conceitos,

transplantando de maneira inadequada e descontextualizada uma categoria do direito

comparado. A atuação pelo judiciário, desconsiderando os limites impostos pela legalidade,

para alargar o conceito de dolo eventual, permitindo que fossem punidas a título de dolo

condutas em realidade imprudentes, fere o princípio da legalidade, devendo ser rechaçada a

aplicação da cegueira deliberada fora de seu sistema e contexto originários.