O caroço de algodão pode ser armazenado a granel ou ensacado. Em ambos os casos, perdas ocasionadas por estocagem e manuseio no momento do arraçoamento dos animais são comuns. De acordo com Kertz (1998), para o caroço de algodão integral armazenado sem proteção e ao tempo, as perdas podem alcançar 20%, tendo condições de serem reduzidas para 5% se o produto for armazenado em local coberto e seco.
As sementes de algodão, ricas em óleo, exigem cuidados especiais durante o período de armazenamento para que mantenham sua qualidade. Entretanto, mesmo tomando-se os cuidados necessários como armazená-las em local seco, fresco, arejado e ao abrigo da luz, a deterioração ocorre em velocidade e intensidade variáveis, de acordo com a qualidade inicial, com o estado fisiológico das sementes e com as condições ambientais, como observado por Freitas et al. (2000), que encontraram aumento linear na incidência de fungos de armazenamento (Aspergillus sp. e Penicillium sp.) durante o período de estocagem.
Na literatura, são escassos os trabalhos que avaliam as alterações ocorridas durante o período de armazenamento do caroço de algodão. Apesar dos mecanismos que levam à deterioração não estarem completamente elucidados, sabe-se que a redução na qualidade fisiológica das sementes está relacionada a alterações bioquímicas que comprometem suas atividades metabólicas, como as mudanças nas atividades respiratória e enzimática, nos processos de síntese, nos compostos de reserva, nas membranas celulares e nos cromossomos (FREITAS et al., 2004).
Os fatores que afetam a qualidade do caroço de algodão são umidade, que deve ser inferior a 12%; matéria estranha, que deve ser inferior a 1% e conteúdo de AGL presentes no óleo, que não deve ultrapassar 1,8% (BERNARD, 2003; STAPLES; THATCHER, 2003). Esses fatores devem ser levados em consideração juntamente com as características nutricionais, como os teores de PB, NDT, FDN, FDA e a digestibilidade para se determinar a qualidade nutricional do produto.
Para estudar as alterações ocorridas com as sementes de algodão durante o período de estocagem, Sullivan et al. (1993) coletaram amostras representativas logo após a compra do produto, que apresentaram um teor de umidade inferior a 10%. Colocadas em ambiente controlado, com temperatura de 32°C e umidade relativa do ar de 30% por até 30 dias, os autores não observaram alterações nos teores de AGL no óleo entre os tratamentos e o grupo controle, nem detectaram a presença de aflatoxinas nas sementes. Já Simpson (1942) demonstrou que o caroço de algodão com umidade inicial de 14,7% e estocado a 32°C apresentou 21,9% de AGL no óleo, comparado a 0,9% para as sementes estocadas à mesma temperatura, só que com umidade inicial de 7,1%.
De acordo com McKevith (2005), as sementes oleaginosas devem ser estocadas com teor de umidade em torno de 7,5% para evitar a deterioração e
manter a qualidade. O alto conteúdo de umidade, as altas temperaturas e a infestação por insetos durante o período de armazenagem criam condições para contaminação por fungos (principalmente Aspergillus flavus, capaz de produzir aflatoxinas), produção de calor e germinação das sementes (BERNARD, 2003; COPPOCK; LANHAM; HORNER, 1987; ROGÉRIO et al., 2003). A germinação das sementes leva ao metabolismo de nutrientes, aumentando a concentração de AGL no óleo e diminuindo os teores de PB dos grãos (BERNARD, 2003).
Num ensaio com quatro variedades de caroço de algodão com 93% de MS, Robinson et al. (2001) avaliaram a influência de 22 dias de armazenamento sobre a composição dos nutrientes e a qualidade nutricional das sementes. Durante o estudo, a temperatura ambiente oscilou entre 22°C e 13°C, considerando respectivamente o dia e a noite, e a umidade relativa apresentou valores médios de 35%. Os autores não encontraram contaminação por fungos, nem diferenças significativas entre os teores de MS, PB, EE, FDN, FDA e nos níveis de gossipol livre das variedades estudadas. Apenas os valores de AGL apresentaram pequeno aumento com o tempo de estocagem. Concluíram que o caroço de algodão pode ser armazenado por até 22 dias em grandes volumes, sem efeitos significativos sobre a qualidade nutricional, desde que colocado em local arejado, protegido da umidade e da chuva.
A combinação de alta temperatura e alta umidade pode levar à deterioração das sementes de algodão, com aumento dos níveis de AGL no óleo. Os AGL não estão ligados ao glicerol, e por si só, não demonstram efeito negativo sobre o desempenho animal, se ingeridos em quantidades moderadas. No entanto, são mais susceptíveis à rancificação (BERNARD, 2003; STAPLES; THATCHER, 2003). De acordo com Bernard (2003), as concentrações de AGL superiores a 18% interferem negativamente na fermentação ruminal, diminuindo o consumo de MS pelo ruminante.
Em condições normais, a concentração de AGL no óleo do caroço de algodão raramente excede 12%. Entretanto, quando a colheita do algodão é realizada sob condições de muito calor e alta umidade, pode haver perda de qualidade, tanto da fibra, quanto da semente. O caroço de algodão contendo mais de 12% de AGL no óleo é considerado de baixa qualidade para consumo humano, sendo destinado à alimentação animal (SULLIVAN et al., 2004; SULLIVAN; BERNARD; AMOS, 2005).
Sullivan et al. (2004), avaliando o desempenho de vacas holandesas em lactação alimentadas com dietas contendo 12,5% de caroço de algodão (base de MS) e até 12% de AGL no óleo, não encontraram alterações quanto ao consumo de MS, produção ou composição do leite. Utilizando a mesma dieta, agora com caroço de algodão contendo até 18% de AGL no óleo, Sullivan, Bernard e Amos (2005) concluíram que embora não houvesse efeito sobre o consumo e digestibilidade da MS ingerida, o caroço de algodão provocou pequenas alterações na fermentação ruminal, com diminuição do pH e das proporções molares de isobutirato e aumento da taxa de acetato:propionato.
Os diferentes teores de AGL encontrados no óleo do caroço de algodão podem alterar o perfil de ácidos graxos destas sementes. Sullivan, Bernard e Amos (2005), num estudo com dois tipos de caroço de algodão contendo 8% e 18% de AGL no óleo, encontraram concentrações mais altas de C16:0 e C18:0 e menores concentrações de C18:1 e C18:2 para as sementes com 18% de AGL. Esta variação entre os lotes deveu-se à hidrogenação das ligações insaturadas durante a formação dos ácidos graxos livres.
Os países de clima tropical, onde a umidade relativa do ar é elevada e as temperaturas médias superiores a 25ºC são mais propensos ao desenvolvimento dos fungos da espécie Aspergillus. A contaminação de grãos de cereais e da torta de algodão por aflatoxinas foi encontrada em larga escala em Uganda, no Brasil, Nigéria e Índia, apresentando índices inaceitáveis para os padrões de qualidade internacionais (D’MELLO; MACDONALD, 1997). A legislação brasileira tolera um nível de contaminação de farelos de cereais e de oleaginosas por aflatoxinas de até 50ppb (BRASIL, 1988).
Os efeitos da ingestão de aflatoxinas são similares em todos os animais, no entanto, a susceptibilidade à intoxicação depende da espécie, idade e da variação individual. Os sinais clínicos da infecção aguda são lesões hepáticas graves, hemorragias e aumento do tempo de coagulação sangüínea. As membranas tornam-se ictéricas e é comum a pretornam-sença de pigmentos sangüíneos na urina. Todas essas alterações podem culminar com a morte do animal dentro de poucos dias. Nos ruminantes, a forma mais comum é a aflatoxicose crônica, onde há a redução da taxa de crescimento em animais jovens, da eficiência alimentar, alterações do sistema imune e queda das taxas reprodutivas (D’MELLO; MACDONALD, 1997; PIER, 1992).