• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 – A TEORIA DO IMAGINÁRIO, DE G DURAND:

3.4   O ARQUÉTIPO TESTE DE NOVE ELEMENTOS: O AT-9, DE YVES

O Teste Arquétipo dos Nove Elementos foi criado, de início, como um modelo experimental pelo psicólogo francês Yves Durand, sobre a teoria do imaginário de Gilbert Durand chamado de “modelo experimental” de pesquisa (LOUREIRO, 2004a, p. 23). Foi criado na década de 1960 do século XX, com o objetivo de colocar à prova a arquetipologia geral de Gilbert Durand.

Loureiro (2004a, p. 23), com base em Yves Durand (in THOMAS JOEL, 1998), assinala que o AT-9 é composto por 9 estímulos simbólicos (ou arquétipos), que se propõe como ponto de partida para a dupla construção de um desenho e de um discurso (narrativa), que é feita por meio de estímulos envolvendo nove

palavras-chave, ou seja, nove elementos (estímulos arquetípicos), sendo eles: Queda, Espada, Refúgio, Monstro Devorador, Algo Cíclico, Personagem, Água, Animal e Fogo.

Loureiro (2004a) lembra ainda que estes elementos não foram escolhidos aleatoriamente pelo criador do teste e registra que Yves Durand considerou os “significados mais profundos, visto que cada elemento tem seu próprio significado para servirem de motivação ao traçado gráfico e ao discursivo representativo da trama imaginada pelo sujeito” (LOUREIRO, 2004a, p. 23). Ainda com Loureiro (2004, p. 20), anota-se que a teoria de Gilbert Durand desvelou que as grandes constelações, agrupamento de imagens isomorfizantes dos símbolos, possibilita identificar a estrutura do imaginário, sendo esse o ponto no qual Y. Durand se apoiou para criar o AT-9. “O símbolo isolado é inqualificável, somente na relação (convergência) com outros símbolos formadores do subconjunto significante, é que o símbolo pode ser entendido”. A esta aglutinação de símbolos convergentes “G. Durand denomina ‘núcleos aglutinadores’ e Yves Durand chama de ‘nós aglutinadores’, centros polarizadores de energia psíquica” (LOUREIRO, 2004a, p. 20).

O criador do AT-9, o psicólogo Y. Durand (inTHOMAS, 1998, p. 281-282) esclarece tratar-se de um “instrumento experimental, destinado a ‘testar’ a validade das hipóteses avançadas por G. Durand concernentes às estruturas do imaginário”, e que “as características de sua montagem experimental oferecem a um indivíduo qualquer, para criar uma ficção, realizar uma ‘obra’ imaginária, constituir um modelo apto a reproduzir em miniatura a teoria das Strutures Anthropologiques de L’imaginaire (SAI)”.11 Explicita o criador do teste que

[...] seu interesse é construir um instrumento que permita obter os documentos lisíveis e comparáveis sobre a imaginação simbólica, inscrevendo-se sem ambiguidade em um quadro teórico preciso (SAI) e a propósito dos quais existe um referencial de dados estabelecidos experimentalmente (DURAND, 1998, p. 292).

Nesse sentido, Loureiro (1996, p. 22) conclui que, “com este teste, Yves Durand valida a teoria com o que ele chamou de modelo experimental de pesquisa, e constrói um instrumento capaz de levantar/conhecer imagens individuais ou grupais”.

11 DURAND, Yves. O arquétipo teste de nove elementos. In Thomas, Joel (sous la direction de)

Introduction aux méthodologies de l’imaginaire. Paris: Ellipses,1998. Tradução (para fins

Paula Carvalho (apud BADIA, 1993) escreve que o AT-9 é um instrumento de pesquisa psicológico e sociológico do imaginário individual e grupal, sendo que é mais, prioritariamente, um instrumento de pesquisa antropológica, considerando-o, então, um instrumento de possível intervenção.

Sobre as possibilidades do mencionado teste, Batista (2002, p. 19)(coloquei na bibliografia) argumenta que ele “permite a criação de mensagens compostas de símbolos e promove a organização desses símbolos num todo coerente – um universo mítico”.

Os procedimentos de utilização do AT-9 consistem em solicitar ao sujeito- autor imaginar uma história e representá-la em um desenho a partir dos nove elementos propostos pelo teste. O participante é orientado a contar a história imaginada e já desenhada, em forma de discurso/narrativa, em uma segunda folha, utilizando lápis e não fazendo uso de borracha. Contará com um tempo de 30 minutos, que poderá se estender um pouco mais em caso de dificuldade de realização em tempo exato. Após a realização do desenho e da narrativa, é entregue uma terceira folha composta de algumas questões que objetivam levantar informações complementares e um quadro para registros de como representou, que função atribuiu e como simbolizou cada um dos nove elementos, será entregue ao sujeito, culminando, assim, o processo de utilização do teste (DURAND, 1998, p. 282).

Y Durand(1998) explicita sobre as áreas que tem sido utilizado o teste AT-9

[...] este método tem sido já utilizado em numerosos trabalhos (memorais de dissertação e de teses em psicologia clinica e social, teses e comunicações em medicina pisquiátrica, psicológica clínica sociologia).Seu interesse é de constituir um instrumento permitindo obter documentos lisíveis e comparáveis sobre o imaginário simbólico, se inscrevendo sem ambigüidades no quadro teórico preciso das SAI e a propósito dos quais existe um referencial de dados estabelecidos experimentalmente Durand (in

THOMAS JOEL, 1998),

G Durand (apud LOUREIRO, 2004a, p. 29), referindo-se ao AT-9, diz que

“este teste não apenas constitui um diagnóstico psiquiátrico excelente, como confirma os resultados teóricos, que havíamos criado pessoalmente para as ‘estruturas’ do imaginário: todo imaginário humano articula-se por meio de estruturas plurais e irredutíveis, limitadas a três classes que gravitam ao redor dos processos matriciais do ‘separar’ (heroico), incluir (místico) e dramatizar (disseminador), ou pela distribuição das imagens de uma narrativa ao longo do tempo”

Segund Durand (1998, p. 286), “o modelo AT-9 simula a teoria das Estruturas Antropológicas do Imaginário (SAI)12”. Os elementos simbólicos colocam o problema

do tempo mortal; relacionamos a queda com imagens “catamorfas” e o monstro devorante por sugerir imagens “teriomorfas” e “nictomorfas”, conforme G. Durand explicita na sua obra “As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral” (1989). Os elementos simbólicos, formadores da estruturação, permitem escolher uma temática relacionada a uma das três orientações do imaginário segundo “a teoria do SAI (estruturas heróicas, místicas e sintéticas), representadas pela espada, pelo refúgio e por qualquer coisa cíclica”. Os símbolos complementares “de redundância” são representados pela “água, animal e fogo” que possuem contribuições à organização mitodramática. “Um elemento da dramatização, em torno do qual pode se articular o universo mítico criado é o personagem”. (DURAND, 1998, p. 288).

“A construção realizada no quadro de um AT-9 representa um resultado momentâneo de um processo de evolução pessoal se desenvolvendo no seio de ocorrências socioculturais variáveis”. (DURAND, 1998, p. 286). O autor exemplifica isso com a constatação de que, nos AT-9 de adolescentes ou adultos suicidas, o personagem é morto pelo monstro, mas esclarece que há exceções e a elaboração de um mito de perigo não implica que o autor tenha invariavelmente efetuado uma tentativa de suicídio (DURAND, 1998, p. 286).

Na perspectiva clínica, o AT-9 possui características diferentes. Durand (1998, p. 288) adverte os leitores no sentido de que seja efetuada em volta e fora das posições doutrinárias rígidas, primando-se por um quadro de aproche antropológico, aberto aos diversos pontos de vista: fenomenológico, projetivo, psicanalítico, psicopatológico e outros.

O AT-9 representa um ou vários personagens em um mundo imaginário com características mais ou menos separadas de referências pessoais (DURAND, 1998, p. 289). A elaboração “normal” de um AT-9 implica a ligação da conjunção entre o individual, quer dizer, a história pessoal “o inconsciente pessoal” no sentido yunguiano, e o coletivo, concebido como expressão figurativa e ou narrativa, conforme um código sociocultural dado, o que remete ao Trajeto Antropológico, apresentado na obra de Durand (1989,p.29).

Sobre o procedimento de análise, Durand (1998, p. 292) escreve que “a interpretação psicológica de uma produção realizada no quadro de AT-9, repousa, conforme as indicações precedentes, sobre análises de processos colocados em ação para realizar a mítica de um cenário existencial latente [...]”. O inventário do processo utilizado e do estudo do cenário projetado responde a várias perguntas:

“como é formulado o problema da angústia? Qual a solução apontada, quer dizer, quais são os elementos que fornecem um schéma da organização mitodramática da pessoa, os mecanismos da pessoa por meio do imaginário? É possível também encontrar respostas sobre os recursos criativos da pessoa, e as fraquezas, as dificuldades a exprimir um mito desligado da consideração pessoal ‘projetivos’ (DURAND, 1998, p 292).