• Nenhum resultado encontrado

Arqueologia do Comediante

2.1 Mitos e Interpretações

2.2.7 Arqueologia do Comediante

O ator foi primeiramente um dançarino que cantava12. Em Rãs, nos versos 325- 413, surge um cortejo, o tiase, no qual são combinados cantos e danças, em um clima muito animado até mesmo histérico em que o deus “faz o ritmo com um pé atrevido celebrando sem moderação e divertido. Em Nuvens (v.989) há um ritmo que é uma dança guerreira em honra a Atenas. Na festa das Paternéias o escudo era usado como acessório dessas danças marcadas por uma agitação febril. Há também danças que parodiam o teatro trágico, como as do teatro de Ésquilo e Eurípides, em Rãs; as que parodiam Eurípides, em As Tesmoforiantes. Neste texto, a dança evocada nos versos 947-1000 é do tipo cíclico, viva e rápida. Os passos são muito complicados, pois a condutora aconselha que se abandonem ao transe e ao mesmo tempo prestem “ atenção com o canto do olho” para não se perder a formação. Outras danças como as de Pássaros e Nuvens deviam ser mais aéreas. O sátiros, nos dramas satíricos, dançavam sobretudo a sikinis, uma espécie variante do cordax.

As inúmeras peças representadas durante os festivais (entre dez e quinze (dependendo do concurso) impediam que houvesse um cenário específico para cada peça, ainda mais com a madeira escassa nos períodos de guerra. Portanto eram muito utilizados painéis pintados que precisavam a ação dos dramas representados. O cenário típico da comédia representava uma casa, mas os poetas cômicos podiam também recorrer a um cenário trágico (templo, palácio ou tenda do chefe) e paisagens do drama satírico (uma marinha, ou uma paisagem rural como em Os Pássaros).

A utilização das máscaras condicionava a concepção da obra e o jogo dos atores se apoiava na voz e gestualidade. As máscaras possibilitavam mudanças

12 Duas danças eram especialmente reservadas à celebração de Baco: diplè e thiase. Diplè “um

passo dobrado”, é mencionado em Thesmophorias (v.981-1000), Bacus, chamado também de Iaco ou Brômio, surgindo como o condutor da dança. O ritmo do canto de passagem parece traduzir o aspecto selvagem do deus: muitas sílabas breves com um ritmo jâmbico mais dominante.

139

ou divisões de papel, já que ela identificava o personagem, e seu uso era

imprescindível pela distância que separava os atores do público (dez metros dos espectadores mais próximos). Conhecemos as máscaras graças às pinturas de vasos. Quanto aos figurinos, os personagens cômicos masculinos, de pés

descalços ou com sandálias de uso cotidiano, vestiam roupas estofadas no ventre e nas nádegas e às vezes usavam grandes falos de couro com a extremidade pintada de vermelho.

As inúmeras peças representadas durante os festivais (entre dez e quinze (dependendo do concurso) impediam que houvesse um cenário específico para cada peça, ainda mais com a madeira escassa nos períodos de guerra. Portanto eram muito utilizados painéis pintados que precisavam a ação dos dramas representados. O cenário típico da comédia representava uma casa, mas os poetas cômicos podiam também recorrer a um cenário trágico (templo, palácio ou tenda do chefe) e paisagens do drama satírico (uma marinha, ou uma paisagem rural como em Os Pássaros).

As peças de Aristófanes são musicais. Nestas, o coro, os atores e solistas são encarregados dos cantos e das danças. São cantos ligados às atividades profissionais, cívicas ou privadas, mas a maioria aos cantos religiosos. Um tocador de aulos – um instrumento de sopro com palhetas, semelhante a um oboé de tubo duplo – acompanhava o coro e fazia o acompanhamento musical das peças. Outros instrumentos de corda (lira e cítara) ou de percussão eram utilizados eventualmente, principalmente os tamborins ou uma espécie de castanhola (crótalo).

A dança do teatro cômico é o cordax, por excelência, uma dança bufa, licenciosa e petulante. Seus movimentos consistem em acocoramentos, saltos, tapas no traseiro, no ventre e nas coxas, piruetas, requebros, sapateados. Em

Vespas, Filocléon, bêbado, dança um cordax, depois de ter raptado a tocadora de aulos do banquete.

Segundo fontes antigas, os atores eram profissionais enquanto que os coros eram amadores. Todos os papeis eram interpretados por homens, mas as

140

escravas mais graciosas fariam algumas aparições de dançarinas, musicistas ou figurantes mais desnudas. Com as máscaras, cada ator atuava em vários papeis. Somente os protagonistas concorriam ao prêmio de melhor ator, mas este era julgado pela atuação conjunta de seu grupo e não por sua interpretação individual. O protagonista vencedor seria automaticamente selecionado para atuar no

concurso do próximo ano.

Parece que os coros trágicos se constituíam de 12 e 15 coreutas e os das comédias de 24. Esse número é baseado em Pássaros (v. 267), onde 24 nomes de pássaros são mencionados à entrada do coro. No entanto, quatro pássaros surgem no párodos, o que eleva para 28 o número de coreutas. Mas como o coro era composto de cidadãos não remunerado e financiado por um corega,

possivelmente havia certa liberdade a esse respeito. O coro e especialmente o coro cômico era o representante da comunidade cívica ateniense no palco e desse modo endossava os sentimentos do público quando o diálogo ou a discussão se dirigia diretamente a ele. Nesse sentido, o coro funcionava de mediador, já que era constituído de personagens identificáveis pelo público. O chefe do coro, o corifeu, tinha uma função essencial na comédia, não somente a de conduzir os coreutas, mas também a de dialogar com os atores. Parece que a atuação do corifeu era confiada ao didascalos (o encenador).

No contexto dos concursos dramáticos, o público era um dos interlocutores essenciais, especialmente nas representações cômicas. Era tão numeroso quanto o dos estádios esportivos. Os espectadores permaneciam do amanhecer ao cair da noite, muitas vezes sob chuva e frio – o Festival das Lenéias, por exemplo, acontecia no inverno. O papel da comédia na sociedade ática provavelmente teve uma função similar a de outras culturas nas quais as situações e jogos de humor têm um papel significativo em contextos religiosos. Na sociedade ateniense a peça cômica promovia a desconstrução do discurso da polis, ao mesmo tempo em que funcionava como manifestação laica de um rito religioso que funcionava par restaurar a ordem da desordem. Na atuação cômica, os atores interagiam com o público de modo mais ou menos estruturado, subvertendo normas

141

comportamentais. Podemos listar uma série de qualidades típicas do ritual humorístico nos personagens da Comédia Antiga: ausência de controle social, comportamento contrário às normas culturais estabelecidas, elementos sexuais e escatológicos, o aspecto burlesco, o povo e os estrangeiros no controle da

autoridade e uma aparência de desordem e caos. Desse modo, o teatro cômico tinha como tarefa fazer graça da cidade pelo entretenimento, pelo comportamento extremado; controlava e negava por meio do escárnio a inveja divina que pudesse se abater sobre a Cidade com o esplendor da auto-representação; examinava os problemas de um modo menos sombrio do que a tragédia, e assim por diante.

143