EDUARDO GÓES NEVES
Introdução
É uma verdade estabelecida para a maioria dos brasileiros que a história do país foi inaugurada em 22 de abril de 1500. O que aconteceu antes disso, domínio da "pré-historia", seria um pouco vago e na verdade irrelevante para o posterior desenvolvimento do Brasil, merecendo poucas páginas nos livros didáticos. Ao contrário dos países da América Espanhola onde "conquista" é o termo utilizado para designar a ocupação européia, tal processo é no Brasil conhecido como "descobrimento", o que revela o preconceito e desco- nhecimento sobre as populações indígenas do Brasil e sua história.
A imagem das sociedades indígenas comum ao público em geral é estáti- ca: indivíduos vivendo em pequenas aldeias isoladas na floresta, representan- do um passado remoto, uma etapa evolutiva de nossa espécie. Enfim, populações sem história. Nada mais errado. Sabe-se hoje que os povos indí- genas que habitam o continente Sul Americano descendem de populações que aqui se instalaram há dezenas de milhares de anos, ocupando virtualmente to- da a extensão desse continente. Ao longo desse período essas populações de- senvolveram diferentes modos de uso e manejo dos recursos naturais e diferentes formas de organização social, o que é atestado pelo crescente número de pes- quisas arqueológicas realizadas no Brasil e países vizinhos.
O objetivo deste trabalho é apresentar uma breve síntese dos conhecimentos atualmente disponíveis sobre a história do Brasil pré-colonial - ou pré-história do Brasil. Essa apresentação será feita da seguinte forma: primeiramente se-
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rão discutidos a natureza e objetivos da arqueologia bem como a potencial contribuição dessa disciplina para os estudos de história indígena. Em segui- da, os dados arqueológicos serão apresentados e discutidos em uma perspec- tiva cronológica, desde a primeira ocupação humana das Américas até o período colonial.
Campo e objetivos da arqueologia
Nem história nem antropologia, mas uma disciplina com objeto de estudo e objetivos próprios, a arqueologia tem como meta compreender a estrutura, funcionamento e os processos de mudança de sociedades do passado, a partir do estudo dos restos materiais produzidos, utilizados e descartados pelos in- divíduos que compunham essas sociedades.
A cultura material é o objeto de estudo por excelência da arqueologia. Entendida como qualquer segmento do meio físico socialmente apropriado e ao qual são atribuídos uma forma e uma função (Bezerra de Meneses 1983), a definição de cultura material aqui adotada inclui tanto objetos apreensíveis como um vasilhame cerâmico ou um machado de pedra polida, quanto ele- mentos da paisagem, como um muro, uma estrada, ou uma roça.
O foco e os objetivos da arqueologia a colocam como uma ciência huma- na, mas é importante que se considere seu caráter multidisciplinar, já que ela se situa em uma interface com as ciências naturais. Assim, além de uma boa
Foto Paulo de Blasis
O trabalho de escavação é uma atividade minuciosa e demorada que envolve o registro preciso de vestígios encontrados no sítio arqueológico. Exumação de um esqueleto humano encontra- do no litoral norte do Rio de Janeiro pela equipe do Museu Nacional/UFRJ.
formação antropológica, são necessários aos arqueólogos conhecimentos, ao menos instrumentais, de elementos de, dentre outras disciplinas, geomorfolo- gia, pedologia, geologia e ecologia, já que diferentes processos naturais, co- mo erosão, sedimentação ou fossilização são partes ativas na formação do registro arqueológico.
Um sítio arqueológico é o resultado de uma ou mais intervenções em um determinado espaço por uma população no passado. Esse espaço pode ser um abrigo sob rocha, o topo de uma colina, uma planície aluvial, uma praia, etc. As formas e o tempo da intervenção variavam: uma cidade, uma aldeia habi- tada por vários anos, um acampamento de caça ocupado por algumas horas, um cemitério, um santuário visitado durante décadas por sucessivas gerações... Como resultado dessas ocupações ficam os restos materiais ou as evidências indiretas das atividades ali realizadas: fragmentos cerâmicos, lascas de pe- dra, lâminas de machado, pontas de projétil, conchas, restos de plantas, os- sos, carvões, manchas escuras de fundos de cabanas, etc. Após abandonados, esses objetos sofrem a ação de agentes naturais e humanos - enxurradas, bu- racos de tatu, cupinzeiros, raízes, a abertura de uma estrada - que em alguns casos modificam sua distribuição original de deposição.
Não deixa assim de ser irônico que um dos símbolos mais fortes da ar- queologia junto ao público, Pompéia, represente na realidade uma exceção, uma anomalia em termos das condições regulares de preservação e apresenta- ção de um sítio arqueológico (Binford 1981). Isso porque em Pompéia a re- pentina erupção do Vesúvio tomou os habitantes de surpresa e o que se encontra preservado no sítio são cenas congeladas do cotidiano, como se uma fotogra- fia aérea em raio X tivesse penetrado todas as casas, oficinas e mercados e fornecesse um instantâneo daquela comunidade naquele determinado momento.
Alguns tipos de sítios, como grutas e abrigos sob rocha, são consistente- mente reocupados, não sendo incomum que apresentem registro de milhares de anos de ocupações contínuas ou descontínuas. É também freqüente encontrarem-se pequenos lugarejos, povoados ou mesmo cidades construídos sobre sítios arqueológicos ou antigas aldeias indígenas, reocupaçoes que não são aleatórias, mas reflexo do acerto dos critérios - topográficos, proximida- de de cursos dágua, defensivos, etc - usados pelas populações pré-coloniais na escolha de seus locais de assentamento.
Quando descoberto, o sítio arqueológico se apresenta como uma unidade estática, um conjunto de objetos e estruturas com distribuição mais ou menos aleatória, vertical e horizontalmente. Enfim, um fenômeno do presente que contém no entanto o produto de atividades dinâmicas realizadas no passado. O processo de descrição, análise e interpretação dos vestígios arqueológicos é nada mais que uma tentativa de se reconstituir ao menos algumas dessas atividades dinâmicas do passado - e se possível seu contexto sócio-cultural - a partir da realidade estática dos sítios arqueológicos.
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Escavação de uma estrutura de pedras que delimita uma antiga fogueira no vale do Ribeira,
São Paulo. A mudança na coloração do solo, a forma ovalada da estrutura e a não existência deste tipo de rocha no local são evidências de que o conjunto encontrado no sítio arqueológico foi uma fogueira no passado.
Arqueologia e História Indígena
O impacto da conquista européia sobre as populações nativas das Améri- cas foi imenso. Não existem números precisos, mas há estimativas indicando que a população nativa do continente chegava, à época da conquista, a mais de cinqüenta e três milhões de pessoas, sendo que só a bacia Amazônica teria mais de cinco milhões e seiscentos mil habitantes (Denevan, 1992: xxviii). Tais figuras não são no entanto aceitas unanimamente, já que os documentos usa- dos para a elaboração dessas estimativas - crônicas de viajantes e oficiais das coroas, relatos de missionários, sítios arqueológicos - dão margem a estimati- vas bastante diferentes.
Independentemente das figuras que se aceite, é certo que dezenas de mi- lhares de pessoas morreram por causa do contato direto e indireto com os eu- ropeus e as doenças por eles trazidas. Doenças hoje banais como gripe, sarampo ou coqueluche, e outras mais graves como tuberculose ou varíola mostraram-- se letais às populações nativas, que não tinham imunidade natural a esses males. O grau e a intensidade da transmissão de doenças não foi uniforme, mas uma variável de diferentes fatores como as formas de organização social e econô- mica, o tipo de dieta, a localização dos assentamentos, etc. Obviamente, as sociedades imediatamente atingidas foram aquelas que ocupavam as áreas ini-
cialmente ocupadas pelos europeus ou aquelas localizadas ao longo das rotas de penetração no interior, como, respectivamante, o litoral e o baixo Amazo- nas. No entanto, a existência de extensas redes de comércio abrangendo grandes áreas (Porro, 1985) possibilitava a transmissão de epidemias a populações que não tinham contato direto com os europeus.
Face à ruptura demográfica e social promovida pela conquista, foi suge- rido que os padrões de organização social e de manejo dos recursos naturais das populações indígenas que atualmente ocupam o território brasileiro não seriam representativos dos padrões das sociedades pré-coloniais (Roosevelt, 1989, 1991). De fato há atualmente, por exemplo, apenas um grupo indígena numeroso localizado na calha do Amazonas brasileiro, os Ticuna do alto So- limões. No entanto, a falta de pesquisas arqueológicas e bioantropológicas que tenham como foco o impacto do contato sobre as populações impedem que possamos ter no momento uma noção equilibrada sobre as mudanças provo- cadas pela colonização. Tais pesquisas podem fornecer dados sobre, por exem- plo, o tamanho e densidade de ocupação das antigas comunidades, as estratégias de manejo dos recursos naturais e o estado de saúde das populações indígenas nos períodos imediatamente anterior e posterior ao contato.
Os vestígios arqueológicos são importantes documentos para o estudo da história indígena, apesar de ainda existirem no Brasil poucas pesquisas onde arqueologia, antropologia cultural e etnohistória estejam sistematicamente in- tegradas já em sua concepção1. A falta de trabalhos com esse foco só tende a reforçar a tendência, já esboçada no início deste texto, de se pensar que a história das populações indígenas está apenas ligada à expansão dos europeus pela América do Sul (Wolf, 1982).
Existem duas fontes documentais principais utlizadas nos estudos de his- tória indígena no Brasil: de um lado, os diferentes tipos de documentos escri- tos produzidos em diversos contextos pelos colonizadores europeus e seus descendentes; do outro, as tradições orais e a mitologia das populações indígenas2. Ambos os grupos de documentos apresentam um expressivo po- tencial informativo, conforme o atestado pela boa qualidade da literatura so- bre história indígena que tem surgido nos últimos anos. Existem porém condições, inerentes à própria natureza desses documentos, que colocam li- mites à sua utilização. Para os documentos escritos o limite óbvio é o ano de 1500, mas essas fontes podem também ser vagas com relação a, por exemplo, o tamanho, densidade e localização dos assentamentos, a composição das
1. Os trabalhos da arqueóloga Irmhild Wüst entre os índios Bororó do Brasil central são uma brilhante exceção a essa regra (1992). Há também dois trabalhos ainda em andamento, um na bacia do alto Xingu (M. Heckemberger) e outro na bacia do alto rio Negro (E. Neves).
2. Duas publicações recentes do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da Universidade de São Paulo apresentam possibilidades de usos desses tipos documentos. Uma delas é a transcrição de um ma- nuscrito do século XVIII que traz informações relevantes sobre o aprisionamento de índios dos rios Ne- gros e Japurá (Meira, 1994). A outra publicação é uma reconstituição de parte do processo de migração dos Waiãpí a partir da tradição oral desses índios (Gallois, 1994).
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Fragmentos cerâmicos evidenciados em escavação em Iauaretê, na Bacia do Rio Uaupés, Amazonas. O sítio arqueológico é uma antiga aldeia dos índios Tariano, ocupada há cerca de 100 anos, apresentando vestígios de que, nesta época, os índios já tinham contatos com representantes da sociedade nacional.
unidades domésticas, etc. Para a tradição oral e a mitologia indígenas, o limi- te é a dificuldade de se identificar ou alinhar cronologicamente os eventos nar- rados, já que esses discursos são gerados dentro de uma concepção do tempo variável e própria a cada sociedade em particular.
Periodização da história pré-colonial no Brasil
O sistema de periodização utilizado pelos arqueólogos que trabalham nas
Américas é diferente dos sistemas propostos no século passado por Thom- sem, Lubbock e de Mortillet, ainda em linhas gerais utilizados para a ordena- ção dos períodos da pré-história do velho mundo. Apesar de tentativas abortadas no século passado (Meltzer, 1991), não se usam termos como "paleolítico", "idade da pedra" ou "idade dos metais" em arqueologia americana. O siste-
ma aqui empregado é adaptado do esquema originalmente proposto em 1958 por Gordon Willey e Philip Phillips.
Como qualquer sistema classificatório que se proponha global, o de Wil- ley e Phillips peca pela vaguidade e não é adotado unanimamente (Prous, 1991: 109). Ele tem, no entanto, a vantagem de ser amplamente utilizado e portanto possibilitar a ordenação e comparação dos dados em uma escala continental, mesmo que não se compartilhe dos princípios evolucionistas de seus autores.
Os estágios relevantes a essa apresentação, definidos a partir de critérios econômicos - padrões de uso dos recursos naturais - e cronológicos - mudan- ças nas temperaturas médias do planeta, são os seguintes: paleoíndio, arcaico e formativo (modificado de Willey e Phillips, 1958: 75). Fique bem claro po- rém que esses estágios não são mutuamente exclusivos, nem tampouco repre- sentam etapas evolutivas lineares.
O paleoíndio foi definido como "o estágio de adaptação de sociedades imigrantes às condições climáticas e fisiográficas glaciais tardias e pós-glaciais iniciais no novo mundo" (Willey e Phillips, 1958: 80). Em outras palavras, esse período corresponde ao intervalo que se estende desde as primeiras ocu- pações do continente americano até o final do Pleistoceno, há cerca de 10.000 anos, uma época marcada pelo aumento das temperaturas médias do planeta e pelo fim das glaciações. As evidências disponíveis para o paleoíndio - em sua maioria compostas por artefatos de pedra lascada - indicam uma diversi- dade de modos de aproveitamento dos recursos naturais: havia populações de caçadores especializados de grandes animais e também grupos que faziam uso variado de um número maior de recursos. Tal variabilidade estava ligada às condições ecológicas específicas de cada região ocupada por essas populações (Dillehay et alli, 1992).
O arcaico também inclui populações de caçadores, mas nesse caso adap- tados à condições climáticas mais próximas das atuais (Willey e Phillips, 1958: 107). As ocupações arcaicas situam-se cronologicamente dentro do Holoce- no, um período geológico que se estende desde há 10.000 anos até o presente. Com a extinção de vários dos animais caçados pelos seus ancestrais paleoín- dios, as populações arcaicas adotaram estratégias adaptativas mais diversifi- cadas que incluiam a exploração de recursos aquáticos como moluscos, a caça de pequenos animais e o manejo e domesticação de várias espécies de plantas.
O formativo foi definido "pela presença de agricultura ou qualquer ou- tra economia de subsistência de eficiência comparável, e pela integração bem sucedida dessa economia a ocupações sedentárias em aldeias'' (Willey e Phillips, 1958: 146). A prática da agricultura e a redução do nomadismo tiveram como conseqüência um aumento populacional significativo, e conseqüentemente o aumento da densidade demográfica.
O Paleoíndio: os primeiros habitantes.
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índios americanos, é Homo sapiens*, cuja origem se deu na África há cerca de 100.000 anos. Os índios americanos descendem assim de populações ad- vindas de outros continentes, provavelmente a Ásia, que aqui se se fixaram em um período ainda indeterminado. Pode-se afirmar, portanto, que o conti- nente americano passou por pelo menos dois processos distintos de ocupação humana: o primeiro, quando o continente era ainda desabitado, corresponde às migrações dos ancestrais dos índios; o segundo, bem mais recente, corres- ponde à conquista européia.
Não existe consenso entre os arqueólogos quanto à antigüidade da ocupa- ção humana na América do Sul, mas há uma tendência a que se revejam idéias anteriormente aceitas sobre esse tema. O ponto de vista tradicional favorece a idéia de uma ocupação relativamente recente do continente por populações advindas da América do Norte via istmo do Panamá há não mais de 12.000 anos (Meltzer, 1989). No entanto, resultados de pesquisas recentes têm levado a que se reconsidere essa hipótese, e alguns autores defendem a idéia de que o continente já era ocupado há mais de 30.000 anos (Guidon, 1992, Prous, 1991).
As paisagens encontradas pelos primeiros habitantes da América do Sul eram bastante diferentes das atuais. Durante o período Pleistocênico - que du- rou de 4.000.000 a 10.000 anos AP (antes do presente) - as temperaturas mé- dias do planeta oscilaram bastante. No final do Pleistoceno houve pelo menos dois períodos de redução significativa de temperatura na América do Norte, um de 80.000-75.000 a 65.000-45.000 AP; e outro de 25.000-23.000 a 14.000-10.000 AP (Fagan, 1987, Wright, 1991). Em pelo menos dois perío- dos, o nível do mar baixou a ponto de emergir uma ligação contínua de terra entre a Sibéria e o Alaska, chamada Beringia, na região do Estreito de Be- ring. Por volta de 50.000 anos AP o nível do mar baixou por volta de 60 m. e há 20.000 anos essa regressão foi de cerca de 90 m (Fagan, 1987: 105).
Tais evidências levaram vários autores a defender a hipótese de que a ocu- pação das Américas foi feita por caçadores que atravessaram a região do Es- treito de Bering durante um dos períodos de regressão do nível do mar (Fagan, 1987, Wright, 1991), embora outros acreditem que a possibilidade de uma ocupação por via marítima pelo litoral noroeste da América do Norte não deva ser descartada (Meltzer, 1989). A arqueóloga brasileira Niède Guidon empre- ga evidências paleoepidemiológicas, isto é, evidências de antigas doenças pre- sentes no registro arqueológico, para contestar a hipótese de que Bering seria a única via de penetração. Baseada na descoberta de Ancilostoma duodenalis - um parasita intestinal dos seres humanos cuja larva não se desenvolve a bai- xas temperaturas - em coprólitos (fezes fossilizadas) encontrados em sítios do Piauí datados em 7.750 AP, Guidon sugere que populações advindas de cli-
3. A espécie Homo sapiens é dividida em duas subespécies: a já extinta Homo sapiens neanderthalensis, ou "homem de neandertal" e Homo sapiens sapiens, a espécie à qual nós pertencemos.
mas quentes, e portanto não da Sibéria ou do Alaska, ocuparam os sítios por ela escavados (1992: 39).
Na América do Sul, existem pelo menos quatro sítios para os quais foram postuladas ocupações humanas anteriores a 20.000 anos AP: Pikimachay, no Peru; Monte Verde, no Chile; Toca da Esperança, na Bahia e Toca do Bo- queirão do Sítio da Pedra Furada, no Piauí. Para esse último sítio, datas de até 48.000 anos AP foram obtidas para amostras de carvão de fogueiras cir- culares delimitadas por blocos de rocha caídos da parede do abrigo. Associa- da a essas fogueiras há uma indústria de objetos de pedra lascada feitos a par- tir de seixos de quartzo e quartzito (Guidon, 1992).
As objeções feitas a essas datas são de dois tipos. Primeiramente, é ques- tionada a autenticidade das fogueiras: seriam elas de autoria humana ou pro- duto de fogos naturais ? Segundo, questiona-se a autoria dos objetos de pedra lascada encontrados no sítios, já que eles são feitos da mesma matéria prima que compõe a rocha matriz dos abrigos, podendo portanto ser resultado de lascamentos naturais provocados por desabamentos da rocha matriz (Lynch, 1990, Prous, 1991).
Como se percebe, a questão da antigüidade da ocupação humana no Bra- sil e nas Américas é ainda controversa, talvez pela falta de evidências que possam ser consideradas inequívocas (Meltzer 1989, 1991). Tais evidências incluiriam ao menos um ou mais desses elementos: padronização na indústria lítica indicando claramente a autoria humana dos objetos de pedra lascada; presença de artefatos de osso ou de marcas padronizadas de corte feitas por objetos de pedra em restos ósseos; presença de estruturas arquitetônicas geo- métricamente bem definidas; demonstração clara da associação entre foguei- ras e artefatos de autoria humana (Toth, 1991: 69-70). Some-se a isso a alta probabilidade de que vários dos sítios relacionados às ocupações mais antigas das Américas estejam agora submersos por causa das oscilações no nível do mar (Prous, 1991: 142) ou enterrados sob dezenas de metros de sedimentos de antigos abrigos sob rocha destruídos por ação natural (Collins, 1991), e é fácil perceber que essa questão não será resolvida num futuro próximo. Inde- pendentemente das divergências, é um fato estabelecido pela arqueologia que, ao redor de 11.000 anos AP, já havia uma considerável variabilidade tecnoló- gica nas indústrias líticas conhecidas no continente sul Americano (Dillehay et alli, 1992: 147), o que indica uma profundidade temporal de ocupação maior que 12.000 anos AP.