Architectures de la Vie Privée, Monique Eleb-Vidal
1.4. ARQUITECTURA COMO MAPA DE RELAÇÕES DE PODER
Toda a arquitectura é política, no sentido em que todas as formas de edificado pressupõem e medeiam práticas e relações de poder entre indivíduos. Foi isto que se verificou, até agora, neste capítulo.
É possível então discernir relações de poder tornadas manifestas em espaço; discursos tácitos que são colocados em cena pela ordem espacial de objectos. Vejamos de seguida, e de um modo sucinto, mais alguns exemplos:
Por exemplo, a kitchenette, ou a tendência que se verifica de
reduzir na área às cozinhas e de as incorporar dentro de outras divisões, como a sala, demonstra a perda de valor da cozinha e da mulher como o centro da casa de família, e da família em si enquanto comunidade habitacional base da sociedade (em 2.3 explorar-se à outro tipo de comunidade habitacional, a “egosfera”). A entrada das mulheres no mercado de trabalho dificultou a conjugação dos papéis de “dona-de- casa” e trabalhadora.71 Neste caso, estamos a falar de uma modificação na arquitectura que reflecte – ou está em muito ligada – a modificações na sociedade em geral e nos seus discursos.
Noutro exemplo, a separação entre sexos na maior parte das instalações sanitárias públicas remete para uma prática cultural que continua absolutamente cimentada. A relação das funções fisiológicas abjectas com a proximidade à sexualidade levou à difusão desta prática, cujo fundamento moral naturalmente virá da matriz hebraico-cristã na qual a sexualidade deve estar privatizada e prevenida. A separação de géneros nas instalações sanitárias públicas é uma forma de biopolítica 72 . É uma forma de exercer poder, e de politizar a arquitectura. A este propósito, Foucault diz:
O que eu pretendo focar é que a partir do século dezoito, todas as discussões da política como a arte do governo dos homens inclui necessariamente um capítulo ou uma série de capítulos sobre urbanismo, sobre estruturas colectivas, sobre higiene e sobre arquitectura privada. (...) Esta mudança talvez não esteja nas reflexões dos arquitectos sobre arquitectura, mas verifica-se claramente nas reflexões dos homens da política.73
71 É possível argumentar que os progressos que se verificaram nos direitos da maioria da população nos últimos cento e cinquenta anos – tais como o sufrágio universal, os direitos dos trabalhadores ou o visível crescimento da qualidade de vida aos mais variados níveis nas sociedades ocidentais – se deveu não tanto a atitudes de base filosófica progressista da classe política, mas antes a avanços tecnológicos e capitalistas.
72 Este termo é aqui utilizado conforme o usa Foucault, isto é, para fazer referência às formas e relações de poder cujo objecto são o corpo e a vida.
73 Michel Foucault, “Space, Knowledge, Power”, entrevista com Paul Rabinow in Rethinking Architecture”, Neil Leach, “What I wish to point out is that from the eighteenth century on, every discussion of politics as the art of government of men necessarily includes a chapter or a series of chapters on urbanism, on collective facilities, on hygiene, and on
kitchenette “Instalações Sanitárias” Exemplos de relações de poder enunciadas pela arquitectura
Mesmo uma análise en passant a, por exemplo, uma Igreja
Católica Romana comum, nos mostra o quão sofisticado consegue ser um simples dispositivo arquitectónico. Nestas, é possível verificar uma prática que se caracteriza por um grande respeito e solenidade ritualística. Nas igrejas há silêncio; há um percurso central que vai da entrada ao altar e se deve respeitar como sendo mais cerimonioso do que os laterais ou os momentos em que se está nos bancos; os próprios bancos estão compostos de modo a possibilitarem três modos de estar ao fiel – de pé, sentado ou ajoelhado, sempre voltado para a frente. A aproximação ao altar é algo de tamanha solenidade que requer que o fiel se ajoelhe ou faça uma vénia; e a área onde o sacerdote efectua os rituais e a prática religiosa está no absoluto centro das atenções, apenas ultrapassado em importância pelo símbolo máximo da Cristandade, que em todas as igrejas paira sobre ele e encara a assembleia. Também existem elaboradas práticas rituais; cuja matriz é semelhante em todas as igrejas, e onde estão contidos elementos de resposta coordenada por parte da assembleia a frases específicas do sacerdote ou dos oradores. Existe também, em muitos casos, uma hierarquia de santos que se vai dispondo lateralmente na igreja, bem ou até o interessante dispositivo confessional, onde o fiel deve assumir falhas de comportamento, segundo um código de conduta (um tipo de discurso) específico, perante uma figura de autoridade masculina que se encontra velada e que prescreverá a solução e a redenção para os seus não-cumprimentos.
O mais interessante neste dispositivo tem a ver com a aparente relação entre a Arquitectura, as práticas e os seus discursos, e os equilíbrios emocionais e psíquicos dos fiéis. Existe toda uma economia de conduta, penitência e redenção que está suportada por um conjunto de práticas, que por sua vez se apoiam numa antiga e poderosa instituição, e tudo isto por sua vez tem uma arquitectura específica que a coloca em acção. Este dispositivo coloca em cena um tipo particular de poder, denominado por Foucault de “poder disciplinar”74. Há aqui, em acção, um complexo mecanismo de exercício de poder, cuja principal virtude é sua efectividade enquanto dispositivo e a sua private architecture. (...) This change is perhaps not in the reflections of architects upon architecture, but it is quite clearly seen in the reflections of political men”pág.368
74 Poder disciplinar é poder internalizado, incorporado pelas pessoas, onde cada um se disciplina a si próprio. O objetivo deste tipo de poder é criar indivíduos dóceis, constituintes óptimos do corpo social. Indivíduos que são tanto constituintes das massas como vigilantes amadores da conduta dos outro. Em “Vigiar e Punir”, Foucault explora este tipo de poder, mencionando o panóptico como um dispositivo que o coloca em cena de um modo quase automático.
Podemos até equiparar o poder disciplinar efectivado pela Igreja e pelo conjunto das suas práticas e discursos associados a um tipo próprio de panopticismo – o seguinte verso da bíblia a isso faz referência:
triangulação dispositivo-discurso-poder. Vale pelo refinadíssimo manuseamento das economias psíquicas dos indivíduos, bem como pelo definitivo poder exercido no corpo social – tanto no decurso da História como na contemporaneidade.
Resumindo, espaço e poder são indissociáveis. O espaço coloca
em cena discursos, através dos quais a pessoa se sujeita e é produzido
enquanto ser individual. Assim, existe uma relação fundamental entre espaço – ou dispositivos espaciais – e o indivíduo; é uma relação mediada por discursos e por relações de poder. Esta relação é frequentemente inconsciente – mas não tem que ser. Esta dissertação pretende demonstrar alguns meios através dos quais se pode manipular a relação entre poder, arquitectura, discursos e o indivíduo.
A noção de que a capacidade de um edifício produzir lugar precede
os discursos e a cultura é exactamente aquilo que esconde as estratégias de poder patentes no lugar. Rem Koolhaas constata, de um modo adequado a este argumento, que “A arquitectura não consegue fazer nada que a cultura não faça”75. Assim, só tendo em conta a relação entre discurso, poder, dispositivo espacial e indivíduo é que se pode aspirar a
uma prática arquitectónica mais completa, pós-arquitectónica. Isto
acontece porque a própria noção e vivência de espaço é intrínseca ao indivíduo; por outras palavras, o espaço nunca é uma coisa absoluta em si mesma, mas existe somente em função do Homem e da sua
subjectividade.
A arquitectura é assim, ela própria uma forma de o indivíduo
olhar: para si, para os outros e para o mundo.
75 Rem Koolhaas, interview in Wired, Julho de 1996. Consultada em 19/02/2015, disponível em:
http://archive.wired.com/wired/archive/4.07/koolhaas.html “Architecture cannot do anything that the culture doesn’t”