ARQUITETURA, LUGAR E ESPAÇO: A CIDADE E O COLÉGIO
4.1 - A cidade de Campina Grande e o bairro da Prata, locus de edificação do Colégio
Se o pandeiro, como o amor e o poder, tem olhos, discursa e encanta, ele inventa e poetisa imagens de Campina ... a essas imagens poéticas se juntam outras tantas, científicas, acadêmicas, racionalizadas ou desarrazoadas, elitistas ou populares, às vezes saudosistas,
porém, sempre ‘tendenciosas’... e são possíveis construções,
narrativas e histórias várias dessa cidade, ela pode ser pensada, sentida, resignificada e vista através de vários ângulos e olhares (sem que com isso se hierarquize saberes), possibilitando um desfile de imagens, tal qual um caleidoscópio, vislumbrando inúmeras análises e interpretações. (CAVALCANTI, 2000, p.58)
O trecho que introduz esse item é bastante oportuno para iniciar essa reflexão, tendo em vista que não são raros os estudos que se debruçaram sobre a cidade de Campina Grande como locus de investigação, resultando uma multiplicidade de imagens para ela, como bem atesta Cardoso (2002, p.41) “Assim como várias cidades médias no interior do Nordeste, Campina Grande foi objeto de estudos e de muitos outros trabalhos no campo da historiografia, estudos e pesquisas acadêmicas”. Existe sobre essa cidade um arsenal de produções acadêmicas, memorialistas, poéticas que têm procurado esmiuçá-la a partir dos ângulos sociais, econômicos, culturais, educacionais, dentre tantos outros. Dos vários olhares elaborados acerca de Campina Grande uma versão tem sido predominantemente acentuada na história da cidade, independente do ângulo referencial, a saber: a representação da “Rainha da Borborema” como símbolo
de modernidade e de progresso. Teria essa cidade motivos para receber essa representação? Nas matérias dos veículos de informação, nos poemas, nos cordéis e em algumas produções acadêmicas é fortemente evidenciada essa percepção, principalmente no período que vai do advento da República até os fins da década de 1950.
Considerando essas discussões não é nosso interesse de pesquisa confirmar ou refutar essa representação a ela confiada, pois já tem sido depositados esforços nessa
direção. Importa-nos trazer à tona alguns estudos já elaborados sobre essa cidade, buscando fazê-los conhecer historicamente e de forma sucinta Campina Grande numa relação com nosso objeto de estudo, o Gigantão da Prata.
Campina Grande se situa no Agreste Paraibano e desde os primeiros momentos do aldeamento surgido no final do século XVII desempenha um papel estratégico na ligação do litoral ao sertão, caracterizando-se por uma intensa mobilidade da população e pelo desenvolvimento da atividade comercial, elemento fundamental não apenas para configuração do perfil do nascente povoado, como também para sua elevação à condição de vila e cidade, cuja emancipação municipal ocorreu em 11 de outubro de 1864. A lei provincial que assegurou essa transformação foi a de nº. 127, assinada pelo presidente Sinval Odorico de Moura. Vejamos tal lei citada por Elpídio de Almeida em livro sobre a cidade de Campina Grande:
LEI N. 127
De 11de Outubro de 1864.
Sinval Odorico de Moura, Bacharel Formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Academia de Olinda, Oficial da Imperial Ordem da Rosa, e Presidente da Província da Paraíba do Norte: Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléia Legislativa Provincial resolveu, e eu sanciono a Lei seguinte:
Art. Único – A Vila de Campina Grande fica elevada a categoria de cidade, conservando a mesma denominação, e revogadas as disposições em contrário.
Mando portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da presente Resolução pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém. O secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr.
Palácio do Governo da Paraíba, em 11 de outubro de 1864.
Sinval Odorico de Moura (conforme ALMEIDA, 1978, p. 132-133).
Ainda no período monárquico, Campina Grande já era tida como um dos principais núcleos urbanos do interior paraibano:
Campina, na primeira metade do século XIX, já se destacava como um dos principais núcleos urbanos do interior. Centro comercial, cujas feiras de gado e cereais atraiam tropeiros das áreas limítrofes, foi impulsionado pelo incremento da produção algodoeira (GURJÃO, 1994, p. 23-24)
Corroborando com o dito crescimento de Campina Grande, em 1907 é implantado o ramal da Great Western of Brazil Railway Company Ltda. Com essa
implantação,
[...] a cidade começou a crescer e seu comércio ressurgiu, vencendo imediatamente Guarabira e Areia, Alagoa Grande e Itabaiana. Ponto terminal de trens, para ela foram convergindo todos os tropeiros e boiadeiros do interior. Era a consolidação dos seus elementos mais tradicionais. O mercado interno tomou certo aspecto de estabilidade, mesmo sem ter independência econômica, que lhe indicou os rumos a tomar para a concretização de um grande centro de atividades mercantis que viria a ser dentro em breve.
Surgem na cidade colégios, cinemas, clubes dançantes, armazéns de mercadorias em trânsito, de estivas por atacado e de algodão em pluma; carroças de bois para transporte urbano de mercadorias, etc (CÂMARA, 1998, p. 68) .
Não se pode negar o impulso em direção ao desenvolvimento que se deu na cidade após a implantação da linha férrea, como diretamente enuncia o poeta na literatura de cordel intitulada Fragmentos da História de Campina Grande:
Com a chegada do trem Mais progresso aqui brotou, Trazendo comerciantes Que aqui acreditou, Investiram na cidade
E todo povo lucrou. (SALES, 2003, [s.p.])
É ressaltado que a construção da ferrovia veio modificar a aparência da cidade de Campina Grande, pois “sem eliminar o tradicional burro, o trem trouxe maior velocidade no escoamento das mercadorias e facilidade na locomoção das pessoas” (GONÇALVES, 1999, p.35).
Segundo Nascimento (1997), a implantação dessa estrada em Campina Grande respondeu a uma antiga reivindicação da população daquela localidade que, ressentia-se da falta de meios de transportes eficientes para escoar os produtos que ali chegavam. A estrada de ferro, de acordo com a autora, além de acelerar o processo de modernização da cidade e sua articulação com o restante do país, promoveu uma modificação na rotina dos campinenses, a saber:
A rotina da população foi definitivamente alterada, a partir daquele dia [2 de outubro de 1907]. A estação ferroviária tornou-se o principal local de reunião das pessoas que para lá se dirigiam com a intenção de enviar ou receber mercadorias, como também, para saber as notícias do Recife e do restante do país. A ida à estação ferroviária fazia parte do cotidiano da população (NASCIMENTO, 1997, p. 35)
É evidenciado nos estudos sobre Campina Grande que após essa implantação, intensificaram-se as acomodações de lojas, fábricas, indústrias e diversas outras instalações necessárias a uma cidade em suposto desenvolvimento. Algumas dessas instalações foram: em 1918, chegada do automóvel em Campina Grande; 1920, instalação da luz elétrica; 1923, fundação da Loja Maçônica “Regeneração Campinense” e inauguração da Agência do Banco do Brasil; 1924, inauguração do primeiro grupo escolar de Campina; 1925, implantação do novo mercado e inauguração da primeira fábrica de sabão; em 1926, iniciada a construção do hospital Pedro I e fundada a Associação Comercial; em 1928, a instalação das primeiras fábricas têxteis(CÂMARA, 1998). Ademais, na primeira metade do século XX, passou a ser a segunda cidade exportadora de algodão do mundo, destacando-se como a “Liverpool Brasileira”. De acordo com Sousa (2007), a instalação desses equipamentos urbanos e instituições foram dando um caráter moderno à Campina Grande.
Até o início da década de 1930, Campina Grande se destacava no setor econômico no Nordeste do país, com principal evidência para o comércio. No âmbito cultural, todavia, a cidade pouca especificação dispunha, tendo, quando se leva em consideraçãoa educação pública, no ano de 1932, apenas um grupo escolar estadual, o Solon de Lucena, que foi inaugurado em 1924 (SILVA, 2009). Quanto aos estabelecimentos particulares a cidade contava, segundo o Almanach de Campina Grande (1932), com 17 instituições de ensino. Essa assimetria entre as áreas econômica e cultural nessa época pode ser melhor evidenciada a partir do Quadro VIII, elaborado por Rodrigues e Silva (2012) com base em dados apresentados no Almanach de Campina Grande para o ano de 1933.
QUADRO IX
Comércio, indústria, profissões na cidade de Campina Grande – 1932 ESPECIFICAÇÃO NÚMERO Armazéns de algodão 29 Bancos 5 Cinemas 2 Clubes recreativos 8
Fábricas/Moinhos de milho/Torrefações de café 16
Hospitais 6
Hoteis 9
Livraria 1
Médicos, dentistas e advogados 21
Oficinas de conserto de automóveis 5
Tipografia 3
Fonte: RODRIGUES e SILVA (2012)
Os dados expostos no quadro acima indicam certo dinamismo na vida urbana de Campina Grande, desde armazéns e fábricas até hotéis, hospitais, bancos, clubes entre outros equipamentos de urbanidade. Nesse dinamismo, porém, é possível observar uma certa assimetria entre as áreas econômica e cultural, quando se percebe a existência de apenas uma livraria e dois cinemas na cidade. Sabemos que essas existências, no âmbito cultural, significaram muito quando se leva em consideração cidades do interior na época em foco. Todavia, essa informação corrobora com o que várias pesquisas têm apontado quanto ao crescimento do setor econômico em detrimento da esfera cultural, na antiga Rainha da Borborema nos anos de 1930.
O quadro exposto também nos evidencia a força do setor do comércio naquela época em Campina Grande, com um considerável número de armazéns e fábricas em relação às outras especificações. Para Pimentel (1958) é, precisamente, a partir de 1930 que essa cidade aumentou substancialmente seu movimento comercial, entrando em tráfego normal os caminhões transportadores de cargas, que “relevante e incontáveis serviços prestaram a Campina Grande no tocante ao desenvolvimento” (MOBRAL, 1984, p.44).
Essa assimetria entre o âmbito econômico e o cultural, porém, foi paulatinamente minimizada com o adentrar dos anos de 1940. Em conformidade com Souza (2005) é a partir dessa década que se proliferam as possibilidades de divertimentos na sociedade campinense, tanto para a elite como principalmente para os populares. Passaram a existir desse período em diante,
[...]cinemas, clubes, auditórios de rádio, igrejas, teatros e mesmo praças e passeios que serviam durante muito tempo para o desfile das elites campinenses. Mas além destes lugares tidos como locais de lazeres edificantes, a cidade possuía também um conjunto de bares, cafés, restaurantes e cabarés que atendiam tanto aos endinheirados quanto aos populares. (SOUZA, 2005, p.187)
Durante a década de 1940, do ponto de vista urbano, a cidade de Campina Grande continuou avançando, influenciada pelo crescimento econômico, sobremaneira, devido à forte produção de algodão. Em consequência disso, a cidade passou a ser cada vez mais procurada para se tornar local de morada de muitos sertanejos, por isso, como apresentamos anteriormente, obteve um grande percentual populacional, superando a capital do estado. Complementando essa afirmação, Cardoso (1964, p.418) ressalta que a cidade, nesses anos, “entra numa fase de extraordinário desenvolvimento, que se reflete na notável expansão de seu espaço urbano, nas obras de saneamento e na inauguração do serviço de abastecimento de água”. Daí, as representações propagadas, principalmente em jornais, destinadas à manipular as imagens mentais da população em considerar Campina Grande moderna e cosmopolita.
Ainda nos anos de 1940, Campina Grande passou por um radical processo de urbanização, idealizado principalmente pelo prefeito da época Vergniaud Borborema Wanderley, campinense de família abastada e formado em direito pela Faculdade do Recife. Esse processo de urbanização objetivou promover uma reorganização urbanística na cidade, mediante um “plano material” através do qual se desapropriou, demoliu, comprou, edificou prédios na cidade e se abriu novas ruas. Algumas das modificações realizadas na administração desse prefeito são descritas abaixo:
No seu "plano material" para a cidade estava previsto, embora não o confessasse, o fim do Largo da Matriz, e aproveitou também para acabar com o Largo do Rosário, cerca de trezentos metros dali no sentido oeste. Indenizou e mandou derrubar casas que obstruíam a passagem em direção ao oeste e fez a mesma coisa com a Rua Venâncio Neiva, que descia em direção ao sul, alinhando-a com a Vidal de Negreiros, abrindo assim duas novas perspectivas para os moradores do lugar: a primeira, que levava do Largo da Matriz até o lado da Praça da Luz (Clementino Procópio) e ao Largo do Rosário; e a segunda, que facilitava o deslocamento da área central em busca das ruas que se tornaram por este tempo lugares preferidos pelas elites: Vidal de Negreiros, Floresta, Afonso Campos, Irineu Joffily, Dr. João Tavares, Desembargador Trindade, João da Mata, e a nova e ajardinada Praça Coronel Antônio Pessoa. (SOUSA, 2003, p. 74)
Uma dessas mudanças foi registrada. Segue fotografia que representa um dos momentos de demolição de casas para abertura de avenida na gestão desse prefeito.
Foto 16 - Rua Marquês do Herval quando na efetivação do “Plano Material” do Prefeito Vergniaud Wanderley, 1942
Fonte: Blog Retalhos Históricos de Campina Grande
Foto 17 - Largo da Matriz (Rua Floriano Peixoto)
Nessa última fotografia, organizamos um detalhamento das mudanças implementadas por Vergniaud Wanderley no chamado Largo da Matriz. No lado esquerdo da imagem, foi realizado o alinhamento das casas recuadas com o prédio do Grupo Escolar Solon de Lucena, visto no fim da linha que traçamos. As casas que indicavam o ponto limite da Rua Floriano Peixoto, que se encontram destacadas na fotografia, foram demolidas para ampliação da rua. Por fim, observamos no último circulo a Igreja do Rosário, onde se localizava o Largo do Rosário, local que também foi derrubado para o melhoramento urbano idealizado pelo então governo municipal.
De acordo com Cavalcanti (2000), essas mudanças na arquitetura da cidade de Campina Grande vieram acompanhadas por um processo violento, arbitrário e ditatorial em nome do moderno. A intenção era adequar a cidade aos padrões estéticos típicos de grandes centros como já eram São Paulo, Rio de Janeiro e outros e minimizar a convivência de conjuntos arquitetônicos opostos.
Tratando dessa ação de Vergniaud em Campina Grande, Cabral filho (2007) vai mais além, destacando que o prefeito, na verdade, procurou copiar o modelo de matriz europeia de urbanização para remodelar e realizar as mudanças na cidade, levando a frente um planejamento técnico.
Diante desse desenho de Campina Grande se modernizando, principalmente no âmbito arquitetônico, entretanto, eram silenciadas outras imagens da cidade entre os anos aqui discutidos, como enfaticamente ressalta o fragmento a seguir:
[...] silêncios eram produzidos para outras possibilidades de expressão ou de desenho da cidade e da vida urbana. Interessava a estas vozes, que buscavam se fazer hegemônicas, a existência de um sem número de sujeitos calados, obedientes, produtivos no seu alheamento, na sua colocação à margem dos eventos realmente eficientes. A estratégia maior era fazer com que este desejo de identificação com a modernidade passasse por ser o desejo de toda a cidade, como se fosse possível canalizar numa única conformação da paisagem a energia dos desejos. (AGRA DO Ó, 2006, p.19)
Em conformidade com Cabral Filho (2007), essas imagens silenciadas eram problemas de saneamento básico, principalmente abastecimento de água, de oferta de melhoramentos nas áreas de saúde e educação, mediante respectivamente aumento no atendimento aos serviços de saúde e ampliação de escolas públicas, com necessidade de diminuição das taxas de analfabetismo na cidade.
Nos anos de 1950,
Campina Grande ainda se vangloriava da riqueza adquirida nos prósperos anos da produção de algodão. Seus intelectuais e jornalistas escreviam sobre ela com um ufanismo só visto nas grandes cidades e metrópoles. As comparações com São Paulo, Chicago, e mesmo Nova Iorque, eram uma constante. Também não era para menos. O município de Campina Grande, de acordo com o censo de 1950 era considerado o 13º do Brasil, em um total de 1.890 municípios. (SOUZA, 2003, p.02)
Nessa década, o desenvolvimento econômico não era somente suficiente para referendar o velho desenho de cidade moderna e progressista, principalmente porque “a luz de Campina quase se apaga [...], pois experienciou crises econômicas e comerciais” no final dos anos de 1950 (CAVALCANTI, 2000, p.75). Assim sendo, outros elementos deveriam se juntar para refigurar a imagem de Campina Grande como civilizada. Nesse sentido, grandes investimentos foram feitos no âmbito cultural e educacional, quais sejam: criação da Escola Politécnica (1952); da Escola Técnica de Comércio de Campina Grande; Fundação para o Desenvolvimento da Ciência e da Técnica (1952); do Colégio Estadual de Campina Grande (1953); da Faculdade de Ciências Econômicas; da Faculdade Católica de Filosofia de Campina Grande; da Faculdade de Serviço Social de Campina Grande, também mantida por religiosos.
Indicando essa representação de Campina Grande recebendo investimento no âmbito intelectual no período em foco, um fragmento do jornal Gazeta da Borborema, de circulação local, assim confirma essa imagem na matéria intitulada Indústria de Germes.
Acusava-se Campina de ser uma cidade de características essencialmente comercial e industrial, sua vida intelectual era tida como inexistente dada a inércia dos homens de letras.
Entretanto, de alguns anos tem-se visto uma verdadeira arrancada intelectual que deixa boquiabertos os que não acreditavam no seu progresso nessa atividade. (Jornal GAZETA DA BORBOREMA, 1957, p. 01)
Mesmo não apresentando elementos que viessem a especificar que arrancada intelectual tenha sido essa, ou melhores detalhamentos dessa largada, a matéria do jornal expõe um provável investimento, ou até mesmo um simples destaque para essa área que até o início dos anos de 1940 não tinha espaço nos relatos ou textos
jornalísticos como campo de progresso na cidade.
É, portanto, nesse contexto da cidade que o Gigantão da Prata é edificado e inaugurado. No que tange a sua localização no âmbito de Campina Grande, o prédio é erguido no bairro denominado Prata (Imagem 1), localizada na zona oeste de Campina Grande-PB e cuja criação foi na década de 1950 quando a cidade passou pelo processo de expansão do seu espaço urbano.
Imagem 1 - Mapa dos Bairros de Campina Grande
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Bairros_de _Campina_Grande.svg
É possível observar que o bairro da Prata fica situado muito próximo ao centro da cidade, o que proporcionou considerável desenvolvimento ao mesmo. Segundo Cabral Filho (2007, p. 309-310), o bairro da Prata surgiu com promessas de prosperidade, já sendo vislumbrado como localização nobre, uma vez que foi “espaço onde começaram a fixar residência os abastados locais e também abrigo de importantes instituições: além da Igreja do Rosário; [...]; o Cinema Avenida (1945); e a Casa de Saúde e Maternidade Dr. Francisco Brasileiro (1946)”. Nesse bairro, portanto, faltava apenas uma instituição educacional de grande porte, o que foi concretizado em 1953,
com a segunda instituição de ensino secundário público da Paraíba, que ocupou um vasto espaço nesse bairro, cuja discussão enfatizaremos no item seguinte.
Na década de 1960, a cidade de Campina Grande passou a ter um vasto investimento no âmbito do ensino superior, com a criação da Universidade Regional do Nordeste (FURNE). Consideramos que este investimento foi impulsionado pela demanda da juventude campinense que concluía os estudos de nível secundário, principalmente a partir do Gigantão da Prata, colégio que atendia cerca de dois mil estudantes no seu momento inicial de regular funcionamento. Reforça também este investimento no ensino superior durante esta década as reivindicações apresentadas durante o I Congresso dos Professores Secundários, abordado anteriormente.
4.2 - Uma leitura referente à arquitetura e ao espaço escolar do Colégio Estadual de Campina Grande
Considerando a estrutura física de um lugar como espaço que educa e civiliza, perguntemos: qual valor simbólico apresenta um prédio escolar? Um espaço físico de um colégio pode influenciar no processo educacional dos atores envolvidos nesse processo? Que sentido apresenta a edificação do Gigantão da Prata nos anos estudados?
Essas perguntas nos levam à seguinte discussão. Primeiramente, pensar a edificação de um prédio escolar, sua arquitetura, como uma forma de comunicação simbólica (BOURDIEU, 2010). Por exemplo, em uma localidade é muito fácil identificar um estabelecimento escolar pela sua forma arquitetônica, mesmo em diferentes épocas quando surgem prédios próprios para esse fim. Isso significa que “a função codificou a forma, gerando signos arquitetônicos” para esse tipo de edificação (SALES, 2000, p.44).
Corroborando essa compreensão, Correia (2005), tratando do Colégio Estadual do Paraná do ano de 1943 ao ano 1953, afirma que a arquitetura escolar tem sido entendida como símbolo de diferentes épocas e reveladora de programas de um período político, como foram os principais edifícios escolares no início da República em diferentes estados brasileiros, monumentais e imponentes enaltecendo o novo regime político. Ademais, a arquitetura dos prédios escolares se tornou parte integrante do novo ordenamento urbano desse período. Esses prédios “planejados para que se destacassem em meio aos demais prédios, provocando a admiração daqueles que os observassem” (REIS, 2006, p.77) instituíram uma nova cultura escolar, a da monumentalidade dos