O Regimento Interno do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro que se encontra para acesso no site do arquivo é o de 1979 e vem com a observação de que está sendo reformulado. Porém consta uma publicação do Regimento Interno do AGCRJ no Diário
36 Lei estadual n. 5.562/2009, lei n. 8.159/91, decretos estaduais n. 43.597/2012 e n. 44.131/2013 e o art. 5º, X, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
Oficial do Município do Rio de Janeiro,37 dispondo sobre a sua natureza, finalidades, estrutura organizacional, competências e atribuições e disposições gerais. A natureza do AGCRJ é semelhante às do Arquivo Nacional e do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, mas voltada para o âmbito municipal. Sua missão é
implementar a Política Municipal de Arquivos, por meio de ações estratégicas de gestão, recolhimento, tratamento técnico, preservação e divulgação do patrimônio documental municipal, com o objetivo de garantir o pleno acesso à informação. Neste sentido, o AGCRJ visa apoiar as decisões governamentais de caráter político- administrativo e o cidadão na defesa de seus direitos, além de incentivar a produção de conhecimento científico e cultural (ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, Regimento Interno, art.1º).
Dentre as 26 finalidades que possui, as específicas ao acesso são:
VI. Dar acesso ao acervo e difundi-lo, em conformidade com a legislação vigente, garantindo pleno acesso ao patrimônio documental custodiado; [...] XII. Administrar e estabelecer diretrizes para o funcionamento da Rede Municipal de Arquivos (ARQ-RIO), visando à gestão, à preservação e ao acesso aos documentos de arquivos (ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, Regimento Interno, art.2º).
O artigo 3º afirma que cabe ao AGCRJ a gestão da “Memória da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro pela Lei Municipal n.3.404 [...] 2002, que o situou como Gestor de um Sistema de Informação”, levando em consideração o decreto municipal n. 22.615/2003 (ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, Regimento Interno).
O artigo 10 traz as competências e atribuições do órgão. As específicas ao acesso, cuja responsabilidade pertence ao diretor-geral, são:
V. Garantir o acesso ao patrimônio documental custodiado mediante a adoção de programas e projetos voltados para produção de conhecimento e divulgação da história da cidade do Rio de Janeiro; [...] X. Gerir o Sistema de Memória da Cidade do Rio de Janeiro; [...] XII. Gerir o Serviço de Informações ao Cidadão (SIC), órgão de recebimento e orientação a respeito dos pedidos de informação; XIII. Garantir, no que concerne aos documentos públicos municipais, o acesso à informação de forma objetiva, clara e transparente; XIV. Auxiliar aos órgãos da PCRJ no cumprimento das medidas legais de atendimento à Lei de Acesso à Informação; XV. Exercer o acompanhamento sobre a observância do acesso à informação; XVI. Efetuar o acompanhamento sobre as medidas adotadas para o retorno das informações à população; XVII. Medir e avaliar a eficiência e eficácia dos procedimentos de controle sobre a disseminação da informação; [...] XXV. Garantir o acesso do usuário às informações de interesse particular ou coletivo (ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, Regimento Interno, art. 10, § 1º).
À Gerência de Pesquisa cabe
VII. Elaborar e executar projetos de divulgação dos serviços e acervos custodiados, incluindo projetos de divulgação na internet; fomentar projetos de exposições internas e externas ao AGCRJ; X. Atender a pesquisadores; XI. Assegurar o acesso à informação pelo viés cultural, educativo e de atendimento ao público (ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, Regimento Interno, art. 10, § 2º).
O artigo 13 finaliza estabelecendo que a entrada em vigor deste regimento é a mesma de sua publicação (ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, Regimento Interno).38
5.5 CONCLUSÃO
Após a análise dos regimentos internos do AN, do APERJ e do AGCRJ, nota-se que tratam do acesso à informação em geral, sem alusão específica aos direitos humanos. A referência indireta aos direitos humanos ocorre por meio do reconhecimento de documentação relevante para a história nacional, já que esta cobre o período e as instituições que estiveram envolvidas nas violações dos mesmos. Os conjuntos documentais do AN são os citados nos editais e na Carta de Serviços ao Cidadão, que estabelece ademais os meios para o acesso como a assinatura do “Termo de responsabilidade pelo uso e divulgação de informações pessoais”. Os conjuntos do APERJ são os arrolados pelo decreto estadual n. 44.131/2013 e a portaria n. 18/2015 determina o uso de um termo de responsabilidade fornecido pelo Departamento de Acesso à Informação. O AGCRJ não possui legislação com transferência de documentos de órgãos de segurança, apresentando apenas um fundo39 relacionado às lutas políticas no país. O acesso a esse fundo é restrito, estipulando a necessidade de aviso prévio. Não há informações sobre termo de responsabilidade, já que a documentação consta em sua maioria de material já publicado (jornais, revistas, folhetos etc.).
Ainda que a legislação sobre acesso não trabalhe de forma tão explícita e detalhada as informações concernentes aos direitos humanos, ao menos elas foram consideradas na regulamentação mais recente sobre o direito à informação. Com relação a documentação referente às graves violações dos direitos humanos, o governo brasileiro intensificou, a partir de 2009, várias ações, como a criação do Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil - Memórias Reveladas e da Comissão Nacional da Verdade.
38 Portanto, mesmo que não esteja disponível no site, conclui-se que este regimento é o oficial e por isso será o único citado no presente trabalho.
O próximo capítulo tratará dessas ações e do acesso à documentação produzida durante o período do Regime Militar (1964-1985) custodiada pelas instituições arquivísticas públicas com sede no Rio de Janeiro. O objetivo é identificar como o Arquivo Nacional, o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro e o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro possibilitam acesso à documentação por eles custodiada relativa a graves violações dos direitos humanos.
6 ACESSO A CONJUNTOS DOCUMENTAIS RELACIONADOS A GRAVES VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS NAS INSTITUIÇÕES ARQUIVÍSTICAS PÚBLICAS SEDIADAS NO RIO DE JANEIRO
Conforme visto nos capítulos anteriores, a legislação em geral sobre acesso às informações públicas cita a questão dos direitos humanos de maneira sucinta e alude indiretamente a ela ao versar sobre a documentação dos órgãos de segurança nos decretos de transferência. Com relação ao acesso a conjuntos que comprovem graves violações, não há na legislação brasileira uma menção direta. No entanto, a partir de 2009, ela passa a se referir explicitamente às lutas políticas no Brasil. São portarias, leis e decretos cujos objetivos principais podem ser resumidospelo seguinte trecho do texto Eixo Orientador VI – Direito à memória e à verdade, do decreto n. 7.037/2009:
[...] assegurar o processamento democrático e republicano de todo esse período da história brasileira, para que se viabilize o desejável sentimento de reconciliação nacional. E para se construir consenso amplo no sentido de que as violações sistemáticas de Direitos Humanos registradas entre 1964 e 1985, bem como no período do Estado Novo, não voltem a ocorrer em nosso País, nunca mais (BRASIL, 2009).
Nesse processo, o papel das instituições arquivísticas públicas foi e continua sendo essencial, posto que têm a responsabilidade de dar acesso às informações do Estado. Diante do promulgado pela legislação, essas instituições também realizaram ações para auxiliar o governo na consecução dos alvos supracitados.
Este capítulo abordará, portanto, as ações relacionadas aos documentos produzidos durante o período do Regime Militar (1964-1985) realizadas pelo governo federal e estadual (Rio de Janeiro), por intermédio do Arquivo Nacional (AN) e do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ).40 Do governo, será apresentada a legislação. E das instituições arquivísticas, serão mencionados o edital do AN e as políticas de acesso dos conjuntos documentais custodiados por cada uma. Tais políticas serão, ademais, comparadas com as recomendações presentes nos Princípios de acesso aos arquivos41 (CIA, 2012), acerca de documentação que contenha evidência de crimes graves, a fim de analisar a sua adequação. Por último, serão descritos o processo e o resultado de pesquisa conduzida no banco de dados
40 O município do Rio de Janeiro não será contemplado pois não possui legislação concernente aos conjuntos documentais objeto deste trabalho. De igual modo, o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro não será aventado pois não possui uma política de acesso específica a esse tipo de conjunto documental.
41 Apesar do documento Princípios básicos sobre o papel dos arquivistas na defesa dos direitos humanos (CIA) ser mais relacionado ao tema, ele foi publicado em sua versão final no corrente ano (2016) e por isso não será analisada a sua aplicação por parte das instituições arquivísticas públicas brasileiras.
do site Memórias Reveladas, cujo intuito é verificar a possibilidade de identificação dos conjuntos associados a graves violações dos direitos humanos. Espera-se que, após a reunião de todos esses dados, a importância do papel do arquivista no acesso a documentos de interesse para a defesa dos direitos humanos seja melhor compreendida.