CAPÍTULO 3 − O CONJUNTO HABITACIONAL CIDADE DE DEUS
3.1. Arranjo Institucional e Plano de Desenvolvimento
3.1.1 Comitê Comunitário da Cidade de Deus
Em 2003, foi fundado o Comitê Comunitário da Cidade de Deus (CCCD), criado após o filme “Cidade de Deus”, do diretor Fernando Meirelles (2002), campeão nacional de bilheteria, indicado para concorrer ao Oscar21 e muito mal-visto pelos moradores do local, o que de certa forma revelou uma tristeza pela forma como a Cidade de Deus fora retratada e estigmatizada pela violência. Essa imagem da brutalidade levou as organizações de base comunitária, alguns moradores e instituições até mesmo de fora do território a criarem o Comitê, um fórum político participativo para pensar a Cidade de Deus, através de uma ação de coooperatividade.
O Comitê surge justamente quando da indicação do filme “Cidade de Deus” para o Oscar e a repercussão negativa que reafirmava o velho preconceito de que seus habitantes são violentos e perigosos. Unimo-nos com o propósito de articular as forças de organização e mobilização da comunidade em torno da proposta de um Plano de Desenvolvimento Comunitário. Com propostas de políticas públicas que queremos, para que todos na comunidade possam ter os conteúdos de políticas estruturante pelas quais devemos lutar, tanto para os governos, como a iniciativa privada e as universidades. O plano é como o leme de um barco a nos guiar (DIAS, et al., 2014, p. 153).
Segundo Lizete Martins, moradora da Cidade de Deus, uma das participantes do CCCD, tendo anos depois trabalhado no Banco Comunitário da Cidade de Deus,
A ideia do Comitê Comunitário da Cidade Deus nasceu logo após o filme Cidade de Deus, na união de treze instituições do bairro que foram contrárias à fala do secretário de segurança da época, que dizia que o problema da Cidade de Deus era a falta de segurança, sendo que estas instituições diziam que também faltavam saúde, educação, dentre outras problemas sociais. Estas instituições, juntamente com outros parceiros, como SESC, LAMSA, Farmanguinhos, Criança Esperança (Rede Globo/UNICEF)
entre outros, se reuniram no final de 2002 e início de 2003 para a formação do Comitê. Logo depois perceberam que a Cidade de Deus precisava de um norte, que era o Plano de Desenvolvimento Comunitário, que apresentava todas as deficiências da Cidade de Deus para o governo e as soluções divididas em nove temáticas (MARTINS, 2018). Vale destacar que, em 2003, existia o Fórum Empresarial do Rio, que foi criado por entidades do setor produtivo do estado do Rio de Janeiro, tendo como parceiro o poder público, e com o objetivo de realizar ações para o desenvolvimento social da cidade com responsabilidades compartilhadas. Sendo que este fórum teve o seu contato inicial com atores e lideranças políticas e comunitárias da Cidade de Deus. “O fórum identificou que na Cidade de Deus havia atividades de inciativas sociais, mas estas aconteciam de maneira isolada” (PFEIFFER, 2011).
... logo após a Criação do Comitê foi criado Núcleo de Articulação, composto por: 1 representante das FENASEG, 1 representante do SESC Rio, 1 representante da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (FETRANSPOR), 3 representantes do governo (federal, estadual, municipal), 3 representantes da Comissão Executiva do Comitê Comunitário e 1 representante de cada entidade/empresa parceira (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresa no Rio de Janeiro-SEBRAE/RJ, Linha Amarela S.A - LAMSA, etc.). E o Plano de Desenvolvimento Comunitário foi um dos produtos do núcleo (PFEIFFER, 2011).
3.1.2 Plano de Desenvolvimento Comunitário da Cidade de Deus
O grupo interventor de entidades de base comunitária que se transformou em Comitê Comunitário da Cidade de Deus, como consequência desta atividade, elaborou o Plano de
Desenvolvimento Comunitário da Cidade de Deus. Os representantes do território
contrataram quatro consultores para elaborarem em conjunto um documento que tinha como objetivo discutir nove áreas temáticas (educação; esporte; cultura; saúde; meio ambiente; comunicação; promoção social; habitação; trabalho, emprego e renda) para os cinco anos seguintes (2004-2009) e as suas possíveis soluções. E que contribuísse para o avanço de projetos e atividades sociais na comunidade, para que no futuro pudessem se tornar políticas públicas. A elaboração deste documento fora realizada no SESC Nogueira, no município de Petrópolis (RJ), nos dias 27 e 28 de março de 2004. A atividade foi dividida em duas etapas, de acordo com a sugestão da consultora em gerenciamento do projeto que fora contratada para esta função. Na primeira etapa foram alçadas as nove áreas temáticas e discutidas as possíveis soluções. E no segundo momento os eixos foram apresentados para as instituições que constituíam o Comitê Comunitário e o Núcleo de Articulação Empresarial.
O Quadro 7 mostra apenas a área Trabalho, Emprego e Renda, do Plano de Desenvolvimento Comunitário, não por acharmos as outras áreas menos importantes, mas por esta pesquisa se interessar pelo campo em que estão constituídos o papel da economia solidária e o apoio ao empreendedor, com fomento ao crédito.
Quadro 7: Comitê Comunitário da Cidade de Deus – Trabalho, Emprego e Renda
Principais problemas hoje Situação a Alcançar até 2009
Grande ociosidade de mão de obra Maioria da mão de obra com trabalho Baixo nível de escolaridade da mão
de obra ociosa
Maioria da população economicamente ativa com ensino fundamental completo
Baixa qualificação/capacitação profissional dos trabalhadores
Mão de obra com maior/melhor
qualificação/capacitação para absorção no mercado de trabalho
Falta de apoio ao trabalhador autônomo
Criação de cooperativas de catadores de material reciclado, construção civil, costura etc. Falta de apoio ao empreendedor Apoio e incentivo técnico financeiro ao
empreendedor Baixo nível de integração entre
agentes da economia local
Economia solidária difundida e apoiada técnica e financeiramente
Fonte: Adaptado do Plano de Desenvolvimento Comunitário da Cidade de Deus, 2004.
Importante notar que os eixos do Quadro 7 eram situações que o território almejava alcançar até 2009. Segundo Ana Lúcia Serafim Pereira, a partir do momento em que a Agência Comunitária da Cidade de Deus foi convidada para participar da Expo Brasil de Desenvolvimento Local em Salvador, no ano de 2006, e assistiram a uma apresentação de Joaquim de Mello (Coordenador do Banco Palmas), vislumbraram ainda mais a possibilidade de ter o banco na Cidade de Deus.
Com isso, podemos dizer que o Projeto Rio Economia Solidária, implantado em 2010, através de uma parceria com a Secretaria Especial de Desenvolvimento Econômico Solidário (prefeitura da cidade do Rio de Janeiro), com a Secretaria Nacional de Economia Solidária (governo federal), com recursos oriundos do Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Ministério da Justiça), que tinha como um dos objetivos a criação de um banco comunitário, pode demonstrar que respeitou os anseios do território, tendo em vista o Plano de Desenvolvimento Comunitário da Cidade de Deus um dos principais parâmetros para negociar ação coletiva e projetos com os governos e instituições que desejam investir na comunidade.
Em relação às atividades para a superação das ações almejadas para a área de Trabalho, Emprego e Renda, de acordo com o Quadro 8, o item 5 “Economia Solidária difundida e apoiada técnica e financeiramente” é também “reflexo da realidade”, na seção “o que queremos
até 2009” pode ser constatado que houve o entendimento de que um banco comunitário contribuiria para o desenvolvimento local, o que também pode estar expresso no item 1 “Maioria da mão-de-obra com trabalho”, na seção o que precisa ser feito “Criar Agência de Microfinanciamento de Empresas Comunitárias”. E na seção “quem poderá contribuir” aparece a palavra “Parceiros”; tudo isso são instituições e atores sociais dos quais o Comitê possui articulação política, tais como LAMSA, SEBRAE, entre outras.
Quadro 8: Comitê Comunitário da Cidade de Deus − Trabalho, Emprego e Renda - Superação dos Problemas
O que queremos até 2009 O que precisa ser feito Quem poderá contribuir
Como poderá contribuir
1. Maioria da mão de obra com trabalho
Criar e estruturar o Banco de Emprego (BE); criar a Agência de Microfinanciamento de Empresas Comunitárias Comitê comunitário Parceiro
Solicitando participação dos três níveis de governo implementando e gerindo o BE em parceria; buscando parcerias com instituições que atuem com qualificação profissional; capacitando, qualificando e requalificando mão de obra 2. Mão de obra com
melhor qualificação e capacitação para absorção no mercado de trabalho
Garantir vagas nas instituições profissionalizantes Comitê Comunitário Parceiros Universidades
Capacitando e qualificando mão de obra
3. Criação de cooperativas de catadores de material reciclado, construção civil, costura etc.
Incentivar técnica e financeiramente o cooperativismo; identificar mercado para absorção de mão de obra, produtos e serviços Parceiros Universidades Apoiando técnica e financeiramente,
qualificando e requalificando mão de obra; incubando as cooperativas ou associações 4. Apoio e incentivo técnico-financeiro ao empreendedor Buscar apoio e incentivo; capacitar para o empreendedorismo Comitê Comunitário Parceiros Reunindo e sensibilizando o empreendedor e o empresário da micro e pequena empresa; capacitando e apoiando técnica e financeiramente os empreendedores 5. Economia solidária difundida e apoiada técnica e financeiramente Difundir o conceito de economia solidária; apoiar o seu desenvolvimento na comunidade; implantar fábrica de materiais esportivos Comitê Comunitário Parceiros Universidades Governo (Ministério dos Esportes)
Realizando eventos e cursos com essa finalidade; capacitando a população local para a economia solidária; apoiando técnica e financeiramente
empreendimentos; solicitando implantação ao governo e acompanhando o processo; implantando a fábrica.
3.1.3 Agência Cidade de Deus de Desenvolvimento Local
A partir das reinvindicações do Comitê Comunitário da Cidade de Deus, que foram colocadas em prática no Plano de Desenvolvimento Comunitário, houve a necessidade de uma entidade jurídica, para dar um ordenamento às propostas. Sendo assim, nasce a Agência Cidade
de Deus de Desenvolvimento Local (ACDDDL), um órgão executor (institucional) do
Comitê, que, segundo Lizete Martins (2018), “nasceu em parto sem gestação”, pois surgiu de forma imediata tendo em vista a necessidade de uma entidade. Foi criada em 2006, com o objetivo de executar as áreas temáticas que foram propostas no Plano de Desenvolvimento Comunitário. Segundo Ana Lúcia Serafim Pereira (2018), presidente do Banco Comunitário da Cidade de Deus (BCCD), “a ACDDDL foi potencializada pela união das instituições que pensaram ações para o desenvolvimento local, assim construímos as comissões temáticas, que deram origem ao Plano de Desenvolvimento Comunitário”.
Em 2009, ocorreu a revisão do I Plano de Desenvolvimento Comunitário da Cidade de Deus em parceria com o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR − UFRJ). Após a revisão foi lançado o II Plano em 2010, o qual trazia o balanceamento e resultados das metas determinadas para o ano de 2009, assim como as perspectivas para os próximos cinco anos. Nesta revisão foi constatado significativo avanço nos eixos temáticos “Trabalho e Renda” e “Habitação”, um certo avanço em “Cultura”, “Educação”, “Esporte” e “Comunicação”. Os revisores apontaram poucos avanços nos setores de “Saúde”,“Meio Ambiente” e “Promoção Social” (PFEIFFER, 2011).
Pelo fato de a Agência Cidade de Deus de Desenvolvimento Local ser uma entidade jurídica, todos os projetos implantados na comunidade passavam por ela, o que não foi diferente com o projeto Rio Economia Solidária (RIOECOSOL), que, segundo Marcelo H. Costa, Secretário Especial de Desenvolvimento Econômico Solidário (entre 2009 a 2012), o projeto fez com que a agência ganhasse fôlego, pois custeou o aluguel da instituição por um ano, pois o Banco Comunitário da Cidade de Deus (BCCD) utilizava o espaço. “A escolha do banco foi importante para revigorar também a Agência, pois o espaço passou a ser também o BCCD, e o aluguel foi pago por um período de um ano”. Para a Secretaria Especial de Desenvolvimento Econômico Solidário, o local era bem central, o que, segundo eles, era um bom local para instalar o BCCD.