3. A Cidade da Copa
3.3. Arranjos normativos e “excepcionalidades”
Do geral ao particular, procuraremos, a partir da caracterização da Copa do Mundo, buscar o nexo entre a realização da Cidade da Copa na RMR e Ao analisar o empreendimento da Cidade da Copa pudemos encontrar alguns caminhos a partir dos arranjos normativos decorrentes da implantação de novas estruturas fixas naquela região metropolitana que possivelmente nos levarão a discussões pertinentes sobre o desenvolvimento de mecanismos de exceção nas cidades como desdobramentos de novas modalidades de acumulação por espoliação da fase atual do desenvolvimento capitalista.
Em São Lourenço da Mata, o Plano Diretor do Município foi alterado por encomenda do Projeto Cidade da Copa. As duas únicas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), previstas para receber Habitações de Interesse Social (HIS), foram retiradas do Plano e em seu lugar entraram as Zonas de Urbanização Preferencial (ZUP), adaptáveis à construção de empreendimentos imobiliários dos mais variados tipos. A mudança também proporcionou alterações no zoneamento de várias outras áreas, aumentando os parâmetros
144
construtivos e transformando zonas rurais em zonas urbanas. Tais alterações, movidas pelo suposto consenso construído com festas públicas, foram feitas sem quaisquer consultas prévias ou audiências públicas com a população daquele município, que sequer teve as propostas de parcelamento do solo apresentados aos órgãos responsáveis pela sua aprovação. Do mesmo modo, não se teve conhecimento sobre os obrigatórios Estudos de Impacto de Vizinhança (EIV) e, paralelamente, os Estudos e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) só foram apresentados após a construção.
145 Figura 17 - Alterações no Zoneamento do Plano Diretor de São Lourenço da Mata 2008-2011
146
A inexistência de participação social seja estaduais, seja nos municípios da RMR afetados pela construção da Cidade da Copa, negando o Estatuto da Cidade e a própria Constituição de 1988 que a exigem como requisito para tais alterações legais, contrasta com o grande engajamento dos empreendedores privados interessados no projeto em parceria ativa com o governo do Estado de Pernambuco para garantir sua execução. Por outro lado, a pouca transparência em todo o processo de efetivação de obras da Copa apontada por órgãos externos responsáveis por esse setor foi gritante; o portal transparência de Recife como cidade sede foi reconhecido como um dos menos efetivos, não havendo informações oficiais e públicas sobre, por exemplo, os traçados de obras viárias e sobre o processo de remoções derivado delas.
Quanto à remoções, a invisibilização das ações do governo foi particularmente grave porque representou uma série de violações de direitos humanos. Estudos realizados pelo Observatório das Metrópoles estimam em mais de 3300 o número de famílias/imóveis que passaram por processo de desapropriação pelas obras da Copa na RMR. Destas, apenas as referentes às obras da Via Mangue tiveram as famílias contempladas pela construção de um conjunto habitacional pela prefeitura de Recife. Todos os demais processos, muitos ainda em negociação, estão trabalhando com indenizações em alguns casos apresentam valores muito abaixo do valor de mercado e estão longe de serem suficientes para que as famílias comprem moradias dignas em outros lugares. Embora o Governo do Estado tenha criado a Secretaria Executiva de Desapropriações (SEDES), tal iniciativa esteve longe de representar a abertura de diálogo ou a previsão de atendimento aos direitos humanos e garantia de processos adequados de remoção. Segundo seu manual de procedimentos a SEDES foi criada para dar “celeridade aos projetos estruturadores em implantação em Pernambuco, como as obras de barragens, da Copa do Mundo de 2014 e do Programa Estadual de Mobilidade44”. Há inclusive relatos de pressões, achaques e ações de despejo sem pagamentos das indenizações e violando tratados internacionais referentes a despejos forçados
44
Disponível em < http://www.unuhospedagem.com.br/pge/secaoAbrir.php?idSecao=25>, Acesso em 25 de julho de 2014.
147
Todo o conjunto de alterações normativas e jurídicas, legais e ilegais nas quais se basearam as iniciativas em torno da viabilização do projeto cidade da Copa estão vinculados a outra questão mais geral que tem a ver com a inexistência de de um planejamento metropolitano efetivo. Ainda que o discurso da criação de uma nova centralidade urbana seja a justificativa e carro-chefe das propagandas empresariais e governamentais, os negócios envolvidos nessas transformações urbanas não aparecem normalmente como o são.
Convém destacar que o projeto de Parceria Público-Privada edificado em torno da Arena Pernambuco representa uma nova modalidade de Concessões Públicas, ainda mais privatizante e espoliadora do que as demais obras da Copa. De acordo com o Edital de Licitação e Concorrência Internacional da Arena Pernambuco elaborado com participação direta da Odebrecht e outras empresas interessadas, a receita da Concessionária será composta por três elementos: a) Receita principal com a contraprestação Pecuniária, a ser paga pelo Estado de Pernambuco ao parceiro privado durantes 30 anos; b) Receita operacional auferida com a exploração da arena (camarotes e demais produtos premium); e c) Receitas adicionais obtidas com atividades complementares à atividade principal da Arena (propaganda, lojas, estacionamento e outras). Além de todos esses direitos de operação e exploração da Arena adquiridos pela concessionária, o contrato prevê a privatização direta do uso e ocupação do solo do terreno do Governo do Estado no entrono do estádio para a construção de um complexo imobiliário de propriedade particular da Concessionária. Segundo o Edital, a implantação do projeto imobiliário se dará “concomitantemente às OBRAS DE CONSTRUÇÃO DA ARENA para viabilizar receita acessória à CONCESSIONÁRIA” (p.24 do Anexo 10 do Edital 01/2009. Grifo nosso). Assim,
A contraprestação pública por tais serviços seria paga em dinheiro, em montante a ser definido no processo licitatório.
Ademais, o Estado de Pernambuco admitirá que seja
transferida à Concessionária a propriedade dos imóveis públicos (livres e desimpedidos), do entorno da Arena em
que o Estado de Pernambuco almeja que se desenvolva o projeto imobiliário, a fim de viabilizar um projeto imobiliário que ofereça unidades habitacionais a um público alvo, desde que de maneira compatível com a atividade principal de operação da Arena, como atividade acessória.” (p.23 do Anexo 10 do Edital 01/2009. Grifo Nosso)
148 Figura 18 - A viabilidade financeira do negócio Cidade da Copa
Elaboração: Observatório das Metrópoles – Núcleo Recife
No mesmo documento é estabelecido que o Governo do Estado irá ressarcir parte do investimento realizado para a construção da Arena no primeiro ano de operação da mesma (2013) assumindo os encargos de um empréstimo tomado pelo parceiro privado junto ao BNDES. Em outro trecho do documento, afirma-se que
A PPP é o instrumento viável para a implementação do Projeto pois permite, de um lado, a canalização dos investimentos necessários à implementação do projeto e, de outro, o pagamento de contrapartida pelo Poder Público, necessária para garantir a viabilidade de projetos que não são
autosustentáveis, como no caso de arenas. No caso da PPP
da Arena, esta contrapartida se dará na forma pecuniária e
pela transferência da propriedade de parte do imóvel nos arredores da Arena, que será utilizado para desenvolver a
atividade imobiliária (Ibidem. Grifo nosso).
Deste trecho é possível depreender uma série de coisas. Contudo, uma das mais importantes é a constatação de que possivelmente haveria uma
149
avaliação prévia de que o projeto da Arena Pernambuco não seria um empreendimento viável por si mesmo, provavelmente em função das condições de concorrência com os demais estádios, da distância do centro da cidade, da incapacidade de manter uma renda regular após a Copa do Mundo. Embora esse quadro não tenha se confirmado totalmente, conforme discutimos anteriormente a partir dos dados sobre público e renda nos jogos posteriores ao megaevento, a questão que cabe é a motivação pública de construir um empreendimento de tal porte - com financiamento federal e aporte público direto de cerca de R$ 133 milhões - dadas as previsões pouco alentadoras.
Por seu lado se considerarmos somente as possibilidades de exploração da Arena Pernambuco por três décadas somadas à transferência de um imóvel do Estado na RMR à margens do Rio Capibaribe com as possibilidades de construção de um amplo projeto imobiliário, vemos que os atrativos para as corporações que venceram o projeto eram bastante grandes. Ainda mais se levarmos em conta que não houve qualquer contrapartida exigida pelo Estado para que a Cidade da Copa fizesse um planejamento mais inclusivo do ponto de vista social ou urbanístico. O Edital deixa a cargo dos responsáveis pelas obras a decisão sobre o padrão de habitação que deverá ser empreendida, isto é, embora houvesse mais de 300 famílias removidas do terreno onde o empreendimento está sendo construído, as possibilidades de que o projeto atenda à demanda por habitações de interesse social (HIS) para suprir o grande déficit habitacional da RMR dependem do interesse de mercado. Segundo o referido edital, apenas como sugestão,
30% da área líquida destinada ao desenvolvimento do
PROJETO IMOBILIÁRIO poderá ser destinada à
implementação de projetos habitacionais de interesse social, voltado ao atendimento da população cuja renda mensal está entre 0 (zero) e 3 (três) salários mínimo (...) (p.15 do Anexo 10 do Edital 01/2009. Grifo nosso);
Dado que a dinâmica do mercado dificilmente levará à opção da construção de moradias nesse perfil, também a construção e o deslocamento de importantes equipamentos públicos para o terreno da Cidade da Copa em detrimento de outras áreas metropolitanas e estaduais é bastante questionável. Segundo o edital,
150 adicionalmente às áreas para expansão imobiliária, esta nova centralidade deverá abrigar, além da nova Arena, equipamentos públicos a serem definidos pelo Governo. Dentro destes equipamentos, estima-se que sejam implantados um parque metropolitano, um centro integrado de segurança pública, escolas (incluindo uma nova unidade do CEFET - Centro Federal de Educação Tecnológica de Pernambuco), uma unidade do Expresso Cidadão, dentre outros. (p.18 do Anexo 10 do Edital 01/2009);
Da maneira como o projeto foi apresentado, a transferência de órgãos governamentais, serviços de segurança, escolas e o campus da Universidade de Pernambuco (UPE) também seriam mais medidas “acessórias” à valorização imobiliária do projeto e apropriação privada de recursos públicos. Nesse sentido, o plano só poderia estar completo a partir de obras de mobilidade. Das 7 obras de mobilidade previstas para a cidade, 5 estão diretamente ligadas à Cidade da Copa. O Corredor Caxangá, o Ramal da Copa, a duplicação da BR-408, o Terminal Integrado Cosme e Damião e a estação de metrô Cosme e Damião compõem uma rede de transportes mais ampla que conecta a nova centralidade à velha onde estão os complexos empresariais, comerciais e turísticos, garantindo assim um abastecimento de transportes públicos e coletivos ao empreendimento muito superior a bairros, distritos e cidades da RMR que concentram a grande maioria da população da região. Por seu turno, as outras duas obras de mobilidade previstas na Matriz de Responsabilidades de Recife, o corredor Norte-Sul e a Via Mangue, têm ligação direta entre a região turística e hoteleira da praia de Boa Viagem e o Centro da Cidade, com destaque para a ligação entre a Via Mangue e a o grande complexo do Shpping Rio-Mar.
A construção da Cidade da Copa, mais do que um instrumento de espoliação urbana por meio de mais uma simples Parceria Público-Privada, trata-se, pois de um grande processo de privatização da construção de uma nova centralidade urbana, transferindo diretamente recursos públicos para construir uma centralidade que já nasce reforçando a segregação urbana. A dinâmica imobiliária em São Lourenço da Mata, Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes entrou em plena atividade com a multiplicação de
151
empreendimentos imobiliários de médio e alto padrão o que supõe a expulsão contínua da população de baixa renda para áreas periféricas, tendo em vista a ausência de qualquer plano ou mecanismo de contenção desta que é uma regra geral onde o desenvolvimento urbano fica à mercê do mercado imobiliário.
Por outro lado, toda essa alteração esperada na configuração metropolitana se faz concomitantemente às políticas de “requalificação” e valorização das antigas centralidades. Os setores da construção civil não contemplados no Consórcio Arena Pernambuco e nos empreendimentos imobiliários da região, buscam se aproveitar dos mesmos vetores trazidos pelo megaevento para se localizar melhor da disputa pelo “mercado da centralidade”. Pari passu às alterações normativas na nova centralidade urbana, a prefeitura de Recife promoveu uma série de medidas para flexibilizar os parâmetros urbanísticos da cidade, aumentando o potencial construtivo especialmente para o setor hoteleiro (Lei 17.710/10). Ao mesmo tempo, no final de 2012, aprovou de maneira controversa e obscura um amplo programa de transformações urbanas na área central, o Projeto Novo Recife, alvo de lutas urbanas que seguem até os dias de hoje.