5. Arresto
5.2. Arresto de navios
5.2.2. Arresto decretado a navio estrangeiro atracado em porto português
Caso se trate de um navio estrangeiro que se encontre atracado num porto português, realizando escala, tendo por isso um credor estrangeiro, e este decide que o arresto seja realizado em Portugal, os trâmites processuais serão os do CPC, juntamente com os previstos na CB1952, visto tratar-se de um navio e requerente estrangeiro. À posteriori deve ser colocada a ação principal no tribunal competente para a julgar, na maioria dos casos no estrangeiro.
“Nos casos em que, nos termos de convenções internacionais em que seja parte o Estado Português, e o procedimento cautelar seja dependência de uma causa que já foi ou haja de ser intentada em tribunal estrangeiro, o requerente deve fazer prova nos autos do procedimento cautelar da pendência da causa principal, através de certidão passada pelo respetivo tribunal”, conforme disposto no n.º 5 do art. 364.º CPC.
Encontra-se previso no n.º 1 do art. 392º do CPC, o procedimento do arresto contra os bens do devedor, designando que o requerente não só tem de alegar os factos que tornam a existência do crédito provável, como ainda, justificar o receio invocado. Não bastando, portanto, que o requerente se autointitule credor, mas, expondo as razões que o levam a entender que existe a possibilidade de não vir a ser ressarcido do crédito que outrora concedeu. Relativamente à competência para julgar o arresto de navios, estatui a lei n.º 35/86, de 4 de setembro 107 que regula os
107 Art. 1.º da lei supra referida:
“São instituídos tribunais judiciais de 1.ª instância e de competência especializada denominados «tribunais marítimos».
2 - Haverá tribunais marítimos em Lisboa, Leixões, Faro, Funchal e Ponta Delgada, cujas áreas de jurisdição correspondem às áreas dos departamentos marítimos aí sediados.
3 - Os tribunais marítimos são instalados, ouvido o Conselho Superior da Magistratura, por portaria do Ministro da Justiça, que estabelecerá a composição do tribunal coletivo e o quadro adequado de funcionários.” Contudo, no Continente apenas está em funcionamento o Tribunal Marítimo de Lisboa, situado no Campus de Justiça. A propósito deste tribunal, e tendo em conta que é o único que está em funcionamento no Continente, foi dada uma entrevista pelo Meritíssimo Juiz João Caldeira Jorge, magistrado que se encontra colocado neste tribunal, ao Boletim da Ordem dos Advogados, publicada em Maio de 2012, onde podemos verificar as competências deste tribunal, “O número não é significativo, mas passam ainda providencias cautelares como o arresto de navios. “Imagine o caso de um navio que faz a ligação Lisboa-Cabo Verde e que abastece em Lisboa e não paga. Em seguida deixa de fazer escala na cidade. O fornecedor de combustível intenta o arresto do bem. Nestas situações, o Tribunal pode ordenar a apreensão do navio, mesmo sem ouvir testemunhas.
Como os navios não podem estar parados, o proprietário ou o armador paga logo. O sucesso destes casos é enorme””.
Esta entrevista pode ser consulta na integra em https://portal.oa.pt/media/118047/n%C2%BA90-mai2012.pdf, pág. 20.
Tribunais Marítimos108, no seu art. 12.º, que “requerido arresto ou outro procedimento cautelar que tenha por objecto navio, embarcação, outro engenho flutuante ou respectivas cargas e bancas ou outros valores pertinentes ao navio, a secretaria passará logo guias para o pagamento do preparo inicial e, efectuado este, fará o processo imediatamente concluso ao juiz.”
Caso o arresto seja requerido contra o adquirente de bens do devedor (terceiro que adquire, por exemplo, um navio que agora vai ser alvo de arresto), o requerente, se não mostrar que a aquisição foi judicialmente impugnada, deve deduzir os factos que tornem provável a procedência da impugnação 109 ; quer isto dizer que, quando o credor toma conhecimento de que o devedor está a dissipar o património, e vende, por exemplo, um navio a um terceiro, pode impugnar esta aquisição por parte do terceiro, solicitando ao tribunal que considere a transmissão nula e que decrete o arresto preventivo do bem. Sucede que no arresto, o credor não pode vender a coisa arrestada, apenas a pode “conservar” como forma de garantir o seu crédito.
Como anteriormente já foi frisado, o arresto de navios acarreta em si mesmo uma série de problemáticas; contudo, a deterioração do bem, consubstancia o receio de qualquer devedor que veja o seu navio arrestado, já que, dependendo do tempo que o arresto é mantido, a deterioração pode ser de tal modo extensa, que o navio perde grande parte do seu valor. Deste modo, verifica-se que o arresto de navios tem uma grande taxa de sucesso (para o credor), não só porque enquanto o mesmo se mantém o navio se encontra parado (não cumprindo a sua função, e ainda assim vencendo taxas no porto), como é do maior interesse para o devedor saldar a sua dívida o quanto antes, evitando assim, a deterioração do bem, e a consequente desvalorização do mesmo, que pode, inclusive vir a ser total.
O art. 393.º do CPC delimita os passos seguintes, ressalvando-se o facto de que, após as provas serem examinadas, e existindo, efetivamente, um justo receio por parte do credor, o arresto é decretado sem que a parte contrária seja ouvida, evitando-se assim que o devedor dissipe o evitando-seu património; caso o tribunal entenda que os
108 Art. 4.º, nº 1 al. I), da Lei n.º 35/86, de 04 de setembro [Compete aos tribunais marítimos conhecer, em matéria cível, das questões relativas a: i) Decretamento de providências cautelares sobre navios, embarcações e outros engenhos flutuantes, respetiva carga e bancas e outros valores pertinentes aos navios, embarcações e outros engenhos flutuantes, bem como solicitação preliminar à capitania para suster a saída das coisas que constituam objeto de tais providências;
109 Cfr. n.º 2 do art. 392º do CPC.
requisitos legais não estão preenchidos, e nesse caso, antes que seja decretado o arresto, o requerido é citado a deduzir oposição110, conforme o n.º 2 do art. 366.º do CPC. Dispõe o mesmo artigo, no seu n.º 6 que, “quando o requerido não for ouvido e a providência vier a ser decretada, só após a sua realização é notificado da decisão que a ordenou, aplicando-se à notificação o preceituado quanto à citação.”
Se o arresto for decretado em sede de providência cautelar, a conversão em penhora é automática, fazendo-se no registo de propriedade do navio o designado averbamento da penhora, conforme o art. 762.º do CPC.
Se o arresto for julgado injustificado ou caducar (o arresto está sujeito as causas gerais de caducidade dos procedimentos cautelares, referidas no art. 390.º CPC), o requerente é responsável pelos danos causados ao arrestado, quando não tenha agido com a prudência normal (art. 621.º CC). Admite-se, aliás, que o requerente do arresto seja logo obrigado a prestar caução111, se tal lhe for exigido pelo tribunal (art. 620.º CC).112
Caso o requerido viole os termos do arresto do navio, tomando posse ilegitimamente e prosseguindo a viagem, incorre na pena de crime de desobediência qualificada, conforme disposto no art. 375.º do CPC.
Depois de decretado o arresto e consequentemente provada a existência de um crédito legitimo através da propositura da ação principal, caso o devedor não proceda ao pagamento em dívida que a sentença determina, pode o credor avançar para a execução, fazendo-se a venda do bem arrestado para que o credor possa ser pago.
O arresto é passível de recurso nas decisões sobre procedimentos cautelares, previstas no art. 370.º do CPC. O arresto pode ainda ser levantado, caso seja realizado
110 [definição do Princípio do Contraditório] “traduz-se na garantia de cada uma das partes no processo de efetiva participação em todos os seus atos, de forma a que possa ser ouvida, impugnar quer a admissão dos meios de prova, quer a força probatória dos mesmos, numa palavra, que possa ter oportunidade de influenciar a decisão judicial que vai ser tomada.” In Dicionário Jurídico, ANA PRATA, 5ª Edição, 2008, Almedina, Pág. 1124.
111 Prata, Ana, Dicionário Jurídico, 4.ª edição, Almedina, Pág. 202 [definição de caução] “É uma garantia especial das obrigações que pode ser imposta ou permitida por lei, decisão judicial ou convenção, relativamente a uma obrigação futura ou de objeto não determinado. Sendo a prestação de caução imposta ou autorizada por lei, pode, em princípio, e salvo se se determinar a espécie que deve revestir, «ser prestada por meio de depósito de dinheiro, títulos de crédito, pedras ou metais preciosos, ou por penhor, hipoteca ou fiança bancária», cabendo ao tribunal apreciar a idoneidade da caução se não houver acordo entre os interessados. Se a imposição ou autorização da caução provier de negócio jurídico ou de decisão judicial, pode ela ser prestada através de qualquer garantia, real ou pessoal.”
112 Menezes Leitão, Luís Manuel Teles, Direito das Obrigações, Vol. II, 2002, Almedina, Pág. 308
o pagamento da divida, assim como as custas e eventuais despesas decorrentes do arresto.
Estas disposições relativas ao arresto de navios apenas se aplicam se se tratar de um arresto em Portugal, de um navio português e por um residente português.
Quando algum destes elementos for estrangeiro aplica-se a CB1952, conforme será exposto aquando da abordagem à referida Convenção.
5.3. A Vertente Prática (Breves notas com o auxílio da Administração