1.5. A parte geral do CPC-15 e a constitucionalização do processo civil
1.5.7. Art 7º: o contraditório formal e material
O contraditório é um direito fundamental, expressamente consagrado pela Constituição de 1988, especificamente, no Art. 5º, LV, ao lado da ampla defesa. Ocorre que essa garantia não se dirige apenas a permitir às partes a demonstração de suas respectivas perspectivas argumentativas.
A evolução do contraditório passou a distinguir “[...] entre a ciência ao réu da existência de processo de seu interesse e o seu comparecimento para se defender, tanto que a figura da citação se torna indispensável para o aperfeiçoamento da relação processual triangular” (MAGALHÃES, 1999, p. 159).
A ciência é nada mais do que “[...] o essencial, o ôntico à bilateralidade, e não o comparecimento do interessado, que é titular de seu patrimônio e de seu direito, e deles pode dispor” (MAGALHÃES, 1999, p. 159), de maneira que o contraditório se encontra além da mera participação da parte nos autos.
O contraditório é, portanto, um princípio processual essencial “[...] ao próprio direito de acesso à Justiça, tal como configurado nos mais diversos sistemas jurídicos”, oferecendo às partes o mesmo grau de acesso à Justiça e exercício do direito de defesa (GRECO, 2003, p. 65).
Determina-se, dessa forma, que não basta a mera oportunidade de a parte se manifestar nos autos do processo, tendo em vista ser imperioso oferecer a possibilidade de os argumentos e instrumentos probatórios surtirem influência sobre a decisão de mérito.
Mais do que isso, “[...] se os Juízes passassem a assegurar o contraditório pleno, ouvindo previamente as partes antes de proferir qualquer decisão, ainda que sobre matéria cognoscível de ofício, seguramente, muitos recursos seriam evitados” (BEDAQUE, 2010, p. 105).
Nesse mesmo contexto de acesso equânime à justiça, na dimensão constitucional do processo, é que se encontra o princípio do contraditório, corporificado, quanto à igualdade processual, em especial, no denominado princípio da paridade de armas.
O Art. 7º assegura “[...] paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório” (BRASIL, 2015, n.p.). Traz a ideia de contraditório material.
A igualdade de tratamento depende de serem “[...] tratados igualmente os iguais e desigualmente os desiguais”, pois já se percebeu que aplicar a mesma régua para medir pessoas diferentemente posicionadas perpetua injustiças e distorções (GAJARDONI; DELLORE; ROQUE, OLIVEIRA JÚNIOR, 2015, p. 92).
É necessário observar a isonomia material, de modo que eventuais distinções no tratamento de indivíduos posicionados de forma diferente no processo prestigia a dimensão substancial da isonomia (GAJARDONI; DELLORE; ROQUE, OLIVEIRA JÚNIOR, 2015, p. 92).
O contraditório útil não se resolve com a mera abertura procedimental para manifestação antes do provimento jurisdicional, não se convolando apenas no momento de sua realização, mas, sim, na potencialidade de influência no resultado (GAJARDONI; DELLORE; ROQUE, OLIVEIRA JÚNIOR, 2015, p. 94).
É essencial ao contraditório que a oportunidade dada à parte para falar nos autos resulte em um argumento que, de fato, influencie a construção da cognição do julgador, independentemente de, ao final, obter um provimento favorável à sua pretensão.
O contraditório tem, basicamente, duas espécies: uma de execução imediata (contraditório real); e uma de execução posterior ao momento da argumentação ou exposição probatória da outra parte (contraditório diferido). Este, contudo depende do preenchimento de requisitos (SANTOS, 2016, p. 139).
Um dos pontos principais da garantia do acesso à justiça é a igualdade de condições entre as partes litigantes em processo, de modo que o Estado deve criar meios que possibilitem sua equiparação, como a inversão do ônus da prova nos casos de hipossuficiência de uma das partes (SANTOS, 2016, p. 146).
Deve, portanto, promover soluções às barreiras ao acesso, antes e durante o processo. O acesso à justiça é uma garantia constitucional voltada a “[...] proteger e resguardar a efetividade dos direitos dos cidadãos”. O processo, assim, garante o acesso a justiça (SANTOS, 2016, p. 146).
Assim, o processo desenvolvido conforme o modelo constitucionalmente estabelecido, deve respeitar direitos e garantias fundamentais (SANTOS, 2016, p. 147), de maneira que o acesso à justiça garante ao cidadão o direito de agir em juízo, para obter proteção de sua própria situação jurídica por meio do processo.
Assim, o dispositivo agasalha “[...] o princípio da isonomia e do contraditório”, este, porém, “[...] no sentido de participação e cooperação efetivas e aptas a contribuir com o proferimento das decisões e satisfação do direito tal qual reconhecido” (BUENO, 2017, p. 64).
Nesse sentido, encontra-se pareado ao princípio da cooperação no direito processual civil, especialmente em relação ao dever de atuação comissiva no sentido de adequar o procedimento às peculiaridades das partes, privilegiando, assim, a isonomia.
Refere-se assim, ao princípio da paridade de armas ou de tratamento, com relação à isonomia. É um “[...] pressuposto essencial para a realização do contraditório em sua plenitude”. A expressão paridade “traduz a igualdade substancial e material” (DONIZETTI, 2017, p. 55).
Antes, era somente um dever do juiz; hoje, é um dever do Estado, estabelece, assim, as balizas do processo interpretativo que deve ser cumprido pelo juiz ao aplicar a lei processual, especialmente normas jurídicas abertas e indeterminadas (DONIZETTI, 2017, p. 55-56).
Independentemente da técnica hermenêutica adotada pelo juiz, este deve “[...] se orientar pelos valores indicados nesse dispositivo, aplicando o ordenamento em sua plenitude, considerando a existência de regras, princípios e valores que norteiam o sistema jurídico” (DONIZETTI, 2017, p. 56).
A igualdade determinada pelo referido princípio, portanto, determina que o julgador, especialmente em relação a questões jurídico-processuais, não pode decidir somente de acordo com as disposições legais, pois deve considerar todo o ordenamento jurídico.
A isonomia equilibra a disputa entre as partes. Ocorre que só será obtida com o respeito ao efetivo contraditório. Trata-se da maneira mediante a qual o juiz mostra sua imparcialidade, “[...] porque demonstra que não há favorecimento de qualquer uma delas” (NEVES, 2020, p. 16-17).
Desse modo, para além da atuação no sentido da adaptação do procedimento às características do caso concreto, o princípio sob análise corrobora o dever imposto ao juiz de se omitir em relação a quaisquer atitudes parciais, inclusive, em prol da eficiência.