CAPÍTULO 1: DA FILOSOFIA PARA A EDUCAÇÃO MUSICAL
1.2 A arte como fazer, como conhecer e como exprimir: considerações de
O intuito deste capítulo é apresentar ao leitor que entra em contato pela primeira vez com a estética de Luigi Pareyson as três definições tradicionais de arte elaboradas pelo filósofo. No capítulo II de sua obra “Os problemas da estética”, Pareyson se dedica à reflexão das formas mais comuns que foram atribuídas à arte ao longo da história, são elas: a arte como
um fazer, ora como um conhecer e ora como um exprimir. Embora a afirmação de uma ou de
outra definição atribuída à arte possa ter tido um peso diferenciado dependendo da época ou de qualquer obra posta em questão, o autor ressalta que essas “diversas concepções ora se contrapõem e se excluem umas às outras, ora, pelo contrário, aliam-se e se combinam de várias maneiras. Mas permanecem, em definitivo, as três principais definições da arte” (PAREYSON, 1997, p.21). Ao invés de deter sua concepção sobre arte em torno de uma ou outra dessas definições, o filósofo incorpora ao campo da estética a ideia de arte enquanto
forma e o processo artístico como formatividade.
Assim como proponho por meio deste trabalho um olhar estético-educativo sob a ótica da formatividade pareysoniana, penso também que o conhecimento dessas três definições pode contribuir de maneira significativa para o trabalho do educador musical6. É nesse exercício de reconhecimento da arte ora como um fazer, como um conhecer ou exprimir que as bases críticas e reflexivas dos alunos em torno do processo artístico aos poucos vão se sedimentando.
Pareyson remete ao período da Antiguidade a atribuição valorativa da arte como um
fazer onde seu “aspecto executivo, fabril, manual” acentuou-se mediante a pouca teorização
6 Meu trabalho de conclusão de curso como bacharel em música pela Universidade de São Paulo teve como tema central essa temática em consonância com a proposta triangular da autora Ana Mae Barbosa trazendo o título “Proposta triangular: uma abordagem aplicada ao ensino de violino”.
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entre a arte específica e a produção técnica do artesão (PAREYSON, 1997, p.21). Em consonância com as definições apresentadas por Pareyson, o escritor Alfredo Bosi discorre de maneira bastante específica a respeito dessas três concepções artísticas em sua obra “Reflexões sobre arte”. No primeiro capítulo de sua obra, Bosi apresenta o processo artístico enquanto forma de produção reforçando o período da Antiguidade como sendo um momento histórico de exaltação à techné.
Em contraponto ao valor executivo e manual característico da arte na Antiguidade, Luigi Pareyson destaca o período do Romantismo como cenário onde a arte foi fortemente difundida enquanto forma de expressão. A definição de arte enquanto expressão é identificada por Bosi como atividade que nasce da expressividade humana, afirmação que atina com o pensamento pareysoniano. De acordo com o autor:
Em toda atividade artística impõem-se a presença de uma forte motivação. As formas expressivas são geradas no bojo de uma intecionalidade que as torna momento integrante ou resultante do pathos. A dissociação posterior de uma forma e força interior só se cumpre historicamente quando os motivos iniciais da união já se apagaram com a rotina das convenções, o esquecimento, a lima do tempo e a morte da cultura que os produziu (BOSI, 1986, p.52).
No que diz respeito à arte como conhecimento, Bosi destaca as raízes dessa concepção como sendo decorrentes do pensamento científico ocidental. No primeiro parágrafo do capítulo II o autor previamente apresenta considerações de uma arte imersa no propósito do conhecimento. Vejamos:
Que a obra de arte deite raízes profundas no que se convencionou chamar “realidade” (natural, psíquica, histórica), constitui uma dessas evidências fulgurantes que deveriam dispensar qualquer discurso demonstrativo, bastando-lhe a constatação a olho nu (BOSI, 1986, p.27).
Como mostra de uma arte concebida enquanto forma de conhecimento, Pareyson traz como exemplo especulativo a poética de Leonardo da Vinci como meio de conhecimento próprio, de interpretação do mundo e até de fazer ciência (PAREYSON, 1997, p.23).
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A partir de uma observação reflexiva e dialética desses aspectos que por muito tempo definiram a arte no seio da cultura ocidental, Luigi Pareyson dedica parte dos seus escritos para demonstrar como as definições estão incutidas umas às outras.
Estas diversas concepções colhem caracteres essenciais da arte, conquanto não sejam isoladas entre si e absolutizadas. Certamente, a arte é expressão. Mas é necessário não esquecer que há um sentido em que todas as operações humanas são expressivas. Toda operação humana contém a espiritualidade e personalidade de quem toma a iniciativa de fazê-la e a ela se dedica com empenho; por isso, toda obra humana é como o retrato da pessoa que a realizou [...] Dizer, por exemplo, que a arte é “expressão dos sentimentos” pode ter importância no plano da poética, mas é uma perigosa asserção no plano da estética (PAREYSON, 1997, p.22).
Em se tratando de uma proposta de educação estética, julgo esse exercício de tentar identificar e colher os caracteres essenciais do fenômeno artístico também como prática fundamental do educador musical, pois como mediador de processos educativos em arte, torna-se responsável por apresentar essas especificações a partir do métier dos seus próprios alunos.
Todas essas definições são passíveis de serem trabalhadas de maneira educativa, por exemplo, por meio de uma atividade de composição o educador pode conduzir de forma valorativa o processo de invenção e produção desde o seu nascimento - denominado como
insight ou tema condutor - e ao mesmo tempo propor uma reflexão sobre sua condição
expressiva, considerando o ato da inventividade como sendo fruto da expressividade daquele que possui o intento de formar, pois toda operação humana externa a espiritualidade e personalidade do sujeito que se dedica a produzir com empenho (PAREYSON, 1997); no que diz respeito à arte enquanto forma de conhecimento, pode ser proposta uma atividade de criação musical que tenha por objetivo a comunicação de algum estudo ou análise científica.
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