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ARTE NAÏF

No documento 5 A VIDA EM CAMPO BELO (páginas 37-41)

7 POR QUE NÄIF?

JOS LUYTEN:

7.6 ARTE NAÏF

Tentaram-se várias outras denominações para os artistas naifs: pintores de domingo, pintores do coração sagrado, ingênuos, primitivos modernos, autodidatas, primitivos de hoje, instintivos, espontâneos, ínsitas, etc.

Mas o primeiro adjetivo, o ambíguo naïf, lançado há uma centena de anos, ficou em definitivo, foi adotado e consagrado internacionalmente. A mim, a poética palavra

cândido20 21 não teria desagradado.

A arte naïf é a república das artes: una e indivisível. Imutável e impermeável a qualquer atração

O dicionário diz que naïf 22é aquilo que retrata simplesmente a verdade, a natureza sem artifício ou esforço: que é graciosamente inspirado pelo sentimento Finkelstein (2001). O adjetivo francês naïf vem do latim nativus, que significa a nascente, natural, espontâneo, primitivo. Assim, pode ser substituído também por ingênuo e primitivo, mas as três palavras devem ser tomadas ao pé da letra. Todas têm origem no latim: ingênuo vem de ingenuus (nascido livre) e primitivo, de primitivus (que pertence ao primeiro estado de uma coisa). Essas três definições poderiam servir para caracterizar a pintura naïf, que é natural, livre e pura.

O termo naïf, utilizado na França desde os escritos de Montaigne, no século XVI, consolidou-se durante o século XVIII por meio dos outros grandes escritoresfil6sofos da época: Montesquieu, Jean-Jacques

20 Na família Silva temos três com o nome Cândido: José Cândido, Sebastião Cândido e João Cândido.

21 cândido[Do lat. candidu.] Adjetivo. 1.Alvo, imaculado: “O lírio é menos cândido, a neve é menos pura / Que uma criança loira no berço adormecida” (Fagundes Varela, Poesias Completas, I, p. 238). 2.Fig. Puro, ingênuo, inocente.

22Naïf [naÈIf] [Fr.] Art. Plást. Adjetivo de dois gêneros. 1.Diz-se de arte, esp. pintura, desvinculada da tradição erudita convencional e de vanguarda, e que é espontânea e popularesca na forma sempre figurativa, valendo-se de cores vivas e simbologia ingênua: “A pintura naïf se impõe por sua autenticidade” (João Spinelli, em Bienal Naïfs do Brasil 1998, p. 100). 2.Diz-se de quem pratica arte naïf (1), ou daquilo que é próprio, ou característico, dessa arte; ingênuo, primitivo: “A apropriação de símbolos e mitos da cultura popular rural e da periferia urbana é recuperada pelos artistas naïfs.” (Id., ib., p. 100.) Substantivo masculino. 3.A arte naïf (1). Substantivo de dois gêneros. 4.Artista, em geral autodidata, que pratica o naïf (3): Ela é uma das mais talentosas naïfs brasileiras;“Assim como fazem nos países realmente cultos, devemos dar vivas aos naïfs do Brasil.” (Romildo Sant’Anna, ib., p. 99). [Embora em francês naïf seja voc. masculino (fem.: naïve), no Brasil é us., nas acepç. 1, 2 e 4, como voc. de dois gêneros.]

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Rousseau, Diderot. Este último considerava que «nem tudo que é verdadeiro é naïf, mas tudo que é naïf é verdadeiro, de uma ingenuidade tocante, original e rara».

Segundo Finkelstein (2001) o adjetivo naïf perdeu seu verdadeiro significado, “saiu de moda” e foi jogado para o extremo oposto. As pessoas outrora chamadas de ingênuas por causa da pureza de seus sentimentos tornaram-se hoje ingênuas demais, ultrapassadas pela evolução de seu tempo; como se estivessem fora do mundo atual e, a rigor, fossem um tanto tolas.

7.6.1 Douanier Rousseau

Por volta de 1890, a palavra naïf foi usada para designar a pintura de Henri Rousseau, o chamado douanier Rousseau que foi o primeiro naïf moderno a ser exposto e valorizado. Na realidade o termo naïf referia-se à sua pintura e à própria natureza do personagem, um funcionário público dos portos. A denominação, atribuída a título de zombaria, tornou-se um grande movimento assim como outros movimentos de pintura que se sucederam na mesma época, com nomes até pejorativos: impressionistas, fovistas, cubistas, e impressionistas, futuristas, surrealistas, abstratos, dentre outros.

Ainda segundo Finkelstein (2001) tentaram-se várias outras denominações para os artistas naïfs: pintores de domingo, pintores do coração sagrado, ingênuos, primitivos modernos, autodidatas, primitivos de hoje, instintivos, espontâneos, ínsitos. Mas, permanece mundialmente a denominação “Naïf”.

7.6.2 Finkelstein (2001) esclarece que Naïf difere de Primitivo23

No Brasil sempre se usou o termo primitivo para designar os artistas naïfs, algumas vezes também chamados de ingênuos.

A arte primitiva, conhecida e reconhecida mundialmente sob este nome,na realidade , trata-se da produção dos pintores primitivos flamengos e italianos, dos séculos XIV e XV; e, ultimamente, a arte dos povos e tribos primitivas da África, da Oceania etc., exercida por seres de civilizações menos complexas.24

Essa arte nada tem a ver com a pintura naïf brasileira, que não é feita por pessoas primárias. Por isso, o termo naïf é preferível a primitivo.

Para evitar o mesmo gênero de confusão mencionado entre as palavras naïf e primitivo, para distinguir bem a arte dos povos primitivos da que foi "batizada" de primitiva, dos pintores flamengos e italianos dos séculos XIV e XV -, a denominação art premier (arte primeva) foi lançada, há algum tempo, para designar as artes realmente primitivas.

Dessa forma ficaram separadas nitidamente as duas denominações, que se tornaram ambíguas demais. 25

Se, como vimos é difícil definir arte, definir arte naïf constitui

23Primitivo [Do lat. primitivu.] Adjetivo. 1.De primeira origem; original, inicial, inaugural:

os tempos primitivos. 2.Dos primeiros tempos; primordial, primeiro: povos primitivos. 3.Que não é derivado; básico, primário. 4.V. primigênio. 5.Diz-se de um organismo, órgão, etc., em começo de evolução, ou muito pouco diferenciado de seus antepassados mais remotos. 6.P. ext. Simples; áspero, rude: É uma alma primitiva;Usa métodos primitivos para alcançar seus fins. 7.Antrop. Obsol. Relativo aos povos não letrados, que vivem em sociedades ger. caracterizadas como de escala menor, organização social menos complexa e nível tecnológico menos desenvolvido do que as sociedades ditas civilizadas, e vistos pelo evolucionismo social (q. v.) como representantes de um estado social e mental supostamente mais próximo da condição original, natural, da humanidade, ou dela sobreviventes.8.Art. Plást. Num conceito que data do romantismo, diz-se da arte (pintura e escultura) própria dos séculos que precederam imediatamente a eclosão do Renascimento. 9.Diz-se do artista do final da Idade Média cujos valores clássicos se prendem à mensagem do cristianismo e que, como os primitivos italianos, aliam a pureza da inspiração ao despojamento técnico. 10.V. naïf (2).

24 Finkelstein,op.cit.

25 Finkelstein na obra citada menciona que em 2001 em Paris seria aberto o primeiro museu - chamado de Art Premier -reunindo todas as coleções existentes em outros museus, dessa arte antes denominada de primitiva.

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tarefa ainda mais complexa.

(...) não se pode definir o indefinível : Pode-se analisar um sentimento, o amor, a poesia, a beleza, a pureza, a arte? Todas essas palavras, tão grandes e tão simples, são daquelas que não se explicam. A pintura naïf é tudo isso e muito mais. Ela faz o que pode como pode, com os meios que conquistou sozinha, e isso constituí a sua força. 26

Esses breves conceitos foram esboçados para que possamos ingressar no criativo universo de vida de nossos Silvas, com suas diferentes artes. Sabemos com antecedência que no mundo da arte são autodidatas, de cultura popular, naïfs. Adentraremos seus percursos de vida e carreira artística. Esclarecemos por oportuno, que a biografia de alguns possui mais informações do que de outros decorrência da falta de dados ou do fato de a carreira artística conter menos participações em mostras e acervos.

Como utilizamos o recurso da História Oral, também contamos com as dificuldades naturais para a obtenção de depoimentos: disponibilidade de tempo, locomoção, sem falar nas questões pessoais em responder a esta ou àquela pergunta de nosso roteiro.

No documento 5 A VIDA EM CAMPO BELO (páginas 37-41)

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